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“O Renascido”: um romance trágico e uma vingança cruel que apimentam a coisa

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O MAIS NOMEADO. Cena de “The Revenant: O Renascido”

d.r.

Em 1823, um explorador e caçador de peles chamado Hugh Glass foi atacado por um urso e sobreviveu para contar a história. Quase dois séculos depois, esse acontecimento chega ao grande ecrã (mas traz consigo um romance trágico e uma vingança cruel que apimentam a coisa). “O Renascido” está nomeado para melhor filme e lidera a lista de nomeações

Os Estados Unidos podem não ser um dos países mais antigos do mundo, mas é indiscutível que têm uma história rica e sobretudo um imaginário extenso com que se defender. O sentimento patriótico não se estende apenas àqueles que efetivamente nasceram em solo norte-americano – afinal, os primeiros colonos chegaram de barco vindos do Reino Unido e um dos símbolos mais enfatizados, ainda e sobretudo hoje em dia, da história do paísé a do "sonho americano". Mas a América, terra de todos os sonhos e possibilidades, não foi sempre assim.

Por isso, é particularmente importante para os norte-americanos o bocadinho de história que lhes forja uma união, explica o investigador e professor na Universidade do Indiana, Jon T. Coleman, ao Expresso: "As histórias dos caçadores de peles no oeste americano ajudaram os americanos a inventar uma identidade nacional. As experiências destes homens na natureza transformavam-nos numa nova pessoa que estava autenticamente ligada ao solo norte-americano em vez de ser um transplante europeu". O historiador e escritor Eric Jay Dolin confirma: "A ideia do homem da montanha que conquista a natureza é uma grande parte da nossa História contemporânea, do nosso passado coletivo".

Pelos vistos, as histórias foram tão poderosas que este ano uma delas deu origem a "The Revenant", o filme em que Leonardo Dicaprio implora pelo tão esperado Óscar. Na versão do grande ecrã, a personagem de DiCaprio, que representa o verdadeiro Hugh Glass, integra um grupo de caçadores de peles e leva consigo o seu filho, nascido de uma relação com uma mulher índia, numa expedição. Depois de ser ferido por um urso, os colegas Bringer e Fitzgerald aceitam a recompensa oferecida pelo capitão para ficarem com Glass até à sua morte. No entanto, Fitzgerald acaba por convencer o companheiro a abandonar um Glass gravemente ferido mas que ainda respira, matando o seu filho e acabando com a última testemunha do abandono. É este momento que dá forças a Glass para se levantar e recuperar, em busca de vingança.

Durante o filme, sustemos a respiração por DiCaprio quando parece dar os últimos suspiros, torcemos por ele quando se envolve na luta final contra Fizgerald e desviamos o olhar quando retira as tripas a um cavalo para se abrigar dentro do casco. A realidade, conta Coleman, poderá ter sido um pouco menos emocionante. Se é verdade que Glass existiu, foi um caçador de peles e sofreu de facto um ataque de um urso que o tornou a lenda que corporiza o verdadeiro espírito americano, basicamente tudo o resto dá razão ao ditado que diz que quem conta um conto acrescenta um ponto.

A começar pelo evento que motiva a maior parte das épicas ações de vingança de Glass: a morte do filho. Não existe, diz Coleman, "qualquer prova de que Glass tivesse uma relação com qualquer pessoa, muito menos uma mulher e um filho". Ou seja, e na história real, o caçador de peles deve ter pensado em Fitzgerald na hora de se levantar e seguir o rasto ao grupo.

Só que a vingança também não foi assim tão épica, se é que chegou sequer a acontecer: não havendo confirmação de qualquer encontro posterior entre os dois, sabe-se que Glass procurou o inimigo quando se recompôs do ataque do urso, mas este encontrava-se alistado no exército norte-americano. A partir daqui as versões variam, mas é certo que ninguém morreu nem foi atirado para um rio e deixado à sorte dos índios Arikara (spoiler!): no máximo, Glass partiu de novo em viagem, satisfeito com uma recompensa de cerca de 300 dólares (272 dólares) e a devolução da sua espingarda, desviada por Fitzgerald.

A história que criou a lenda

Os eventos da vida de Hugh Glass "não podem deixar, segundo os princípios da humanidade, de gerar simpatia e admiração pelas adversidades que de forma viril e voluntária enfrentou". E quais foram eles? "Sendo a sua espingarda a mais infalível, Hugh Glass foi enviado para recolher mantimentos quando foi atacado pelo urso, avançando pouco à frente do resto do grupo. Quando eles chegaram, dispararam sete ou oito tiros, matando o urso. Foi então salvo das garras do urso, mas a sua condição estava longe de ser invejável. A segurança de todos os membros do grupo dependia da celeridade dos movimentos, dada a proximidade das tribos dos nativos de quem fugiam. Esperaram cinco dias e abandonaram-no cruelmente."

A primeira história que relata os feitos heróicos de Glass data de 1825, apenas dois anos depois de o ataque do urso ter ocorrido, e foi escrita por James Hall, um advogado e aspirante a escritor do Illinois. Depois de esta versão ter sido publicada numa revista literária da Filadélfia chamada Portfolio, vários jornais republicaram a história - mas nenhum deles a confirmou com Hall ou outra testemunha. Por isso, explica Coleman, "a história tornou-se arte – parte verdadeira, parte ficcionada – quase desde o início".

Sobre a vida de Glass antes do ataque, ninguém sabe quase nada. Como o historiador e escritor Eric Jay Dolin explica ao Expresso, "há rumores de que Glass foi um pirata no Golfo do México ou que foi adoptado por uma tribo de índios". De acordo com a descrição de Coleman, os poucos documentos que provam a existência de Glass "mostram o retrato de um homem à margem da sua sociedade - Glass é descrito como velho e conflituoso".

A ser verdade, o retrato de Glass explica as razões por que se aventurou sozinho na altura em que o urso atravessou o seu caminho. Contratado pela Rocky Mountain Fur Company no inverno de 1823, Glass subiu o rio Missouri num pequeno barco no início do verão, acabando por sair ferido do ataque dos Arikara espelhado no filme no mês de junho. Depois de ter seguido viagem com o seu grupo, chefiado por Andew Henry, "deparou-se com o urso porque desobedeceu a ordens e saiu do caminho, farto dos seus parceiros sufocantes e dos aborrecimentos causados pelo seu patrão", explica Coleman.

O ataque do urso – segundo Coleman, "a parte mais fidedigna do filme, o que é irónico devido ao número de efeitos especiais que foram usados nessa cena" -, também não teve lugar exatamente nas condições retratadas no filme. Tendo ocorrido entre julho e agosto de 1824, perto de um afluente do rio Yellowstone, Dolin esclarece: "Ele foi abandonado no máximo em setembro, numa zona em que estariam de dia uns 60 graus Farenheit (equivalentes a 15 graus Celsius) e de noite far-se-ia sentir bastante frio, mas muito pouca neve".

As condições brutais de quem perseguia a independência

Mas os fãs de Glass podem estar descansados – a História diz-nos que mesmo sem filho vivo ou morto, sem temperaturas geladas e com lutas mais ou menos épicas, este caçador de peles continua a ser uma figura de proa do imaginário norte-americano. "Glass foi um dos primeiros caçadores de peles, esteve na vanguarda do negócio", diz Jolin, que nos detalha as condições duras em que estes trabalhadores sobreviviam: "Comiam muita carne, até cinco quilos por dia, para enfrentar o frio e repor as calorias queimadas nas grandes caminhadas que faziam. Alguns passavam anos em expedição e chegavam a fazer disso vida, sem nunca voltar, fosse porque queriam escapar a algo de mau nas suas vidas ou porque queriam independência".

"Havia poucos milhares de caçadores de peles, sendo que alguns deles trabalhavam como freelancers e outros faziam-no para empresas poderosas, como a American Fur Company do então homem mais rico do país, John Jacob Astor. Todos faziam o mesmo: capturavam e esfolavam castores, e uma vez por ano encontravam-se para vender as peles, fazer jogos de apostas, contar histórias e, por vezes, envolver-se em lutas", acrescenta Dolin.

Um retrato confirmado por Coleman: "Os caçadores de peles enfrentaram de facto condições brutais. O Oeste usava-os porque as companhias de peles americanas e o Governo federal tinham acabado de chegar à região e ao negócio. Tradicionalmente, os nativos americanos caçavam e os euroamericanos negociavam. Esta mudança causou revolta entre muitos grupos, especialmente os Arikaras. Os americanos sofreram muito por causa das estratégias de negócio dos seus patrões".

Depois da provavelmente menos dramática e certamente menos fria viagem de regresso de Glass, o caçador de peles viveu até 1833, como atestam "documentos de negócios de venda de peles e memórias de viajantes europeus e americanos" citados por Coleman. No entanto, Glass morreu nesse ano, atacado pelos Arikara – e na realidade será pouco provável que antes de partir tenha tido a visão paradisíaca da mulher índia com quem, ao que parece, nunca casou.