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Que o espectador não se aperceba que está a ser levado

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Na montagem, o importante é que “o espectador, ao ver o filme, não se aperceba que está a ser levado, transportado”. Para introduzir o assunto, esta definição serve perfeitamente. Em entrevista ao Expresso, Tomás Baltazar, montador, fala-nos sobre montagem - esse outro olhar sobre as imagens, sobre o filme. “É um trabalho muito enriquecedor, de conflito também, e de alguma harmonia”

Helena Bento

Jornalista

João Roberto

João Roberto

Motion designer

Não é fácil resumir o trabalho de um montador em breves palavras, mas o nosso interlocutor ensaia algumas tentativas. "Enquanto montador, o meu papel é ser o primeiro espectador do material do filme." E continua: "O processo anda muito à volta da conversa, de ouvir o que o realizador tem para me dizer. A partir daí, o meu papel é fazer a mediação entre a força do material, tornando-o o mais eloquente possível, e aquilo que o realizador pretende para o filme. É simplesmente fazer esse trabalho, não é deturpar ou possuir imagens".

Depois de tirar o curso de som e imagem na Universidade Católica de Lisboa, Tomás Baltazar, 38 anos, decidiu ir estudar para Madrid, onde fez uma pós-graduação em montagem. A ideia era consolidar um interesse que vinha crescendo desde que estivera um ano a estudar numa faculdade no Reino Unido, no âmbito do antigo programa Erasmus. "De entre os vários processos da conceção cinematográfica, percebi que a montagem era a que mais me interessava e que podia ajudar-me a dar vida outros projetos, independentemente de serem meus, que é uma coisa que eu gosto de fazer."

Antes de terminar a pós-graduação, Tomás foi convidado por Rodrigo Areias para montar um filme que o realizador e uns amigos "estavam a filmar de uma forma muito criativa". "Ninguém era pago. Estávamos todos a acabar de sair da faculdade e tínhamos muita vontade de fazer coisas. Foi uma coisa feita muito ao nosso espírito da altura. Montar o filme em casa, num portátil... Foi um processo muito criativo. Agora o Rodrigo já é uma pessoa completamente solidificada no universo do cinema português, mas na altura estávamos todos a dar os primeiros passos."

Tomás voltaria a trabalhar com Rodrigo Areias anos mais tarde, em 2010, no filme "Estrada de Palha", um western inspirado no ensaio de 1849 do escritor americano Henry David Thoreau, "A Desobediência Civil". É esse western e outros trabalhos de ficção que nos saltam à vista quando percorremos a já longa lista de colaborações de Tomás, que tem trabalhado sobretudo em documentário. A principal razão é que de há uns anos para cá o número de documentários produzidos todos os anos em Portugal ultrapassa em muito o número de filmes de ficção, explica Tomás. "Os custos envolvidos são substancialmente diferentes. Por outro lado, hoje em dia as pessoas filmam com muito mais facilidade. A versatilidade dos universos digitais tem permitido uma maior independência."

Chegados aqui, não há como evitar uma comparação entre os dois géneros. "Acho que o documentário é uma escrita constante. Não estou a dizer que a ficção não o seja ou que não se criem soluções bastante criativas. Mas na ficção tens os planos, a duração, a minutagem. Há um processo que está encaixado dentro de um esquema muito próprio, dentro de uma estrutura rígida que, apesar de tudo, a ficção ainda exige. No documentário tenho mais liberdade", diz Tomás. Mas há mais: "Na ficção, acaba-se por estar mais atento a outro tipo de pormenores, como a direção de atores, direção artística, movimentos de câmara... Há toda uma série de sintonias que têm de estar em cada plano. No documentário, pelo contrário, tudo aquilo nasce por si. Há uma força bruta nas imagens.".

"Quanto menos a montagem se notar, melhor"

Ao contrário da fotografia, e eventualmente do desenho de som, décors e adereços, não é qualquer espectador que consegue avaliar ou falar com desenvoltura sobre a montagem de um filme. Apesar disso, ela é avaliada, tal como as restantes categorias referidas (sê-lo-á, aliás, este domingo, nos óscares). Mas com base em quê? Tomás diz que, do ponto de vista do espectador, "quanto menos a montagem se notar, melhor". "É muito interessante que o filme flua como algo intrínseco ao seu movimento e que a montagem esteja de acordo com isso. Que o espectador, ao ver o filme, não se esteja a aperceber que está a ser levado, a ser transportado de tal forma que a montagem só virá como um terceiro ou quarto pensamento. Porque se nós barrarmos logo nela ou noutro aspecto da conceção do filme, isso quer dizer que alguma coisa não está bem", diz Tomás, concluindo que, apesar de tudo, "não é preciso ser-se profissional para avaliar a montagem de um filme". "Acho que qualquer cinéfilo mais atento consegue perceber isso depois de dissecar o filme nesse sentido."

"A montagem é um afastamento das imagens que o realizador criou. É outro olhar"

Ao longo da entrevista, Tomás faz questão de nos chamar a atenção várias vezes para o espaço onde nos encontramos, uma sala de montagem num estúdio de pós-produção de som e imagem para cinema e televisão na zona do Conde Redondo, em Lisboa. Diz que nos dias que correm uma sala assim é "quase uma relíquia". "É um espaço muito importante que está completamente a descartar-se da ideia de cinema. E se os grandes estúdios ainda o conservam é por uma questão de sistema."

Aproveitamos isto e a referência à "proliferação de meios" - que garante maior independência e "faz com que se possa montar filmes em casa como não acontecia há 10, 15 anos" - para perguntar a Tomás o que está verdadeiramente a perder-se. "A montagem é um afastamento das imagens que o realizador criou. É outro olhar. É ter alguém que o vai ajudar a olhar para aquilo que até pode gostar muito, mas não é necessário para a construção do filme. São processos muito dolorosos, porque estamos a falar do material de alguém que faz isto com muita alma e que, de repente, percebe que tem de prescindir de alguns momentos que achava que eram completamente essenciais para a história. Mas acho que este afastamento é um trabalho muito enriquecedor, de conflito também, porque faz parte, e de alguma harmonia, sendo que o que verdadeiramente importa é a história e o quanto ela fica a ganhar."

  • As categorias invisíveis dos óscares que andamos a menosprezar (mas não devíamos)

    Há um certo desapreço por algumas categorias dos óscares – a começar pela própria Academia, que as anuncia aceleradamente e sem afeto durante a cerimónia. Sabe a diferença entre mistura e edição de som? Compreende a relevância da cenografia? Já ponderou nos mistérios da caracterização? Entende a sensibilidade da fotografia de um filme? É aí e em categorias identicamente desconsideradas dos óscares que habitam tantos dos mistérios do ofício de construir um filme. Foi o que aprendemos a elaborar este trabalho que agora partilhamos consigo: fomos ter com profissionais destas áreas do cinema em Portugal e descobrimos os segredos e as astúcias da gente invisível em que raramente pensamos quando contemplamos um filme. Venha daí: é provável que fique a estimar ainda mais o cinema