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“Trumbo”: a democracia é o tipo de vida que um homem decente leva

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Estávamos em plena caça às bruxas - a bem dizer, aos comunistas - nos Estados Unidos quando o argumentista de Hollywood Dalton Trumbo foi, com outros nove colegas, colocado na lista negra da indústria do cinema. As filhas recordam com clareza esses tempos: “Nós sobrevivemos à lista negra, mas muitos não conseguiram. Vidas foram destruídas”. “Trumbo” tem uma nomeação na categoria “melhor ator”, por via da interpretação de Bryan Cranston

- Atualmente pertence ou já alguma vez pertenceu ao Partido Comunista?

-Deve ter alguma razão para me perguntar isso. Ouvi dizer que alguns meios de comunicação receberam uma cópia do meu cartão de militante, é verdade?

-Você não está a fazer as perguntas!

-Estava, sim.

-Pertence ou já alguma vez pertenceu ao Partido Comunista?

-Creio que tenho o direito de ser confrontado com qualquer prova que sustente esta questão. Gostava de ver o que tem contra mim.

-Ai gostava?

-Sim.

-Poderá fazê-lo muito brevemente.

28 de outubro de 1947. De um lado, os membros da comissão de atividades antiamericanas, encarregados de investigar a indústria de Hollywood em busca de ovelhas negras ou, neste caso, vermelhas; do outro, um homem que fuma incessantemente e se nega a responder às perguntas que lhe são colocadas ou a denunciar os seus pares: Dalton Trumbo.

Estamos no arranque da caça às bruxas nos Estados Unidos: é o início da Guerra Fria e do ódio aos comunistas, que nos próximos anos se encarregará de deixar marcas difíceis de sarar. A perseguição simbolizada pelo senador Joe McCarthy está quase a começar - daí a três anos, 200 funcionários do departamento do Estado serão acusados de pertencerem ao Partido Comunista, visto como o inimigo por representar os laços desejavelmente cortados com a União Soviética.

É na sequência desta investigação que Trumbo se torna um símbolo de resistência. Argumentista e escritor de sucesso, Dalton Trumbo é, depois desta sessão e acompanhado por outros nove argumentistas, considerado culpado por desrespeito ao Congresso norte-americano e colocado na lista negra de Hollywood. Bryan Cranston, ou Trumbo – no novo filme de Jack Roach, os óculos, tiques e dicção dos dois confundem-se - mantêm a posição de firmeza até ao fim deste período negro para a cultura americana, no início da década de 1960.

Uma vida de altos e baixos

Trumbo casou com a mulher, Chloe, em 1939, no mesmo ano em que publicou o seu livro de sucesso "Johnny Got His Gun", vencedor de um National Book Award. Nesse ano, Trumbo deparou-se com uma sorte até então desconhecida: nascido em 1905 em Montrose, Colorado, o argumentista perdeu o pai quando estudava Jornalismo na Universidade do Colorado, sendo a partir dessa altura obrigado a fazer malabarismo com vários empregos (Trumbo chegou a trabalhar como padeiro) e sem encontrar editoras que lhe publicassem os livros.

No entanto, quando conheceu aquela que viria a ser a mãe dos seus três filhos (Nikola, Mitzi e Christopher), tudo pareciam ser boas notícias para Trumbo. Durante a década de 1930, o escritor publicou artigos no Saturday Evening Post, na Vanity Fair e no Hollywood Spectator, onde se tornou editor. Em 1936, um ano depois de ter assinado contrato com a Warner Brothers, assinou o primeiro filme como argumentista, no drama criminal "Road Gang" - mal sabia que passaria cerca de uma década sem poder voltar a fazê-lo.

O azar de Trumbo chegou de forma irónica. Membro do Partido Comunista desde 1938, depois da publicação de "Johnny Got His Gun" - um livro batizado pela crítica como "o maior escrito antiguerra de sempre" – Trumbo começou a receber cartas de fãs nazis. O argumentista reportou estas mensagens ao FBI, que pouco tempo depois acabaria por investigar o próprio Trumbo.

Em 1950, depois da investigação em que a comissão de atividades antiamericanas visou esclarecer circunstâncias de suposta divulgação de propaganda comunista sobre as audiências americanas, os dez de Hollywood foram presos por desrespeito ao Congresso.

A democracia é algo por que se vive e morre

"A democracia não é como um fato chique que se veste ao domingo. É o tipo de vida que um homem decente leva, e é algo por que se vive e morre". As palavras foram escritas por Trumbo e ilustram a sua luta, uma vez que, como confirma a filha mais nova, Mitzi, ao "Guardian", "o comunismo não era muito importante para ele". "Era um pensador independente (…) e estava a lutar pelos princípios da democracia, da justiça e dos direitos civis."

Em nome desses ideais, Trumbo acabou por passar 11 meses na prisão. Quando voltou, o cenário mantinha-se: nenhum produtor ou realizador lhe dava trabalho, no auge do ódio americano aos comunistas. Por isso, Trumbo viu-se obrigado a pensar numa solução alternativa para continuar a sua vida e o seu talento: trabalhar, mesmo que não o deixassem.

O outrora argumentista mais bem pago de Hollywood, enfiado na banheira com a máquina de escrever à frente, cigarro na mão, copo na outra, inventou pseudónimos e passou o período entre 1956 e 1958 a escrever cerca de 18 argumentos, cobrando em média 1.750 dólares, ou 1.590 euros, por cada um e vendendo-os na sua maioria à pequena empresa dos irmãos King, que produziam filmes de baixa qualidade e orçamento.

Nessa época, Trumbo foi Robert Rich ou Sam Jackson, entre outros – e foram estes escritores fictícios ou amigos do autor que assinaram argumentos como os de "Roman Holiday", o famoso clássico de Audrey Hepburn, ou "The Brave One", ambos vencedores do óscar para melhor argumento original. Tudo escrito por Trumbo, a partir de sua casa e sem nunca revelar o seu nome verdadeiro.

Quem pôs fim à lista negra?

A oportunidade de finalmente quebrar a lista negra e voltar a ver o seu nome num grande ecrã surgiu com dois filmes cujos argumentos pensou e escreveu em 1960 – "Spartacus", encomendado pelo ator Kirk Douglas, e "Exodus", uma missão que lhe foi encarregada pelo realizador Otto Preminger. Sobre quem deve receber o mérito de ter voltado a pôr Trumbo nas merecidas luzes da ribalta, mesmo todos estes anos depois, a incerteza permanece.

"Querido Kirk, aqui tens a única cópia deste livro [Johnny Got His Gun] assinada com o nome com que nasci e com o outro nome que me permitiste adoptar em circunstâncias abençoadas, que me permitiram respeitar e acarinhar tanto o novo nome como o novo amigo que o tornou possível. Com carinho, Sam Jackson/ Dalton Trumbo." Esta dedicatória, citada por Douglas no seu livro de 2012 "I Am Spartacus! Making a Film, Breaking the Blacklist", pode ser vista como prova da importância de Douglas na carreira de Trumbo.

No entanto, como o filho Christopher recordaria anos mais tarde, Otto Preminger foi o primeiro a anunciar que Trumbo assinaria Exodus, em janeiro de 1960; Douglas só fez o mesmo relativamente a Spartacus mais tarde, em agosto desse ano, e ambos os filmes estrearam no final de 1960. Se Mitzi Trumbo recusa atribuir todo o mérito que tem sido reclamado por Douglas ao ator, a filha de Trumbo relembra que em rigor "não houve uma pessoa sozinha que tivesse sido responsável por quebrar a lista negra. Trumbo nunca o reivindicou".

Na altura, já pouco faltava para que o fim desta lista se oficializasse, recorda Douglas no mesmo livro: "Quando contratei Dalton Trumbo para escrever Spartacus sob o pseudónimo Sam Jackson, todos andávamos a contratar escritores da lista negra. Era um segredo conhecido e um ato de hipocrisia, assim como a forma de ter os melhores talentos por uma pechincha".

Recuperámos os nossos nomes

O fim da lista negra acabou por acontecer de forma semi-oficial depois de Trumbo - ou Robert Rich – vencer o óscar de melhor argumento original por "The Brave One". Na altura, o argumentista deu uma entrevista em que assumia a autoria da história e esclarecia: "Tenho uma filha de 13 anos [Mitzi]. Estou na lista negra desde que ela tinha três anos, e ela sabe o nome de todos os filmes que escrevi neste escritório, e guardou o segredo. É um soldado. Se receber o óscar, acho que lho vou dar e dizer que já não tem de guardar segredo. Recuperámos os nossos nomes".

Readmitido à Writers Guild of America, depois daquele período negro da sua vida e carreira Trumbo trabalhou num sem número de filmes de sucesso e chegou mesmo a receber, 18 anos depois, o devido óscar por "The Brave One". No caso de "Roman Holiday", o sucesso chegou tarde: o prémio foi-lhe atribuído de forma póstuma em 1993, uma vez que Trumbo faleceu em 1976, aos 71 anos, de ataque de coração.

Trumbo conseguiu reconstruir a carreira mas, como a filha Mitzi recorda ao "The Guardian" (Brian Cranston também o faz, num momento agridoce que encerra o filme), nem todos os membros da lista negra conseguiram recuperar as suas vidas: "Nós sobrevivemos à lista negra, mas muitos não o fizeram. Houve divórcios e suicídios. Vidas foram destruídas".