Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

“O Caso Spotlight”. Uma história que alastrou

  • 333

DR

Bob Sherman, o atual embaixador americano em Lisboa, já tinha mostrado aos portugueses a capacidade de descobrir formas imaginativas de passar a sua mensagem. Agora, conta ao Expresso 
o seu envolvimento, como advogado, num famoso caso de pedofilia que foi revelado por uma investigação do diário “Boston Globe” em 2002. O editor da equipa especial que realizou a investigação, Walter Robinson, também falou connosco sobre essa história agora retratada em “O Caso Spotlight”, que ganhou o Óscar de Melhor Filme. Recuperamos um artigo publicado na edição impressa de 30 de janeiro

Luís M. Faria

Jornalista

Bob Sherman não é diplomata de carreira. Cumprindo uma velha tradição americana, foi nomeado embaixador após ter apoiado um candidato presidencial que venceu as eleições — Barack Obama, para cuja campanha Sherman angariou mais de um milhão de dólares. O sistema pode ser criticável (o próprio Obama o deplorou antes de ser eleito) mas tem a vantagem de introduzir na profissão diplomática pessoas com características às vezes refrescantes. Basta pensar no modo como Sherman cumpriu a primeira grande tarefa de que o encarregaram: promover o tratado de comércio intercontinental, ou TTIP. Atualmente em fase final de negociação, o TTIP é fortemente contestado pelos ambientalistas, pelos sindicatos e por uma variedade de outros protecionistas económicos. Sherman, que acha as críticas sem sentido (“haviam de ser os EUA a contribuir para baixar os padrões ambientais ou laborais?”, argumenta) decidiu embarcar num tour pelo país a defender o tratado junto de agentes económicos. Mas não usou a viatura de embaixador. Tirou a carta de mota, pôs-se em contacto com os clubes Harley Davidson existentes em Portugal, e fez-se à estrada com a sua esposa, mais o pessoal de segurança, todos sobre duas rodas. Ele nunca tinha guiado uma Harley Davidson na vida.

De profissão, Sherman é advogado. Numa carreira em que atingiu proeminência, lidou com uma variedade de assuntos. Nenhum o terá marcado tanto como aquele que é tema de um filme de Hollywood agora estreado em Portugal. “O Caso Spotlight” (“Spotlight”, no original) ocupa-se do escândalo de abuso sexual de crianças por padres católicos em Boston. Realizado por Tom McCarthy, o filme é inteiramente contado na perspetiva da equipa especial de jornalistas que fez a investigação durante um ano. A equipa Spotlight, composta por quatro profissionais, fora criada em 1971, seguindo o modelo do “Sunday Times” londrino. Era uma unidade de investigação que funcionava autonomamente, produzindo histórias de fundo — apenas algumas por ano — extensamente investigadas por quatro pessoas que trabalhavam exclusivamente para ela, à margem do resto do jornal. Sendo essencial o segredo, os outros jornalistas não sabiam em que é que o Spotlight estava a trabalhar a cada momento. Embora nas três décadas anteriores a equipa já tivesse sido responsável por histórias importantes, a que publicou no dia 6 de janeiro desse ano adquiriu um significado único. Desde logo, a manchete, “Igreja permitiu abuso por padre durante anos”, prometia ser explosiva numa cidade onde o poder da hierarquia católica se impunha à generalidade das instituições.

Na realidade, não estava em causa um único padre. O que os jornalistas tinham estado a investigar era um problema sistémico. Em seis centenas de artigos publicados ao longo do ano subsequente, explicaram que só em Boston havia quase oitenta padres que tinham cometido abusos sexuais sobre menores e a quem a Igreja tinha protegido; que o modus operandi habitual era transferir esses clérigos da paróquia onde haviam cometido os crimes para outra, onde eles com frequência reincidiam; que as vítimas eram caladas por meios que incluíam dinheiro e formas diversas de intimidação; que os demais poderes instituídos na cidade, desde os políticos aos tribunais e à própria imprensa, eram normalmente cúmplices do silenciamento; e que uma boa parte das vítimas, menores oriundos de famílias pobres que os clérigos seduziam valendo-se do ascendente que tinham sobre eles, ficava com a vida destruída. Muitos não suportavam a vergonha de terem sido levados a praticar certos atos. Interrompiam a sua vida normal, tornavam-se viciados em álcool ou drogas e por vezes suicidavam-se.

Para alguns, o pior de tudo era ninguém acreditar neles, nem sequer os pais. Ainda hoje Sherman recorda o momento em que uma vítima, ao ouvir alguém dizer que acreditava no seu testemunho, quebrou emocionalmente. Décadas antes, o seu pai não tinha acreditado. Para não continuar a ser abusado, ele deixara de ir à escola, e, ostracizado pela família, saíra de casa, indo viver para a rua. Sofreria experiências terríveis, mas a sua dor principal era aquele ceticismo irredutível do pai. Infelizmente, este morreu antes de a verdade sobre dramas como o do seu filho surgir por fim à luz do dia. Quando o “Globe” começou a publicar a história, Sherman (que ainda não viu o filme, mas foi consultor em determinadas partes e sabe que o seu nome surge nos agradecimentos nos créditos finais) já se ocupava desses casos há alguns anos. Diz que foram uma parte muito importante da sua carreira como advogado. Embora ele não apareça no filme, o advogado com quem trabalhava na altura, Eric MacLeish, é um personagem essencial, pois representou dezenas de vítimas nas negociações com a Igreja. Fora, aliás, ele que enviara a denúncia original para o “Boston Globe”, muitos anos antes de o jornal se decidir finalmente a investigar a história. Sherman nessa altura ainda se encontrava no gabinete do procurador-geral, só mais tarde tendo passado para o sector privado.

Bob Sherman deu uma contribuição importante para a investigação que denunciou os abusos em Boston

Bob Sherman deu uma contribuição importante para a investigação que denunciou os abusos em Boston

Nuno Botelho

“Um filme é um filme”, lembra Sherman

Quando vemos MacLeish pela primeira vez no filme, ele aparece quase como cúmplice da Igreja; o advogado que se especializou em silenciar vítimas a troco de pagamentos relativamente baixos para o que se julgaria normal, e dos quais ele recebia uma parte. Com dezenas de situações desse tipo nas mãos, ele arrisca tornar-se o representante de uma pequena indústria especialmente odiosa. Mas depois percebemos que não era exatamente assim. Em termos gerais, como é que MacLeish encarava o assunto? “É importante recordar que um filme é um filme”, explica Sherman. “Baseia-se numa história verdadeira, mas muitas vezes, quando Hollywood se ocupa de uma história, precisa de a alterar ou de utilizar personagens compósitos [i.e. combinar vários personagens num único] para atingir os seus fins. Mas eu diria que Eric MacLeish é um dos heróis autênticos no caso. Na minha perspetiva, foi a sua determinação persistente como advogado que deu destaque na atenção pública ao tema dos predadores dentro do clero.”

Inicialmente, porém, ele parece resistir aos esforços dos jornalistas. Poderia ser que, tendo ficado desiludido com a indiferença deles, achasse que o tipo de solução que se habituara a negociar era o melhor que as vítimas podiam esperar conseguir? “Não tome o filme como a verdade absoluta em relação aos factos”, avisa Sherman. “Os advogados estavam obrigados ao sigilo profissional. Nenhum advogado podia falar de um modo que os seus clientes não quisessem. Na altura havia uma relutância das vítimas em assumir um grande papel público. Os advogados encontravam-se limitados. A contribuição que o ‘Globe’ deu foi trazer tudo a público, com a colaboração de muita gente, incluindo eu e o meu sócio. Tornou-se seguro para outros aparecerem, pois compreenderam que não estavam sozinhos.”

Sherman já se ocupava desses casos desde os anos 90. Foi abordado pelo líder da equipa Spotlight, Walter Robinson, quando este se convenceu de que por trás da história de um único abusador — o padre John Geoghan, com dezenas de vítimas no seu cadastro — podia esconder-se uma outra muito maior. “Trabalhei com ele na preparação daquela primeira história”, recorda Sherman. “Depois disso, acho que cerca de 525 vítimas de abuso por clérigos falaram. Eu e o meu sócio representámos umas 380, 385. Tivemos, portanto, a maioria delas como clientes.”

O escândalo alastraria ao resto do país, e a seguir ao estrangeiro, vindo a abranger centenas de dioceses pelo mundo fora (uma lista surge no final do filme). Foi responsável por um nível de desprestígio ao qual nem figuras como João Paulo II e o cardeal Ratzinger, mais tarde Papa Bento XVI, escapariam incólumes. As regras internas foram alteradas, acabando-se com a prática de transferir os padres pedófilos, que lhes permitia continuarem os seus crimes em lugares diferentes, e impondo-se uma regra de denúncia às autoridades.

Uma reunião editorial da equipa Spotlight

Uma reunião editorial da equipa Spotlight

DR

Há justiça possível nestes casos?

Se as perdas de autoridade moral foram elevadas — em Boston e noutros lugares, a Igreja nunca voltou a ter o poder que tinha — também o foram as perdas financeiras. 10 milhões de dólares foram distribuídos só pelas vítimas de Geoghan, e houve que negociar com centenas de outras, obrigando a Igreja a desfazer-se de parte do seu património imobiliário. Sherman participou no sistema de arbitragem que distribuiu os pagamentos. Acha que foi feita justiça?

A voz de Sherman fica um pouco mais lenta, mais emocional e deliberada. “Não seria possível obter justiça nos tribunais. Deixe-me explicar o que quero dizer. Aquelas eram pessoas que tinham crescido em famílias católicas, a quem fora ensinado que os padres eram os representantes de Deus na Terra, e que foram molestadas de uma forma que os levou a sofrer problemas pessoais severos. Famílias foram destruídas, eles perderam a fé, ficaram com dificuldade em confiar noutras pessoas, em se comprometer com uma relação. Com frequência, houve abuso de substâncias, pois tentavam entorpecer-se, com a dor do que estavam a passar.”

Sherman é categórico: “Não há maneira de um sistema de justiça imperfeito lhes poder devolver o que perderam. Os acordos nestes casos, mais do que dinheiro, foram uma admissão pela Igreja de que tinha sido feito mal a muitas crianças dentro da diocese. O que elas receberam foi o reconhecimento, pelo qual tinham esperado toda a vida, de que a culpa não era sua, de que foram vitimizadas por predadores que viviam entre clérigos dedicados da Igreja Católica.”

Nas interações que teve com elas, sentiu que a medida de justiça obtida, insuficiente como era, tinha ajudado? “A resposta é a alguns sim, a outros não”, diz Sherman. “Quando se lida com seres humanos, não podemos esperar uma reação uniforme. Para muitos dos nossos clientes, permitiu-lhes seguir em frente, receber a confirmação que procuravam. Outros estavam tão destruídos, após décadas a viver com o trauma que os tinha atingido, que não podiam recuperar tão depressa. Sabíamos isso na altura. O que tentámos foi responder, dentro do sistema existente, aos problemas que um grupo concreto tinha. Mas também fazer com que o abusado seguinte, que ainda nem sabia que o ia ser, alguma vez tivesse de enfrentar essa situação, chamando a atenção e corrigindo os processos que havia na altura.”

Além das indemnizações e das mudanças nos procedimentos internos da Igreja, colocavam-se questões de responsabilidade criminal. Vários padres abusadores foram presos, e outros só não o foram porque os prazos legais de prescrição eram bastante curtos (outro aspeto entretanto alterado, por se ter percebido que uma criança abusada, por vezes, só muito tempo depois consegue falar do assunto, quanto mais fazer uma denúncia). Mas em relação aos responsáveis pelo encobrimento propriamente dito, não houve acusações em tribunal. Um dos principais, o cardeal Bernard Law, de Boston, foi rapidamente retirado de Boston e enviado para Roma, onde o puseram à frente da Igreja de Santa Maria Maggiore, uma das maiores de Roma. Mas se um bispo ou um cardeal muda um padre para outra diocese e ao fazê-lo lhe permite praticar novos crimes, não é ele também responsável, criminalmente falando — pelo menos à luz da lei atual?

“Sim”, responde Sherman. E já alguém foi realmente processado por isso? “Não. Mas acho que é porque, tanto quanto sei, a Igreja no Massachusetts ficou extremamente consciente do problema, e a automonitorização que agora tem impede que se mova um padre pedófilo de paróquia em paróquia, oferecendo-lhe um novo grupo de vítimas. Tenho bastante confiança em dizer que a Igreja se tornou muito vigilante em relação a esse tipo de situação.” Até porque desde que o Papa Francisco — de que Sherman é um grande admirador — iniciou o seu pontificado a Igreja mudou muito.

Robinson (Michael Keaton) e o luso-americano Mike Rezendes (Mark Ruffalo), outro membro da equipa

Robinson (Michael Keaton) e o luso-americano Mike Rezendes (Mark Ruffalo), outro membro da equipa

DR

Uma última revelação

Sherman diz que o mérito cabe aos jornalistas. Na sua opinião, a investigação que o “Boston Globe” começou a publicar em janeiro de 2002 é um dos momentos altos do jornalismo americano, a par com os Papéis do Pentágono (“New York Times”, 1971) e o Watergate (“Washington Post”, 1972-74). A pessoa que ele elogia acima de todas, Walter Robinson, também admite que uma história com a importância dessa só acontece “raramente, dada a enormidade do crime e a natureza extremamente espalhada e não descoberta do mesmo”.

Falando ao Expresso a partir de Londres, Robinson acrescenta: “Quero ser muito respeitoso em relação à Igreja, mas havia com efeito uma conspiração criminosa à escala mundial para encobrir o abuso sexual praticado, pelo menos nos Estados Unidos, por milhares de padres. O facto de isso ter arruinado a vida de tanta gente é extremamente inquietante.”

Na sua opinião, quão alto ia o encobrimento? “Não sei. O Vaticano sabia claramente o que se passava, mas havia alguma ingenuidade por parte da Igreja, nos anos 80. Viam isto como pecados para perdoar, não crimes para julgar. E pensavam que se um padre exprimisse arrependimento não voltaria a fazer a mesma coisa. Conforme sabemos, em praticamente todas as arquidioceses, pelo menos nos Estados Unidos e em muitas outras pelo mundo fora, incluindo as que eram lideradas pelo futuro Papa Bento XVI e na que fora do homem que em 2002 era o Papa João Paulo II, havia a mesma prática de transferir padres de uma diocese para outra, e o mesmo tornava a acontecer, numa medida ou noutra.”

Mas se se transfere um padre várias vezes e os problemas se repetem, ainda se pode falar em ingenuidade? “Correto. E ficámos completamente confusos quando vimos que, por exemplo, o padre Geoghan tinha estado em seis paróquias e em cada uma delas havia provas, conhecidas pela diocese, de que ele abusava crianças. Na última em que esteve, ficou encarregue dos meninos do altar.” Robinson diz que, em dezenas de milhares de páginas de correspondência entre dignitários católicos em Boston, não se encontra uma única referência à preocupação com as vítimas. Quando se mencionava o assunto, era na perspetiva de evitar o eventual escândalo para a Igreja. “Por outras palavras, como impedir que o mundo soubesse daquilo. Era a sua primeira preocupação, e normalmente a única?”

Ainda em matéria de responsabilidade, também não se deve esquecer — e “Spotlight” mostra-o bem — que a tendência para negligenciar era comum a outras instituições. Entre as quais, a imprensa. Perto do fim do filme, numa reunião da equipa de investigação, é revelado que a denúncia enviada anos antes pelo advogado MacLeish sobre os abusos repetidos cometidos por um padre tinha sido ‘enterrada’ na secção ‘local’ do jornal e rapidamente esquecida, sem se efetuar qualquer investigação. O editor dessa secção na época era... Walter Robinson.

Ele admite que a responsabilidade, em última análise, era dele, mas garante que não se lembra. Diz que tinha recebido a editoria da secção apenas há duas semanas. A cena apresentada no filme não aconteceu, pois a equipa na altura ainda não tinha encontrado o clipe da tal notícia, mas ele diz que os argumentistas do filme tinham legitimidade para levantar o ponto em causa.

De qualquer modo, ele, pela sua parte, prefere enfatizar que crimes como os descritos jamais poderão ter lugar àquela escala. Nascido católico mas de fé entretanto enfraquecida, como os restantes membros da equipa Spotlight, nota que a Igreja em Boston perdeu o peso que tinha em numerosas áreas da vida pública. Robinson louva o papel de outras pessoas, incluindo o de Sherman. “Foi muito útil a muitos sobreviventes que meteram processos depois de a história rebentar, mas também nos foi útil a nós, ajudando-nos a compreender o que se estava a passar, e a extensão do encobrimento.”

Uma conversa entre Robinson e o seu editor Marty Baron

Uma conversa entre Robinson e o seu editor Marty Baron

DR

[ Artigo publicado na edição do Expresso de 30 de janeiro ]

  • “O Caso Spotlight” contado por dois jornalistas que estiveram lá (incluindo “o melhor diretor da América”)

    Poucas semanas antes do 11 de setembro, o novo diretor do jornal “Boston Globe” encarregou a equipa Spotlight de investigar um caso que tomou proporções dramáticas e que mexeu objetivamente com o mundo inteiro. O Expresso falou com alguns dos protagonistas desses acontecimentos jornalísticos, incluindo aquele que muitos consideram o melhor diretor de jornais dos Estados Unidos. “O Caso Spotlight” venceu dois óscares: melhor argumento original e melhor filme

  • O lusodescendente que escreveu a história que embaraçou o Vaticano e triunfou nos óscares

    O lusodescendente Michael Rezendes foi o repórter da equipa de investigação do “Boston Globe” que, em 2002, escreveu o primeiro de uma série de artigos sobre um escândalo de abusos sexuais de menores encobertos pela Igreja Católica. Numa entrevista que o Expresso agora republica, fala sobre “O Caso Spotlight” (vencedor do óscar de melhor filme), sobre o futuro do jornalismo de investigação e sobre a sua relação com Portugal

  • Um a um, os vencedores dos óscares

    Balanço rápido: “Mad Max” tem seis, “O Renascido” três, “O Caso Spotlight” fica com dois dos bons (incluindo o óscar mais ambicionado) e depois há muita distribuição. Notas: “Star Wars” tinha cinco nomeações e falhou todas; “Carol” (ide ver, ide ver) tinha seis e também perdeu tudo; “Perdido em Marte” falhou as sete nomeações que lhe deram