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“O trabalho de um diretor de fotografia não é fazer imagens bonitas, é fazer imagens adequadas”

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Rui Poças durante a rodagem do filme "Zama", realizado por Lucrecia Martel.

Vale Fiorini

Rui Poças é diretor de fotografia e uma das coisas que mais gosta de fazer é documentário. Em conversa com o Expresso, falou sobre a importância de “pensar fora de caixa”, de não recorrer a fórmulas velhinhas e gastas que não obrigam a “puxar pela carola”. Da importância de aceitar os acidentes e os erros, os imprevistos, e de “deixar a anaquia entrar”. Também falámos sobre realizadores com quem tem trabalhado ou trabalhou - como Miguel Gomes, João Pedro Rodrigues e Lucrecia Martel, essa mulher “fascinante, muito inteligente e muito charmosa”, que trabalha como mais ninguém

Helena Bento

Jornalista

João Roberto

João Roberto

Motion designer

Enquanto diretor de fotografia, uma das coisas que Rui Poças mais gosta de fazer é documentário. Mais até do que ficção. "A ficção é como se chegássemos ali ao Terreiro do Paço, deitássemos os edifícios todos abaixo e começássemos a construir de novo. É impor uma nova realidade a uma realidade que já existe. O documentário é precisamente o contrário. Chegamos lá com pezinhos de lã e ficamos a ver. Observamos e interpretamos. No documentário aprendo sempre alguma coisa de que não fazia puto de ideia. Na ficção não, na ficção não aprendo nada, só desaprendo."

Rui Poças tem 50 anos, o dobro da idade que tinha quando dirigiu a fotografia de um filme pela primeira vez. Foi em 1991, na curta-metragem "Mar de Rosas". Seguir-se-iam outros trabalhos. Foi diretor de fotografia no "muito pouco visto" "Entraste no Jogo, Vais ter de Jogar" (1997), de Pedro Sena Nunes, nos documentários "Se Deus Quiser", de Fernando Lopes, e "Outro País", de 1999, realizado por Sérgio Tréfaut. Em "António é um Rapaz de Lisboa" (2001), de Jorge Silva Melo, nessa longa-metragem em que há um plano "lindíssimo" de uma rapariga a despedir-se de um rapaz - ela de coração despedaçado, ele provavelmente também - e de uma lágrima que cai por acidente, foi operador de câmara. Dirigiu a fotografia em todos os filmes de João Pedro Rodrigues e Miguel Gomes, à exceção da muita elogiada obra "As Mil e Uma Noites", dividida em três volumes. Recentemente, trabalhou com a realizadora Lucrecia Martel, que se deu a conhecer em "O Pântano" (2001) e revelou-se anos depois com o filme "A Mulher sem Cabeça" (2009), uma das realizadoras mais interessantes da última década. E é precisamente por aí, pela sua colaboração com a realizadora argentina, que a nossa conversa pelo Skype começa - Rui está do outro lado do Atlântico, no Brasil, em trabalho.

Recorda a primeira vez em que se encontrou com Lucrecia Martel. Foi em setembro de 2014. Ele estava de passagem pela Argentina, depois de ter estado a filmar na Gronelândia e antes de seguir para a Bolívia, para outro trabalho. "Falámos durante cerca de três horas em casa dela, e o mais engraçado é que só no fim, depois ir embora, percebi que praticamente nem tínhamos falado sobre a imagem do filme que ela queria fazer. Falámos de muitas coisas - música, som, filosofia, política - mas muito pouco sobre cinema. Gostei imenso disso", diz Rui, que descreve Lucrecia Martel como uma pessoa "fascinante, muito inteligente e muito charmosa". "Fiquei encantado com a maneira de ela pensar, sempre muito rápido e muito à frente".

Vale Fiorini

"Zama", baseado no romance homónimo do argentino Antonio di Benedetto, começou a ser rodado um ano depois desse encontro, em Mendoza, no norte da Argentina. O processo de filmagem foi "uma pilha de surpresas". Lucrecia Martel adotou a postura, que provavelmente já era a sua e todos lha reconheciam, menos Rui, de se fechar em copas com ele, não lhe revelando o que pretendia para determinada cena senão na véspera de a filmarem, e ainda assim recorrendo a umas linhas enigmáticas traçadas à pressa no seu caderno, que faziam lembrar uma "espécie de eletrocardiograma" tosco. Houve até uma cena muito específica e "complexa", envolvendo uma carrada de colonos e cavalos e armadilhas, que Lucrecia decidiu explicar através de sons - uns ruídos que Rui tenta imitar, tornando-se cómico aos nossos olhos -, descrevendo cada plano do ponto de vista do som e não da imagem. "Para mim, que sou de imagem, foi uma coisa assim completamente fora do comum. Nunca tinha trabalhado com alguém assim. Aliás, acho que não há ninguém que trabalhe assim. A minha primeira reação foi achar que aquilo era uma maluquice, mas depois percebi que na verdade era um privilégio estar a trabalhar com uma pessoa assim, que pensa completamente fora da caixa."

"Não me interessa ter um estilo próprio"

"Pensar fora da caixa." A expressão cai um bocadinho no lugar-comum, mas dá-nos boas pistas sobre aquilo que Rui acredita ser o trabalho de um diretor de fotografia. Avesso a fórmulas e soluções óbvias, que resultam mas já não surpreendem ninguém, Rui prefere experimentar, testar, "puxar pela carola", ver se resulta e, se não, paciência. Repetir - nunca. "Fico maluco quando um realizador vem ter comigo e pede que eu faça a mesma imagem que fiz para outro filme qualquer. Isso não me interessa absolutamente. Nem me dá prazer nenhum. Por outro lado, nem sequer acredito nisso. Acredito que cada história pede coisas específicas."

Rui diz que não lhe interessa ter um estilo. Interessa-lhe que o seu trabalho se adeque à história do filme, porque o trabalho de um diretor de fotografia "não é fazer imagens bonitas, é fazer imagens adequadas". E destaca a importância do trabalho a dois, entre realizador e diretor de fotografia. "É no encontro entre os dois, no encontro criativo, nessa química, que se dá qualquer coisa", diz. "A não ser que estejamos a falar de um diretor de fotografia "como o Storaro [Vittorio Storaro, "Apocalypse Now", "The Last Emperor"], que independentemente do realizador do filme faz a sua cena e embrulha aquilo à sua maneira, e é assim uma espécie de antítese daquilo que eu considero interessante", acrescenta.

"Ficámos muito gratos ao acaso, ao que a vida se nos interpõe"

Vale Fiorini

As melhores coisas acontecem por acaso. É isso que Rui parece querer dizer-nos quando começa a falar sobre os filmes que "correram bem" precisamente por não se ter querido cumprir escrupulosamente um plano que, em muitos casos, nem sequer havia. Começa por falar sobre a longa-metragem "Aquele Querido Mês de Agosto" (2008), realizada por Miguel Gomes (Rui dirigiu a fotografia). A equipa tinha combinado começar a filmar naquele verão, mas um imprevisto tão grave quanto terem ficado de repente sem atores obrigou a uma mudança radical de planos. A rodagem foi adiada para o verão seguinte. Alguns deles, porém, decidiram ir para o terreno na mesma naquele ano, mas com uma equipa mais pequena - eram seis apenas e os seis a viver na mesma casa, em Coja, uma pequena aldeia em Arganil, distrito de Coimbra.

Durante essa incursão - "foi uma espécie de free-jazz", tudo muito improvisado - acabaram por descobrir "outro filme". Já não "o filme de ficção com uma narrativa convencional, com personagens e princípio, meio e fim", mas "outra coisa mais interessante", mais complexa, "um híbrido que congrega ficção, documentário e meta-cinema".

Depois veio o "Tabu" (2012), também realizado por Miguel Gomes, e aí, diz Rui, quiseram levar isso ainda mais longe, improvisar mais, "deixar a anarquia entrar". O filme não tinha guião escrito, "os atores não faziam ideia nenhuma do que ia acontecer". E ele, Rui, e os outros membros da equipa só na véspera sabiam o que era suposto fazerem. Há quem diga que o silêncio das personagens na segunda parte do filme (elas falam, mas não se ouve, ouvindo-se tudo - os tiros, o som das aves, o marulhar da vegetação - menos as suas vozes) também foi improvisado, mas não é verdade.

Mas antes disso, antes de "Tabu" e "Aquele Querido Mês de Agosto", houve uma curta-metragem seminal chamada "Cântico das Criaturas" (2006), e foi aí que, nas palavras de Rui, aprenderam a aceitar o que a vida se lhes interpõe. Os acidentes e os erros, os imprevistos. A câmara com que tinham estado a filmar em Itália uma das partes do filme teve um problema de que ninguém se apercebeu na altura e depois, ao verem as imagens, perceberam que alguma coisa estava errada. As imagens tinham ficado "esquisitíssimas". Em vez de as deitarem fora decidiram, porém, usá-las no filme, tal e qual como estavam. "Foi a melhor coisa que nos podia ter acontecido. A partir daí ficámos muito gratos ao acaso. No 'Aquele Querido Mês de Agosto' já estávamos preparados para tudo", diz Rui. "A indústria passou a não querer admitir o erro, que cada cópia tivesse, por exemplo, um risco. E hoje, então, isso é inaceitável. O cinema industrial não quer isso, quer uma coisa assética e certinha, muito ordenada, como se a vida fosse realmente assim", acrescenta o diretor de fotografia.

E por falar em improvisação, é também por isso, por ter uma vertente de improvisação muito vincada, que Rui gosta particularmente de fazer documentário. "No documentário é necessário ter essa capacidade de reagir às coisas que nos aparecem à frente, com as quais não estávamos a contar. E como os documentários normalmente têm orçamentos muitos diminutos, muitas vezes também é preciso inventar, improvisar, pôr o nosso lado MacGyver a funcionar."

Vale Fiorini

Trabalhar com Miguel Gomes sempre foi isso: uma descoberta, uma pequena aventura de miúdos crescidos que nunca se sabe bem no que vai dar. Com João Pedro Rodrigues, o realizador de "O Fantasma", "Odete" e "Morrer Como um Homem", tem sido diferente. "Ao João Pedro não lhe interessa nada incorporar o acaso. Ele é daquelas pessoas que gostam de controlar a realidade. É um arquiteto, no sentido em que desenha as coisas e quer cumprir escrupulosamente aquilo que desenhou. É um esteta. É austero. Nesse aspeto, é mais bressoniano - interessa-lhe a depuração, limpar cada gesto e cada detalhe de tudo o que seja ruído. O cinema dele é um cinema em que tudo tem significado e tudo tem uma razão de ser; a luz vem da esquerda para a direita e não da direita para a esquerda, e há uma razão para isso. E aquela pedra, que ali vemos, cumpre uma função, não é por acaso que ali está", explica Rui, para quem trabalhar com o realizador de "A Última Vez que vi Macau" é "igualmente maravilhoso".

"Obriga-me a um trabalho muito grande de escolha e exigência em relação a tudo o que está na imagem", diz. "Tudo tem um significado, e isso vai desde a composição à orientação das sombras. De resto, eu e o João Pedro somos discípulos de um professor que nos passou um pouco essa vontade de tratar o cinema como uma disciplina em tudo o que está dentro do enquadramento são formas. Tanto faz se são seres vivos ou não. Um homem, um cão, uma flor, uma pedra... Tudo são formas e essas formas têm uma razão de ser e têm de ser trabalhadas."

  • As categorias invisíveis dos óscares que andamos a menosprezar (mas não devíamos)

    Há um certo desapreço por algumas categorias dos óscares – a começar pela própria Academia, que as anuncia aceleradamente e sem afeto durante a cerimónia. Sabe a diferença entre mistura e edição de som? Compreende a relevância da cenografia? Já ponderou nos mistérios da caracterização? Entende a sensibilidade da fotografia de um filme? É aí e em categorias identicamente desconsideradas dos óscares que habitam tantos dos mistérios do ofício de construir um filme. Foi o que aprendemos a elaborar este trabalho que agora partilhamos consigo: fomos ter com profissionais destas áreas do cinema em Portugal e descobrimos os segredos e as astúcias da gente invisível em que raramente pensamos quando contemplamos um filme. Venha daí: é provável que fique a estimar ainda mais o cinema