Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

“Steve Jobs”: uma das mulheres da vida dele (mas nunca a “esposa no trabalho”)

  • 333

Corria o ano de 1980 quando Joana Hoffman foi assistir a uma palestra e se envolveu numa discussão acalorada com o homem que estava no palco. Foi o início de uma longa carreira na Apple, onde se tornou o braço direito de Steve Jobs - e nunca a sua “esposa no trabalho”. “Steve Jobs” tem duas nomeações: melhor ator e melhor atriz

É difícil acrescentar alguma coisa de novo a uma vida tão pública e escrutinada como foi a de Steve Jobs. Sobre o criador da Apple, já se disse tudo: que era um génio, que não tinha escrúpulos, que era um visionário, que maltratava os mais próximos, que era um entusiasta, que era arrogante. Três filmes sobre Jobs depois poderíamos pensar que já não havia nada a descobrir, mas foi então que chegou o "Jobs" e nos apresentou uma das mulheres da vida dele: Joana Hoffman, interpretada por Kate Winslet.

Se é verdade que sobre Jobs já conhecemos tudo, da invenção do Macintosh numa garagem à acensão-queda-ascensão do CEO da Apple na sua própria empresa, podemos então desculpar "Steve Jobs" por assumidamente não se tratar de uma biografia exata. Ou não fosse Aaron Sorkin, rei dos diálogos tão inteligentes quanto épicos, o responsável pelo argumento do filme (é improvável que Hoffman alguma vez se tenha zangado com Jobs ao ponto de desarrumar todo o escritório e ameaçar despedir-se, num ataque de raiva, enquanto o CEO da Apple se ajoelhava para resolver os estragos).

Mas "Steve Jobs" já foi objeto de várias polémicas. O atual CEO da Apple, Tim Cook, disse no ano passado, quando visitou o talk-show norte-americano "Late Show with Stephen Colbert": "Os filmes que estão a sair desde a morte de Steve são oportunistas e eu odeio isso". Sorkin ripostou, com uma tirada que facilmente faria parte do argumento de um dos seus filmes: "Primeiro, ninguém fez este filme para ficar rico. Segundo, o Tim Cook devia ver o filme antes de opinar sobre ele. E terceiro, quando tens uma fábrica cheia de crianças na China a montarem telemóveis por 17 cêntimos/hora, é preciso ter lata para chamares oportunista a alguém".

O próprio Sorkin já veio a público esclarecer que "esta não é uma biografia exata e cronológica", uma vez que o objetivo principal do filme é "captar o espírito de Jobs" e não voltar a contar a história do princípio ao fim. Para isso, Sorkin foi buscar os seus habituais diálogos intrincados (aviso à navegação: o argumentista admite que "se eles aconteceram na realidade, é uma coincidência admirável") e a personagem feminina que nos permite chegar a facetas de Jobs que nunca nos tinham sido apresentado antes.

Desde a morte do criador da Apple, já tivemos oportunidade de conhecer três versões de Jobs: a de Ashton Kutcher, que foi Jobs em 2013; a do filme "Steve Jobs: The Man in the Machine", de 2015; e agora, a de Michael Fassbender, que aposta tudo para captar a essência do retratado e nada do aspeto físico, como o próprio já admitiu (neste sentido, Kutcher apresenta muito mais semelhanças com o criador do Macintosh). No entanto, nos dois primeiros filmes foi notória a ausência de Joana Hoffman, o que é de estranhar uma vez que ela integrou a primeira equipa que desenvolveu o Macintosh, tendo depois feito carreira na empresa como braço-direito de Steve Jobs.

A mulher que fez frente a Jobs

Em 1981, os membros da equipa que desenvolvia o Macintosh inventaram uma competição anual pouco ortodoxa. Objetivo: distinguir o empregado que mais fazia frente ao desafiante CEO. A vencedora do prémio nesse ano e no seguinte foi Joana Hoffman, que chegara à empresa um ano antes, com uma pré-entrevista pouco habitual.

"Fui contratada por Jef Raskin, que reuniu a primeira equipa do Macintosh, depois de ter assistido a uma palestra sua e de me ter envolvido numa discussão acalorada com ele", recorda Hoffman. O perfil combativo dela agradou a Raskin, o que acabou por resultar na sua integração como quinto membro da equipa do Mac.

Kate Winslet, que esteve com Hoffman em diversas ocasiões, explica o que levava Hoffman a não ter medo de contrariar as vontades do obstinado Jobs, citada pelo website Next Shark: "Ela nasceu na Polónia [Hoffman é filha de pai polaco e mãe arménia] e mudou-se para a América na adolescência. Há coisas que experienciou enquanto criança quando vivia na Europa de Leste que fizeram dela uma pessoa forte". Chegada aos Estados Unidos, Hoffman estudou linguística, física e antropologia, mas acabou por abandonar o doutoramento em arqueologia para se dedicar à empresa onde faria carreira.

Das previsões gloriosas à realidade

Na Apple, Hoffman caiu de paraquedas: dedicada ao projeto de investigação que ainda era o Macintosh, escreveu planos de negócio e o primeiro manual de utilização do computador. No entanto, meses depois da sua chegada, Steve Jobs decidiu reorientar a empresa e lançar o Mac como o projeto principal da Apple, redefinindo as funções de Hoffman, que passou então a ser a única responsável de marketing na empresa ("na altura, pensei: 'O que é o marketing?'", recordou recentemente Hoffman, numa conferência em Palo Alto, Califórnia).

A ascensão de Hoffman deu-se rapidamente, tendo acabado por se encarregar da gestão de marketing de produto a nível internacional e, no último ano em que trabalhou na empresa, do desenvolvimento dos novos produtos da Apple. No entanto, a relação de Jobs e Hoffman não se resumia aos aspetos laborais, e Hoffman chegou mesmo a segui-lo para a NeXt, a empresa que Jobs fundou e geriu durante os 12 anos em que esteve afastado da Apple por decisão do próprio conselho de administração.

É na NeXt que Jobs e Hoffman têm uma das únicas discussões de que ainda há registo, e que ilustra, de acordo com a própria Hoffman, os problemas que surgiam frequentemente por causa do estilo megalómano de Jobs: "Ele era muito entusiasta e havia sempre um caminho a percorrer, das suas previsões gloriosas até à realidade". No vídeo em baixo, Hoffman confronta Jobs depois de o CEO da NeXt pedir à equipa para desenvolver um novo produto em apenas 18 meses: "A distorção da realidade que fazes tem o seu valor, mas quando os prazos afectam o design do produto, isto torna-se uma grande porcaria".

"Eu não era a mulher dele no trabalho"

Sobre o filme, a verdadeira Hoffman, que elogia a prestação de Winslet, esclarece: "Eu não era a mulher de Steve Jobs no trabalho, nem de ninguém", impressão refletida em muitas das críticas ao filme, em parte devido às cenas em que Hoffman aconselha o patrão sobre a sua vida pessoal. "O que foi importante para mim foi que se transmitisse o tom da minha relação com o Steve. Originalmente, a personagem era muito submissa".

Hoje, Joana Hoffman vive em Silicon Valley e é casada com Alain Rossman, um empresário americano que também fez parte da equipa do Macintosh, com quem tem dois filhos. Aos 60 anos de idade e a viver o período de maior atenção mediática da sua vida, Hoffman ajudou numa entrevista recente a explicar o tão escrutinado feitio do amado e odiado Jobs: "As expectativas dele sobre si próprio eram muito altas. Ele era tão enérgico e tinha um nível de entusiasmo tão inacreditável sobre tudo o que fazia que esperava o mesmo de todos os que o rodeavam. Por isso, para ele, ou eras excelente, ou eras incompetente".