Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

(Quase) nada de novo na frente de Hollywood

  • 333

MARIO ANZUONI

Chris Rock foi cruel, direto e corajoso: "Hollywood é racista? Podes crer.” E acrescentou: “Quando a avó está pendurada numa árvore, é difícil importarmo-nos com a Melhor Curta-metragem Documental Estrangeira”

Foi preciso esperar até perto das cinco da madrugada para que uma surpresa acontecesse na cerimónia dos Óscares: o triunfo de “O Caso Spotlight” como Melhor Filme, ao fim de uma noite em que tudo confirmara as previsões. De Iñarritu a DiCaprio, de Alicia Vikander a Ennio Morricone, ganhou quem se esperava que ganhasse – incluindo a seis estatuetas de “Mad Max: Estrada da Fúria” que acabou como o filme mais laureado da noite. Até a convocação da questão racial para o discurso de abertura do apresentador Chris Rock fora conforme o que se conjeturava. Não se esperava era tanta contundência. Entre o irónico quanto ao charivari que o facto de não haver nomeados negros levantara e um tom ainda risonho, mas muito mais a sério, quando perguntou se Hollywood é racista – e a resposta foi ‘sim’ (“Is Hollywood racist? You're damn right Hollywood is racist”) – Rock foi cruel, direto e corajoso. Lembrou, por exemplo, que nos anos 50 e 60 não havia protestos dos negros americanos quanto aos óscares porque “nós tínhamos coisas reais para protestar”. E, em jeito de punchline, acrescentou: “Quando a avó está pendurada numa árvore, é difícil importarmo-nos com a Melhor Curta-metragem Documental Estrangeira”. É um registo de humor muito para além do que é costume na cerimónia dos Óscares.

A questão da diversidade marcou, aliás, toda a cerimónia, seja nas várias intervenções de Rock ao longo da noite, seja em apontamentos de humor, seja, sobretudo, pela presença no palco de um número desusado de afro-americanos a mostrar como o talento negro tem sido importante no cinema americano e reconhecido pela Academia ao longo dos anos.

A diversidade racial não foi o único tema de carácter político a ser convocado para o palco do Dolby Theatre. Do combate da comunidade LGBT, às questões da ecologia e ao problema das violações em campus universitários, vários foram os temas sem glamour, mas muito urgentes, a estar presentes. Foi, assim, talvez apenas lógico que o Melhor Filme do Ano não fosse uma história de sobrevivência numa América pioneira, mas uma investigação jornalística nossa contemporânea sobre o escândalo da pedofilia no clero católico de Boston. Um grito que um dos produtores declarou esperar que chegue até ao Vaticano.

  • O segundo “mais estridente espetáculo americano” vivido ao minuto

    O “mais estridente espetáculo americano a seguir às primárias republicanas” (palavras de Pedro Mexia, que esteve no live blog do Expresso que acompanhou os óscares ao minuto) está concluído: o óscar principal, de melhor filme, foi para “O Caso Spotlight”, que venceu ainda o de melhor argumento original. “O Renascido”, o grande favorito (12 nomeações), ficou com três estatuetas: melhor realizador (Alejandro Iñárritu), melhor ator (DiCaprio), melhor fotografia. “Mad Max” esmaga nas categorias técnicas e é o filme com mais óscares (seis no total): melhor edição, melhor edição de som, melhor mistura de som, melhor cenografia, melhor guarda-roupa e melhor caracterização. O Expresso acompanhoi tudo em direto: Pedro Mexia, Pedro Santos Guerreiro, Miguel Cadete, Katya Delimbeuf e João Miguel Salvador descreveram, criticaram, elogiaram, observaram. Foi assim o minuto a minuto

  • Um a um, os vencedores dos óscares

    Balanço rápido: “Mad Max” tem seis, “O Renascido” três, “O Caso Spotlight” fica com dois dos bons (incluindo o óscar mais ambicionado) e depois há muita distribuição. Notas: “Star Wars” tinha cinco nomeações e falhou todas; “Carol” (ide ver, ide ver) tinha seis e também perdeu tudo; “Perdido em Marte” falhou as sete nomeações que lhe deram

  • Começámos com espanto, acabámos surpreendidos

    “Mad Max” entrou na noite dos óscares como irrompe na tela: pleno de fúria e a esmagar tudo em torno - limpou seis óscares de repente e ninguém fez melhor em quantidade. Mas “O Caso Spotlight”, esse objeto cinematográfico que recupera a fé no jornalismo, fez melhor em qualidade: levou o óscar mais importante (melhor filme) - foi a surpresa depois do espanto com “Mad Max”. “O Renascido”, hiperfavorito (12 nomeações), foi assim-assim: melhor ator (finalmente DiCaprio), melhor realizador (Iñárritu faz o bi, depois de “Birdman”) e melhor fotografia. Lamentos: “Star Wars” tinha cinco nomeações, levou zero (foi batido por “Ex Machina” em casa, nos efeitos visuais); “Carol” tinha seis nomeações, também saiu sem nada (uma pena, é daqueles filmes que nos fazem bem); “Perdido em Marte” fez jus ao verbo - perdeu tudo e era muito (sete nomeações). E sim, Chris Rock foi direto ao assunto - #OscarSoWhite (como o casaco do smoking dele)

  • O lusodescendente que escreveu a história que embaraçou o Vaticano e triunfou nos óscares

    O lusodescendente Michael Rezendes foi o repórter da equipa de investigação do “Boston Globe” que, em 2002, escreveu o primeiro de uma série de artigos sobre um escândalo de abusos sexuais de menores encobertos pela Igreja Católica. Numa entrevista que o Expresso agora republica, fala sobre “O Caso Spotlight” (vencedor do óscar de melhor filme), sobre o futuro do jornalismo de investigação e sobre a sua relação com Portugal

  • “O Caso Spotlight” contado por dois jornalistas que estiveram lá (incluindo “o melhor diretor da América”)

    Poucas semanas antes do 11 de setembro, o novo diretor do jornal “Boston Globe” encarregou a equipa Spotlight de investigar um caso que tomou proporções dramáticas e que mexeu objetivamente com o mundo inteiro. O Expresso falou com alguns dos protagonistas desses acontecimentos jornalísticos, incluindo aquele que muitos consideram o melhor diretor de jornais dos Estados Unidos. “O Caso Spotlight” venceu dois óscares: melhor argumento original e melhor filme