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“Ponte de Espiões”: o meu pai diz que o teu pai defende comunistas

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James Donovan deparou-se em plena Guerra Fria com o impopular dever de defender um espião do inimigo. Fê-lo com convicção, porque “se o mundo livre não for fiel ao seu próprio código moral, não resta uma sociedade que os demais possam invejar”. Falámos com o autor do livro que inspirou o filme. “Ponte de Espiões” tem seis nomeações, incluindo a de melhor filme

Vamos propor-lhe que faça um exercício de imaginação. Comece por pensar em ingredientes que possam resultar num filme popular em Hollywood - particularmente, um filme americano. Subtraia a essa lista as tragédias românticas e as perseguições de carros estilo James Bond. Pensou em espionagem profissional, Guerra Fria, temas sobre patriotismo e o clássico do homem que contra tudo e contra todos defende os valores norte-americanos? Esta é a receita de "A Ponte dos Espiões" - junte um bom elenco e o argumento da história verídica à equação e temos uma nomeação para melhor filme.

Na realidade, a história de James Donovan, o advogado de seguros que se viu no meio de um dos maiores casos judiciais da história dos Estados Unidos e no dilema de ter de defender um espião soviético que atuava no seu país, é só um bocadinho menos emocionante do que a espelhada no filme. Para ter uma ideia mais realista sobre o que de facto aconteceu, tire algumas competências a Rudolph Abel, que afinal não passava de um espião medíocre, e desdramatize a suposta perseguição de que a família de Donovan foi alvo durante um processo – e a sempre valiosa base verídica continua presente.

Por seu lado, Donovan merece os méritos que lhe são atribuídos: o advogado, que foi convocado pela Ordem de Advogados americana para assumir a missão mais impopular da época, defendeu até ao fim o direito de Abel a ter um julgamento justo, e foi competente nessa cruzada. "Os nossos princípios estão gravados na História e na lei deste país", lembrava Donovan em 1962, depois de tudo ter acabado. "Se o mundo livre não for fiel ao seu próprio código moral, não resta uma sociedade que os demais países possam invejar."

Um espião improvável

Rudolph Abel chegou a território norte-americano em 1948. Missão: recolher informação para passar ao KGB sob pseudónimo de Emil Goldus. O espião instalou-se num estúdio em Brooklyn, supostamente para exercer a sua profissão de pintor. Uma fachada que podia não ser assim tão irrealista, explica Giles Whittell, o jornalista britânico que assina o livro "A Ponte dos Espiões", ao Expresso: "O facto de Abel não ter contado nada às autoridades norte-americanas foi a base para a ficção mantida pelos media americanos em que ele era um mestre da espionagem. Não era. Ele preferia pintar e não contava desenvolver uma carreira sólida como espião".

Embora a detenção do espião seja o ponto de partida do filme, a origem dos problemas de Abel deu-se cinco anos antes, em 1952, quando começou a trabalhar com um novo assistente, Reino Hayhanen. Segundo Whittell, a relação entre os dois deteriorou-se rapidamente, uma vez que o recém-chegado era "álcoolico, mau espião e um marido abusador, além de odiar o facto de ser o número dois de Abel em Nova Iorque". Todos estes fatores levaram a que Abel o enviasse de volta para Moscovo, fazendo queixa dele ao KGB, mas Hayhanen não o fez sem antes parar na embaixada norte-americana em Paris e denunciar Abel, indicando ao FBI a morada do estúdio do espião.

O resultado da denúncia estabeleceria a base para dois acontecimentos posteriores: a detenção de Abel (no seu estúdio foram encontrados mapas das bases militares dos Estados Unidos e mensagens secretas) e a argumentação que Donovan escolheu para defender o acusado (uma vez que as buscas foram feitas sem ter em conta os direitos de Abel, o que representava uma possível violação da 4ª emenda da Constituição norte-americana).

Uma luta controversa

Por sua vez, Donovan também foi parar ao caso sem pré-aviso: indicado para a defesa de Abel apesar de ser um advogado de seguros (ou precisamente por isso, defende Whittell, uma vez que isto lhe daria um possível álibi para as posteriores viagens para a Europa relacionadas com o caso), Donovan parece ter sido "a primeira escolha da CIA, especialmente por não ser famoso, mas apenas conhecido no circuito legal de Brooklyn", argumenta o autor.

A defesa do espião suscitou muita controvérsia nos Estados Unidos, mas, de acordo com as memórias publicadas pelo próprio Donovan em 1964, sob o título "Estranhos numa ponte", o cumprimento do seu dever foi largamente respeitado. Argumentando com base em razões sobretudo técnicas e escudando-se numa ideia estranhamente premonitória (não como no filme, que o coloca num encontro privado com o juiz, mas em pleno tribunal, Donovan explicou que seria útil a manutenção de um espião soviético no país para a eventualidade de os EUA terem de fazer uma troca de espiões), Donovan conseguiu o que para si foi uma vitória e para muitos uma vergonha, impedindo a condenação à morte do espião.

À volta de Donovan, o sentimento de espanto pela sua fidelidade inquestionável aos princípios legais e morais da profissão disseminava-se. Como o próprio recorda nas suas memórias, a sua mulher "gritou ao saber que ia defender um espião vermelho". A filha Mary Ellen, de oito anos, ouviu críticas de um colega de escola da mesma idade: "O meu pai diz que o teu pai defende comunistas". Embora a família tenha chegado a receber cartas e telefonemas ameaçadores, Whittell desmente o episódio do filme em que a casa da família é atingida por um tiro e desmistifica: "Essa parte do filme é inventada. Donovan estava nervoso, mas tinha poucas razões para isso".

Estranhos numa ponte

O passo que poderia ajudar a limpar a imagem de Donovan junto de quem o via como um amigo do inimigo chegou quatro anos depois, quando a sua previsão se concretizou. O avião em que o piloto norte-americano Francis Gary Powers seguia, com o objetivo de fotografar bases militares soviéticas, foi abatido e o espião americano foi condenado a passar dez anos na prisão. Chegara a oportunidade de Donovan mostrar a utilidade da sua estratégia de defesa: era ele o escolhido para voar até à Alemanha e negociar uma troca entre espiões.

"Donovan não teve escolha – a CIA queria manter a possibilidade de negar qualquer envolvimento na operação se ela corresse mal". Assim, o advogado foi em plena Guerra Fria negociar com os soviéticos sem qualquer apoio ou segurança garantido pelos Estados Unidos, garante Whittell: "Kennedy soube do seu envolvimento, e foi informado pela sua assessora no momento em que a troca se concretizou. Mas o apoio só chegou depois, quando foi escolhido pelo próprio Kennedy para realizar missões semelhantes em Cuba".

Embora a escuridão intensifique as emoções e os nervos próprios daquele dia decisivo, na verdade a troca aconteceu de dia, e não de noite, como o filme retrata. Eram 8h20 do dia 10 de fevereiro de 1962 e Donovan, Abel e Powers encontravam-se na ponte de Glienicke, que ligava as duas Alemanhas. Havia, de acordo com o filme, outro fator em jogo (que na verdade eram dois fatores): por um lado, o estudante de doutoramento em Yale Frederic Pryor, que na altura desenvolvia a sua tese sobre a troca comercial no contexto da Guerra Fria, fora detido na Alemanha de Leste e acusado de espionagem; por outro, o também norte-americano Marvin Makinen encontrava-se na mesma situação em terreno russo, acusado de fotografar bases militares soviéticas.

Com um espião que deveria trocar por três, as habilidades negociais de Donovan permitiram-lhe libertar nesse dia Powers e Pryor e, no ano seguinte, Makinen. Whittell esclarece que "Donovan se assegurou de que Pryor era incluído nas negociações, mas o trabalho duro já tinha sido feito pelo pai do estudante, que se tinha mudado para Berlim com o objetivo de libertar o filho, e Wolfgang Egel, o advogado que o representava". O filme traça um quadro em que o Governo norte-americano está pouco concentrado na libertação de Pryor, mas o escritor duvida: "Esta é a primeira vez que me deparo com tal interpretação. É lógico que se assuma que Powers era mais importante [tendo acabado por ser "o prisioneiro mais confortável da União Soviética"], mas o pai de Pryor tinha bons contactos no Congresso".

A fé tocante de um aventureiro

Depois deste episódio, Donovan teve oportunidade de usar a sua capacidade de persuasão com Fidel Castro, que convenceu a libertar, nos anos seguintes, mais de dez mil prisioneiros norte-americanos. Da defesa de Abel restaram memórias boas ou más e o dinheiro que lhe cobrou por isso, posteriormente doado a três universidades dos EUA (um valor total de dez mil dólares, ou nove mil euros).

A figura de Donovan corporiza a nobreza e, para Whittell, "uma fé tocante na habilidade e dever americanos de assegurar um julgamento justo para todos". Mas quem era, afinal, James Donovan, que foi herói e vilão durante aquela época e até à sua morte, em 1970? Talvez tudo isto: "Um cidadão do mundo, ansioso por não deixar que a sua existência suburbana limitasse os seus horizontes, e indubitavelmente incapaz de resistir a uma aventura".