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O lusodescendente que escreveu a história que embaraçou o Vaticano e triunfou nos óscares

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Mike Rezendes, à direita, com Mark Ruffalo, o ator que o interpreta em “O Caso Spotlight”

O lusodescendente Michael Rezendes foi o repórter da equipa de investigação do “Boston Globe” que, em 2002, escreveu o primeiro de uma série de artigos sobre um escândalo de abusos sexuais de menores encobertos pela Igreja Católica. Numa entrevista que o Expresso agora republica, fala sobre “O Caso Spotlight” (vencedor do óscar de melhor filme), sobre o futuro do jornalismo de investigação e sobre a sua relação com Portugal

Em 2001, no primeiro dia como diretor do "Boston Globe", Marty Baron [hoje diretor do "Washington Post" e por muitos considerado o melhor diretor de jornais dos EUA] pediu à equipa de investigação do jornal, conhecida como Spotlight, que se debruçasse sobre denúncias de abusos sexuais de menores cometidos por um padre que estavam num pequeno artigo de opinião publicado no diário. O que os quatro jornalistas acabariam por descobrir nos meses que se seguiram foi uma gigantesca conspiração para encobrir os crimes de quase uma centena de clérigos só em Boston.

O escândalo, que levou à resignação do cardeal Bernard Law e envergonhou o Vaticano, daria origem a mais de 600 artigos publicados entre 2002 e 2003 e representou o maior furo nos mais de 140 anos de história do Globe, valendo um Pulitzer à equipa Spotlight. Chega agora aos cinemas, num filme com seis nomeações para os óscares e que nos mostra o jornalismo como ele deve ser e nos recorda a sua importância numa sociedade democrática. O lusodescendente Mike Rezendes, o único dos quatro jornalistas que denunciaram o escândalo que ainda se mantém na equipa Spotlight, falou com o Expresso sobre o filme.

Estou a falar consigo e a cara que vejo é a do Mark Ruffalo. Quão fiel foi a interpretação dele?
Ele fez um trabalho notável. Não consigo imaginar outro ator que fizesse um trabalho melhor.

Encontraram-se pela primeira vez em sua casa. O que é que ele quis saber?
Falámos um par de vezes ao telefone antes de nos conhecermos. O Mark veio a minha casa e, sem grandes demoras, começou a fazer-me perguntas muito pessoais, algo que eu não estava muito à espera. Pensei que ele estivesse mais interessado em saber como é que eu fazia o meu trabalho, mas estava sobretudo interessado em saber porque é que eu tinha escolhido esta profissão e porque é que dedicava a minha vida a esta procura [da verdade]. Tentou perceber-me a um nível psicológico, mais do que apanhar apenas os meus maneirismos. Ficámos grande parte desse dia a conversar e depois ele acompanhou-me durante vários dias no [Boston] Globe.

E porque é que escolheu esta vida?
O que me motivou foi fazer um trabalho que ajudasse a tornar o mundo um lugar melhor. Também gosto de conhecer pessoas, de pesquisar, de escrever... Juntando isso tudo, ser jornalista era o que fazia sentido para mim.

Nestas semanas, o Mike e os seus colegas têm estado literalmente debaixo dos holofotes. Sente-se confortável sendo a notícia?
Para ser franco, ao início foi estranho. Prefiro ser eu a fazer as questões, como deve calcular. Foi um pouco desconfortável, mas habituei-me.

Qual era a sua maior preocupação em relação ao filme?
A minha preocupação era que a história fosse contada de forma precisa. É muito arriscado participar em algo assim, mas confiámos nas pessoas que nos procuraram para fazer este filme. Tivemos muita sorte que a história tenha caído nas mãos de pessoas tão talentosas. Do realizador e dos argumentistas ao elenco todos se dedicaram muito a produzir algo que fosse autêntico.

É recompensador ver o seu trabalho retratado num filme nomeado para seis óscares?
O que é recompensador é ver este trabalho ganhar uma segunda vida. As nossas histórias ajudaram dezenas de milhares de sobreviventes de abusos sexuais por membros do clero em todo o mundo. O filme leva o nosso trabalho a uma audiência ainda maior e mostra às pessoas o valor e a importância do jornalismo de investigação. É um filme sensacional, com duas mensagens nas quais acredito e que são muito importantes.

Quais?
A primeira é que é preciso manter uma atenção contínua ao problema dos abusos sexuais no clero. A Igreja [Católica] deu alguns passos na direção certa para lidar com este assunto, mas o caminho ainda é muito longo. A segunda mensagem é o grande valor do jornalismo de investigação numa sociedade democrática. A democracia não pode funcionar sem bons jornalistas.

A Igreja progrediu menos do que seria de esperar na responsabilização dos padres que cometem estes abusos?
Há seguramente muito mais que a Igreja pode fazer. O Vaticano estabeleceu uma comissão para estudar o assunto e criou um tribunal para responsabilizar os bispos, mas há ainda um longo caminho a percorrer na transparência. Há muito poucas dioceses onde os registos de abusos sexuais foram tornados públicos. Além disso, a Igreja ainda está a combater as vítimas em tribunal, a tornar difícil que possam obter justiça. E falta olhar com atenção para a questão do celibato e não estão nem perto de o fazer. Esperemos que o filme possa inspirar a Igreja a ser mais ativa nesse caminho.

Pessoalmente, o que foi mais difícil nesta história?
O mais difícil na investigação foi ouvir as histórias das vítimas, histórias de tantas vidas que foram destruídas devido a abusos na infância e na adolescência. Eram histórias incrivelmente tristes e foi muito duro ouvi-las e carregá-las connosco. Todos desejávamos poder ter escrito a reportagem antes. Nos EUA, em cada cidade havia muitas pistas. E em cada cidade houve um jornal importante que não escreveu a história. As pistas estavam lá para todos as verem, na América e no Mundo, mas foi preciso a equipa Spotlight do Globe para montar as peças do puzzle e publicar a história.

"O Caso Spotlight" está nomeado para seis óscares, incluindo o de melhor filme, melhor realizador (Tom McCarthy), melhor ator secundário (Mark Ruffalo) e melhor atriz secundária (Rachel McAdams)

"O Caso Spotlight" está nomeado para seis óscares, incluindo o de melhor filme, melhor realizador (Tom McCarthy), melhor ator secundário (Mark Ruffalo) e melhor atriz secundária (Rachel McAdams)

KERRY HAYES

Quanto tempo demorou a investigação inicial até ao primeiro trabalho ter sido publicado?
Foi uma investigação de cinco meses até à primeira história, mas, depois, durante mais de um ano, publicámos 600 outros artigos que levaram à resignação do cardeal Bernard Law [acusado de encobrir os casos de abuso sexual].

Hoje ainda seria possível quatro jornalistas trabalharem exclusivamente numa história durante quase meio ano antes de publicar um trabalho?
Claro que é possível. Aqui no Boston Globe temos os mesmos desafios financeiros que outros meios, tivemos despedimentos, fechámos as nossas delegações no estrangeiro, mas a equipa Spotlight é maior hoje do que era em 2001: temos 6 repórteres ao invés de 4. Os meus colegas acabaram de completar uma investigação que durou um ano a um importante hospital daqui e eu estou a meio de um grande projeto, que olha para o sistema de saúde mental no Massachusetts. É verdade que há muitos meios que estão a cortar nos jornalistas de investigação e isso é insensato, mesmo financeiramente. Podem poupar dinheiro a curto prazo, mas os leitores e telespectadores acabarão por abandoná-los.

O jornalismo mudou muito desde 2001.
Está a mudar. Estamos num período de transição, mas acho que ainda há uma fome de verdadeiro jornalismo de investigação e da procura da verdade. Há muito ruído, muita opinião na internet, mas as pessoas ainda querem os factos e a verdade. É isso que procuram em primeiro lugar quando leem um jornal ou veem um noticiário.

O filme pode ajudar os meios de comunicação e os jornalistas a recentrarem-se no seu papel primordial?
Espero que sim, que passe essa mensagem. O que os inquéritos aos nossos leitores aqui no Globe mostram é que eles adoram a equipa Spotlight e a sua missão de perseguir a corrupção e responsabilizar os poderosos por aquilo que fazem. Todos os jornalistas deviam considerar-se jornalistas de investigação. Espero que o filme inspire jornalistas em todo o mundo a fazer o trabalho que eu acho que eles querem fazer e que os seus leitores esperam que eles façam. Espero que dê significado e um propósito ao seu trabalho. Os jornalistas têm um trabalho muito, muito importante. Espero que o filme os ajude a valorizar a oportunidade.

Falta vencer o desafio de encontrar o modelo de negócio dos media na era digital. A internet pode financiar jornalismo de qualidade?
Ainda está por perceber. A internet basicamente destruiu o velho modelo de negócio para os jornais. Estamos a tentar descobrir um novo modelo, seja a subscrição através da internet, seja a publicidade na internet, algumas organizações estão a usar o modelo não lucrativo, recebendo donativos. Estamos num período de transição e ninguém sabe o que virá. Mas o jornalismo de investigação irá sobreviver. Tem de sobreviver para a democracia funcionar.

A opinião pública do trabalho dos jornalistas nunca foi tão baixa. Como podemos mudar isto?
Talvez o filme ajude! [risos]

É neto de portugueses que emigraram para os EUA. Em 2003, veio com a sua mulher conhecer a terra do seu avô e escreveu um artigo para a secção de viagens do Boston Globe, intitulado "Finding João's Village" (Ao encontro da aldeia do João). O que descobriu?
O meu avô contava-me muitas histórias sobre os Açores e sempre quis conhecer as ilhas, mas foi preciso o editor da secção de viagens do Globe pedir-me para contar essa história. Estive na pequena aldeia onde ele nasceu, Água Retorta, São Miguel, vi a casa dele. O que mais me surpreendeu foi aquela beleza primitiva. Também estive em Lisboa, em Coimbra e no Algarve. Tudo em Portugal é incrivelmente belo, com paisagens maravilhosas, quase intocadas.

Sentiu-se em casa?
Quando era miúdo, todos os meus familiares da parte do meu pai falavam português e comíamos muita comida portuguesa. Sempre me senti um pouco português.