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“O Caso Spotlight”: abalar a fé na igreja, fortalecer a fé no jornalismo

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O realizador Tom McCarthy e os atores Stanley Tucci, Mark Ruffalo e Michael Keaton acompanhados pelos jornalistas que os dois últimos retratam no filme, Michael Rezendes e Walter Robinson

FACUNDO ARRIZABALAGA

Poucas semanas antes do 11 de setembro, o novo editor-executivo do jornal “Boston Globe” encarregou a equipa Spotlight de investigar um caso que tomou proporções dramáticas e que mexeu objetivamente com o mundo inteiro. O Expresso falou com alguns dos protagonistas desses acontecimentos jornalísticos, incluindo aquele que muitos consideram o melhor diretor dos Estados Unidos. “O Caso Spotlight” está nomeado para seis óscares, entre os quais o de melhor filme

Em 2001, Martin Baron tinha pela frente uma missão difícil: adaptar-se a um novo emprego, uma nova cidade e uma nova vida. Vindo do "Miami Herald", onde era diretor, Baron chegou a Boston sentindo-se um "outsider" com a tarefa de gerir um jornal com uma forte componente local. No entanto, logo na primeira reunião de sempre no "Boston Globe", Baron fez aquilo que ninguém antes se tinha lembrado de fazer e que é uma das razões para ser considerado pelos colegas como "o melhor diretor dos Estados Unidos" (até porque, como assegura ao Expresso o ainda editor do "Boston Globe" Walter Robinson, "o segundo lugar nem sequer o segue de perto").

A primeira tarefa que o recém-chegado atribuiu aos seus novos colegas foi a de investigar o caso de um padre pedófilo em Boston, uma vez que numa coluna publicada no jornal a cronista Eileen McNamara explicava que o cardeal Law sabia do caso e o tinha encoberto, deixando o padre em causa, John Geoghan, repetir os abusos sem qualquer controlo. Desta insistência de Baron resultariam sete meses de investigação cerca de 600 artigos publicados e, como o próprio conta ao Expresso, "o capítulo mais gratificante" da sua longa carreira.

Martin Baron foi diretor do "Boston Globe" entre 2001 e 2012. Hoje em dia é diretor no "Washington Post"

Martin Baron foi diretor do "Boston Globe" entre 2001 e 2012. Hoje em dia é diretor no "Washington Post"

Chip Somodevilla

"O caso Spotlight", filme que retrata a investigação desde a chegada do "outsider" até à publicação dos artigos que mudaram o mundo – pelo menos o mundo da Igreja e o mundo das vítimas destes abusos -, é, garantem Robinson e Baron ao Expresso, extremamente fiel à realidade. Robinson, então chefe da equipa responsável pela investigação, explica que antes de confiar no realizador e no argumentista temeu "um filme estilo Hollywood, com perseguições de carros", mas depressa percebeu que o assunto e as vítimas seriam tratados "de uma forma muito autêntica e respeitadora".

Fez-se silêncio na sala

As repercussões do caso foram intensas, mas tudo começou de forma mais ou menos subtil. Baron recorda com clareza a sua chegada ao "Boston Globe": "Eu não conhecia a dimensão do caso, mas percebi que havia ali uma história para investigar. Na primeira reunião, perguntei se tínhamos pensado na possibildade de dar entrada a uma moção em tribunal para tornar os documentos do caso públicos. Fez-se silêncio na sala, e pedi-lhes que nos encontrássemos de novo após aquela reunião. Então, perguntámos ao nosso advogado sobre essa possibilidade e decidimos investigar o caso a fundo".

O primeiro rascunho que os membros da Spotlight, a equipa de investigação do "Globe" que Walter Robinson chefiava na altura, entregaram ao novo diretor impressionou-o: "O trabalho estava incrivelmente bem documentado e percebi que se tratava de um trabalho jornalístico muito poderoso com um grande impacto. Não podia prever que se fosse transformar numa história nacional e internacional cujo impacto durasse até o dia de hoje".

Para Robinson, a vantagem da chegada de Baron – um diretor "muito, muito inteligente" – foi que com ele chegou "um par de olhos novo": "Ele questionou o que até aí ninguém questionara. Não sei quando teríamos descoberto o caso, se ele não estivesse lá". Uma afirmação particularmente importante uma vez que, como o filme retrata brevemente, as informações que podiam ter levado a uma investigação mais profunda muitos anos antes foram enviadas para o "Globe" pelo advogado de muitas das vítimas, Eric McLeish, quando Robinson era editor na secção "Local", que supostamente se ocuparia do caso.

Robinson, que classifica os advogados que ajudaram a descortinar o caso como "heróis", assume as culpas, mas esclarece: "Quando recebemos essa denúncia, em 1993, eu era editor da secção há cerca de duas semanas. Ninguém se lembra do que aconteceu então; nós não abafámos um caso de conspiração criminal de proporções internacionais, mas talvez na altura alguém tenha tentado investigar e tenha ido parar a um beco sem saída". No filme, a equipa apercebe-se da falha durante a investigação; na realidade, Robinson só deu conta do erro em 2012.

Walter Robinson com Michael Keaton, que lhe dá vida no grande ecrã. Robinson revela que os dois colocaram "perguntas pessoais" um ao outro durante o processo de pré-produção

Walter Robinson com Michael Keaton, que lhe dá vida no grande ecrã. Robinson revela que os dois colocaram "perguntas pessoais" um ao outro durante o processo de pré-produção

ETTORE FERRARI

Uma busca agressiva e enérgica pela verdade

Depois de Baron ter dado o pontapé de saída para a investigação, a equipa Spotlight passou, como sempre, a trabalhar no caso de forma independente e, como o antigo editor recorda, "agressiva e enérgica". Robinson sublinha que na altura os jornalistas "tinham de obedecer às indicações dele, era o chefe novo", mas que, uma semana depois de terem começado a investigar, o caso começou a tomar novas dimensões: "Numa semana, percebemos que havia 12 a 15 padres pedófilos em Boston".

Os números parecem assustadores, mas Robinson assegura que representam uma parte ínfima de uma realidade muito dura: "Nós confirmámos que houve cerca de 70 casos de acordos entre advogados e Igreja só em Boston, mas o número pode subir até 250 padres. Não é só em Boston, em Lisboa também", alerta: "Isto acontece em todo o lado há várias gerações". No filme, que não usa grandes truques para expor uma verdade dura, os repórteres da Spotlight Sacha Pfeiffer e Michael Rezendes batem a muitas portas, deparam-se com boa parte delas bem trancada e nunca desistem, motivados pelo desejo de fazer justiça para as vítimas de pedofilia na Igreja.

A responsabilidade vai até ao topo

Quinze anos depois do dia em que Baron chegou ao Globe com uma proposta ousada em mente, qual é o balanço daqueles meses e de todos os que se seguiram? Para Robinson, que lembra que a responsabilidade nestes casos "vai até ao topo" da hierarquia da Igreja Católica, incluindo os papas João Paulo II e Bento XVI, a maior desilusão é ver alguns dos envolvidos a saírem impunes devido à proteção de acordos de confidencialidade.

"Isto afetou a Igreja. Houve pedidos de desculpa da Igreja nos Estados Unidos, e depois no Vaticano. Mas existem sérias dúvidas sobre adequação das reformas que se tomaram e a sua aplicação. Há padres que foram acusados com provas credíveis e os seus nomes continuam em segredo; há bispos que ajudaram a transferir estes padres de paróquia em paróquia e não foram responsabilizados de forma nenhuma", explica Baron.

Numa das cenas mais chocantes do filme, Sacha Pfeiffer bate à porta de um antigo padre, já idoso, e confronta-o com as acusações de pedofilia de que é alvo. Para seu espanto, o antigo clérigo admite ter "brincado" com as crianças, desvalorizando o seu comportamento. Na realidade, este padre foi um dos que acabaram por ser presos, tendo depois sido libertado por se considerar que já não constituía "um perigo para quem o rodeia". John Geoghan, o padre que motivou o início de toda a investigação e que terá abusado de cerca de 100 crianças, não teve a mesma sorte: "Geoghan foi preso e acabou por ser sufocado na prisão por outro recluso", relata Baron.

Os que não podem recuperar o que perderam

Se do lado da Igreja é difícil medir o real impacto da investigação ("neste verão, o Papa esteve nos Estados Unidos e elogiou os bispos norte-americanos pela coragem neste caso - coragem é uma palavra que não se aplica, houve negação e obstrução", recorda Baron), no que toca às vítimas estes jornalistas sentem que a parte mais importante da missão foi cumprida. Tanto Baron como Robinson contam que muitos dos sobreviventes dos abusos se sentiram muito agradecidos, uma vez que "isto trouxe para eles atenções que nunca tinham recebido; muitos tinham sido postos à margem da sociedade enquanto a Igreja permanecia essencialmente impune".

"Eu teria de ser louco para me queixar da forma como fui retratado no filme", diz Baron, que no entanto reclama ter "um sentido de humor" que o filme deixa de parte, uma vez que este espelha uma fase "que não foi a mais alegre" da sua vida e carreira. Depois de uma entrevista – ou, em rigor, uma "sessão de observação" - feita pelo ator que o interpreta, Liev Schreiber, o agora editor do "Washington Post" passou apenas um dia no set de filmagens, em Toronto: "Assisti à gravação da cena em que a minha personagem conhece o Walter, antes do primeiro dia do trabalho".

No entanto, o impacto do filme não afetou Baron por completo até o dia em que viu a versão finalizada de "O Caso Spotlight", no Festival Internacional de Toronto do ano passado: "Já tinha visto o filme no escritório do realizador, em Nova Iorque, num ecrã pequeno. Mas o impacto chegou quando o vi no grande ecrã. Foi um momento emocionante para mim, porque me apercebi de quantas pessoas iriam aperceber-se do trabalho que fizemos e estar atentas ao que as vítimas de abuso sexual têm para dizer".