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“Há um som certo para todas as coisas”

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Miguel Martins é designer de som e misturador e já fez som para tudo um pouco, desde telenovelas e séries a cinema independente. Trabalhou recentemente com Miguel Gomes na trilogia "As Mil e Uma Noites", tendo sido distinguido pela European Film Academy na categoria de som. Em entrevista ao Expresso, conta-nos como a rádio foi a sua verdadeira escola e explica-nos o que é isto de montagem e mistura de som

Helena Bento

Jornalista

João Roberto

João Roberto

Motion designer

Miguel Martins costuma comparar o trabalho de um designer de som ao de um produtor de música. Da mesma forma que um músico ou uma banda vão ter com determinado produtor para gravar um álbum porque conhecem o seu trabalho e sabem com que tipo de som podem contar, Miguel gosta que um realizador o procure porque já o conhece e sabe que tipo de som pode esperar dele. "Nos filmes que faço, esforço-me para trabalhar o som de uma certa maneira, que é a minha. Esforço-me para dar esse meu 'input'. Um realizador vir ter comigo porque já sabe com o que pode contar é das melhores recompensas que posso ter." A única diferença é "que na música podes querer, por exemplo, um som mais analógico, ou mais trabalhado, ou que esteja associado a determinada tendência, e aqui, no cinema, é mais uma questão de sentir e perceber o filme, e que tipo de trabalho de som ele deve ter".

Miguel tem um percurso curioso na área do som. Já trabalhou em telenovelas, séries, telefilmes e filmes. No mesmo ano em que estreava "A Cara que Mereces", de Miguel Gomes, estreava também o primeiro episódio do "Inspector Max", na TVI, e o documentário "Lisboetas", realizado por Sérgio Tréfaut. E no mesmo ano em que estreava o filme "Zona" (2008), de Sandro Aguilar, estreavam também os primeiros episódios da telenovela "Olhos nos Olhos", na TVI. E Miguel, quer tenha sido no desenho do som, quer na mistura, esteve envolvido em tudo isto. "Isso era uma coisa que fazia confusão a muitas pessoas do cinema. Não percebiam como é que eu conseguia estar a fazer uma coisa e depois ter as minhas opções artísticas noutras. Mas, para mim, sempre foi muito natural escolher um silêncio num sítio ou escolher uma música para um genérico de uma telenovela. Sempre foi muito fácil não misturar as coisas. Por outro lado, acredito que há um som certo para todas as coisas, uma maneira certa de fazer tudo. Fazer uma telenovela tem uma finalidade. Escolher músicas para uma telenovela tem outra finalidade. E eu fico satisfeito quando consigo, para cada programa ou formato que faço, chegar a essa finalidade.".

É provável que esta elasticidade ou flexibilidade ou capacidade de se adaptar a diferentes formatos (como lhe queiramos chamar) tenha sido adquirida durante os quatro anos em que fez rádio, antes de desenhar som para cinema e televisão. "Quando tu não tens uma imagem, aí é que tens de dar a todo o momento uma informação à pessoa, e não podes dar duas ao mesmo tempo. Isso é que é desenho de som. É escolheres no som o que queres que chegue à pessoa, aquilo que queres que ela sinta ou não sinta. É fazeres um compasso de espera ou um contratempo, como na música. Acho que muita da minha escola do que é desenho de som vem dos tempos em que trabalhei na rádio. A partir daí, foi tudo muito natural."

"Às vezes, para um filme ser bom, não precisa de ser perfeito"

Miguel Martins trabalhou recentemente com o realizador Miguel Gomes na trilogia "As Mil e Uma Noites", que estreou em 2015 no Festival de Cannes. Ele e o respeitadíssimo diretor de som Vasco Pimentel foram, aliás, distinguidos pela European Film Academy, na categoria de som, pelo seu trabalho nos três volumes da obra. Na altura, as palavras do júri foram estas: "O desenho de som de 'As Mil e Uma Noites' possui uma identidade forte, combinando documentário e estilos de ficção. Cada sequência de som desenvolve um ponto de vista original que corresponde de forma muito próxima à narração. O resultado é uma poesia brilhante, cheia de vida e ousadia".

"Às vezes, para um filme ser bom, não precisa de ser perfeito", diz Miguel, recordando o início daquilo que viria a ser a curta-metragem "Cântico das Criaturas", em 2006. "Estávamos em Assis. Eu ia para um lado e o Miguel [Gomes, realizador] ia para o outro, e ao fim do dia encontrávamo-nos. Eu ia à procura dos sons e ele à procura das imagens. E depois aconteceu que a maior parte dos sons que entraram no filme foram precisamente esses... Umas pessoas a cantar, os sinos, a neve lá em cima. A forma de filmar do Miguel é muito livre. Tu estás à procura de sons que podem ser bons e de repente esses sons até contam uma história paralela à narrativa do que é o próprio filme, uma história que está a dar mais informação ao espectador - o som não precisa de ser só ilustrativo." É um trabalho que envolve "procura, tentativa e erro, porque o erro e a imperfeição também fazem parte da construção das coisas".

Tudo começa nos diálogos, explica Miguel. É preciso limpar as vozes e tirar os ruídos, "porque não é raro começar a filmar uma sequência de manhã e terminá-la só à noite", e entretanto passou uma trupe de camiões e aviões, ficou tudo calmo e voltou a passar uma trupe de camiões e aviões e ficou tudo calmo outra vez e é preciso uniformizar esse som de fundo. "Esse é o primeiro trabalho e é ele que começa a dar-me coisas para o filme. Ouvir os atores e a forma como eles dizem as coisas, o espaço que deixam entre eles, os silêncios... tudo isso ajuda a perceber o que é preciso fazer a seguir." No meio disto tudo há um desafio gigante, que é saber até onde se pode ir nesta coisa de tirar, tirar, tirar. Porque tirar é "fácil", "tens já não sei quantas ferramentas para isso", mas não tirar é que é "difícil". "Muitas vezes apercebes-te que já tiraste demasiado e então o som torna-se insípido e tens de voltar ao início e aprender a viver com isso assim, porque é o melhor para o filme", e é isso que verdadeiramente importa.

  • As categorias invisíveis dos óscares que andamos a menosprezar (mas não devíamos)

    Há um certo desapreço por algumas categorias dos óscares – a começar pela própria Academia, que as anuncia aceleradamente e sem afeto durante a cerimónia. Sabe a diferença entre mistura e edição de som? Compreende a relevância da cenografia? Já ponderou nos mistérios da caracterização? Entende a sensibilidade da fotografia de um filme? É aí e em categorias identicamente desconsideradas dos óscares que habitam tantos dos mistérios do ofício de construir um filme. Foi o que aprendemos a elaborar este trabalho que agora partilhamos consigo: fomos ter com profissionais destas áreas do cinema em Portugal e descobrimos os segredos e as astúcias da gente invisível em que raramente pensamos quando contemplamos um filme. Venha daí: é provável que fique a estimar ainda mais o cinema