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Serralves e os almoços grátis

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SERRALVES. Uma petição pública protesta contra o aumento dos preços e o fim da gratuitidade de acesso dos estudantes

LUCÍLIA MONTEIRO

Uma petição pública protesta contra o aumento dos preços e o fim da gratuitidade de acesso dos estudantes

A mercantilização dos museus e a sua vertiginosa atração pelos recordes de públicos, alimentada desde há muitos anos, mesmo pelas mais relevantes instituições artísticas do mundo, não podia deixar de ter um lado perverso. Cedo se percebeu nessa apetência por números cada vez mais gigantescos uma vontade extrema de fazer do museu, não já o espaço de interrogação e reflexão que sempre o caracterizara, mas um rival dos principais focos de atração de massas da sociedade contemporânea. Por vezes à custa, até, do programa artístico, submetido à lógica do crescimento exponencial de visitantes.

Não pode, nem deve, ser dissociada desta lógica a polémica em que se vê agora envolvido o Museu de Arte Contemporânea de Serralves, a braços com os efeitos na opinião pública de uma petição posta a circular nas redes sociais contra o inesperado, não explicado em tempo devido e exagerado aumento de preços de acesso ao museu.

Primeiro uma ou duas verdades às quais ninguém se pode furtar, sob pena de ficar o debate viciado. Até 2012, Serralves tinha um orçamento de €9,4 milhões. Sucessivos cortes desembocaram, em 2015, num orçamento de €7,4 milhões. O Estado tem vindo a reduzir sucessivamente a sua participação. A última transferência para a instituição foi de apenas €2,87 milhões, ou seja, 38% do orçamento global. Coube à Fundação tratar de encontrar os €4.5 milhões em falta. É muito dinheiro e é muito significativa a dimensão dos cortes ocorridos nos últimos três anos.

MUDANÇA. Acaba a gratuitidade aos domingos de manhã

MUDANÇA. Acaba a gratuitidade aos domingos de manhã

RUI DUARTE SILVA

Agora, os dados passíveis de proporcionarem diferentes leituras. O Museu fez grande alarde dos 523 mil visitantes recebidos em 2015. É um número estratosférico para a realidade dos museus em Portugal, se descontarmos o Museu da Coleção Berardo, no Centro Cultural de Belém, com 572 355 entradas. Em 2014, o Museu de Arte Antiga foi o museu público mais visitado com 221 675 entradas, seguido do Museu dos Coches, com 206 887 visitantes. O problema é que os dados de Serralves não correspondem a entradas efetivas no Museu e surgem com esta dimensão em resultado do impacto do "Serralves em festa", que durante um fim de semana atrai multidões para seguirem, um vasto programa artístico. Com entrada gratuita, tal como acontece ao longo do ano no CCB e, por isso, ambos conseguem apresentar resultados impossíveis de comparar com os restantes museus, onde a regra é a entrada paga.

Parece, assim, pouco razoável que os responsáveis de Serralves venham agora justificar o significativo aumento do preço dos bilhetes de acesso ao museu com o argumento de que apenas 25% dos visitantes paga entrada. Se assim acontece, é o resultado das opções livremente tomadas pela instituição ao longo dos anos, e como resultado de uma estratégia muito específica de captação de públicos.

Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística, a média nacional de entradas gratuitas nos museus ronda os 40%. Muito abaixo, portanto, dos 75% registados por Serralves. Percebe-se que, face à permanente quebra das verbas disponíveis, algo teria de ser feito. Também a Serralves chegou a ideia de que não há almoços grátis.

PREÇOS. Bilhetes sobem de €8,5 para €10

PREÇOS. Bilhetes sobem de €8,5 para €10

RUI DUARTE SILVA

Porém, numa similitude com o tratamento de choque dado ao país pelo programa da "Troika" (União Europeia, BCE e FMI), a Fundação optou por se exceder na dose, e sem aviso prévio. Num museu que tanto tem procurado estabelecer relações de proximidade com a comunidade, faltou desta vez uma cuidada explicação prévia das medidas em preparação. Faltou, até, disponibilidade para desencadear alguma discussão pública, da qual poderia ter resultado o encontrar de outro tipo de medidas e soluções diferentes.

Quem chegou a Serralves a partir do primeiro dia deste mês deparou com uma situação inesperada. Entradas gratuitas ficam reservadas a menores de 12 anos e aos clientes do BPI, principal mecenas do museu. Os detentores do Cartão Amigo de Serralves pagam €12,50 por trimestre. Foi eliminada a isenção do pagamento de acesso para todos os estudantes, substituída por um desconto de 50% apenas para os alunos de licenciatura e mestrado. Acabaram as entradas grátis no Museu e no Parque aos domingos de manhã, confinadas agora ao primeiro domingo de cada mês. Aumentou o preço do bilhete de entrada no museu de €8,5 para €10.

São €20 para um casal que queira ir ver uma exposição. É exagerado, não apenas para os padrões de vida nacionais. Se tomarmos como exemplo o Museu d'Orsay, um dos grandes museus franceses, com um programa expositivo de uma dimensão a milhas de distância de Serralves, constatamos que a tarifa de acesso às coleções permanentes e às exposições temporárias custa €12. Apenas mais €2 em Paris do que no Porto. A partir das 16h30 o preço desce para €9.

DESCONTOS Só estudantes de licenciatura e mestrado pagam metade

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RUI DUARTE SILVA

Ao falar dos museus na Europa e os seus públicos, o sociólogo e filósofo francês Pierre Bourdieu alertava para a possibilidade de poderem aquelas instituições ser um lugar privilegiado de inclusão, de formação de públicos e mesmo de democratização do conhecimento. O reverso está na perceção de que muitas vezes se arriscam a fomentar a exclusão, ao provocarem o afastamento entre os que em qualquer circunstância estarão sempre presentes no museu e os outros, os empurrados para as margens económicas, sociais e culturais.