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Não há como um filme de vampiros…

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Foto D.R.

Filme brasileiro adapta o mito de Drácula à realidade carioca: no meio da corrupção e dos abusos policiais, os vampiros ainda são os menos maus

Fantasporto sem filme de vampiros seria mais ou menos que um jogo de futebol sem baliza nem bolas. É certo que neste festival já passou um filme francês (“The Open”, a que me referi na crónica de domingo passado) em que se jogava ténis imaginário no meio de um mundo mergulhado na guerra mundial, mas o que a comparação pretende sublinhar é que um festival que não tivesse pelo menos um filme de vampiros seria, por assim dizer, anémico…

E, se já tínhamos tido uma adaptação livre de “Macbeth” feita por um cineasta brasileiro (“A Floresta que se Move”), agora foi a vez de “Vampiro 40 Graus” de Marcelo Santiago. Uma alegoria divertida, não apenas ao submundo do Rio de Janeiro mas à realidade do país. Nada falta: a informação televisiva transformada em “reality show”, a ligação entre tráfico de droga e poder, os excessos policiais, a pobreza das favelas e a massificação dos sem-abrigo. Pelo meio alguns gags hilariantes, por exemplo sobre as fantasias eróticas dos habitantes da Barra, de tal forma transformados em máquinas fornicadoras perpétuas que são usados para gerar corrente elétrica nos prédios…

No fundo quem disse que os vampiros têm que ter o aspeto com que Bram Stoker os descreveu há século e meio? Porque não hão-de andar pelo mundo da alta finança, traficar droga e vestir-se como executivos?

Foto D.R.

Tinha referido ontem que as curtas-metragens estão a tornar-se numa das marcas deste festival e assim é, de facto. De resto, sábado à tarde vai haver uma dupla sessão maratona só com “curtas”. Há algum domínio do cinema francês com duas ou três fitas muito cuidadas esteticamente, como é o caso a que se inspiram nos filmes de aventuras com piratas (“Korser” de Vincent Desgrippes) ou no universo imaginado por Julio Verne, com Paris cheia de metros aéreos pendurados em vigas metálicas iguais às da Torre Eiffel e um viajante que se apaixona pela rapariga que todos os dias vê passar no sentido contrário (“Entre les Lignes” de Emmanuelle Remy e outros).

E também há terror a contra-relógio mas tanto mais admiravelmente feito, quando não é fácil contar uma história, criar um clima e assustar-nos em pouco mais de dez minutos. É o caso de “Blight” (de Brian Deane) sobre um exorcismo numa aldeia remota da Irlanda que é feito mas não pelas
melhores razões ou de “Deathly” (do norte-americano Mike Williamson) sobre a vingança de uma mulher assassinada pelo marido.