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Ciro Guerra: “Pelo facto de o filme existir, já ganhámos”

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CHRIS DELMAS / AFP / Getty Images

Tem 34 anos e realizou “O Abraço da Serpente”, um filme sobre o “grande mistério” da Amazónia colombiana, nomeado para o óscar de melhor filme estrangeiro na edição deste ano. Ciro Guerra esteve no Hay Festival de Cartagena das Índias, na Colômbia, e falou com o Expresso sobre o filme, e a história de um “universo complexo” que “não cabe nem em um nem em mil filmes”

Porquê a Amazónia?

Porque a Amazónia na Colômbia é muito desconhecida, é um grande mistério. É a metade do mapa do país mas é uma zona que eu pessoalmente conhecia muito pouco, e creio que acontece o mesmo com a maioria dos colombianos. Não é uma zona com a qual dialoguemos.

O que descobriu com esse diálogo?

Realmente um universo completo, complexo, quase infinito, quase inalcançável, que está cheio de história, de cultura, tradição, riqueza, mas também de tragédia, e que, realmente, precisava de ser contado. A única coisa que se pode oferecer através do filme é um vislumbre, um pequeno vislumbre do que é aquele lugar, porque é um território que não cabe nem em um nem em mil filmes.

Quando diz que é inalcançável quer dizer que não se pode compreender totalmente o que se passa ?

Sim. Definitivamente. É um lugar que se rege por umas regras diferentes das que conhecemos. É dos poucos lugares no mundo que escapa à compreensão racional e às regras que estão estabelecidas. Eu gosto disso, e enche-me de otimismo.

Escapa às regras? -me um exemplo.

Durante a rodagem, tivemos a protecção de um xamã. Antes de começar a rodagem disseram-nos que naquele lugar podia chover durante 50 horas seguidas, e pensámos que se isso se passasse não se poderia filmar. O que se passou na rodagem foi que nas primeiras 5 semanas nunca choveu quando tínhamos de filmar, só chovia nos intervalos no final do dia de trabalho, uns aguaceiros às vezes nos intervalos. E experiências como as que acabo de contar eram algo que vivíamos diariamente. Então, para mim, foi como uma experiência de rendição: dar um passo atrás com muita humildade e dizer que há um mistério maior, e que neste lugar é muito mais visível que no mundo que habitamos.

Render-se à natureza ou render-se à natureza e às pessoas que vivem na Amazónia?

Não diria que é render-me tanto à natureza como algo específico mas ao mundo e ao que lhe diz respeito, aos povos indígenas, a todos os seres vivos. Sinto que na vida existe muito que não podemos compreender, e digamos que a nossa sociedade trata de o racionalizar, de tentar fazer com que tudo tenha uma explicação. Creio que os povos indígenas aceitam e abraçam esse mistério.

O seu filme também?

Sim. Digamos que o filme trata de falar um pouco desse mistério. De transmitir de transmitir aos espectadores a sensação de que há coisas no mundo que não podemos entender, e que é válido não querer explicá-las apenas deixar-se levar por elas.

Aceitá-las?

Sim.

No filme decide contar a história de pessoas que, precisamente, estudaram a Amazónia Colombiana. Depois, apresenta-nos os povos indígenas.

O filme conta o encontro entre sabedores, homens de ciência, homens de conhecimento, com um mundo desconhecido. São dois mundos diferentes e o que mostramos no filme é como esse encontro produz um choque que é violento mas ao mesmo tempo produz a possibilidade de um diálogo. Essa foi a história que encontrei nos diários dos exploradores que é a história de um conhecimento que estava a ser descoberto e partilhado pela primeira vez, ao mesmo tempo que estava a ser destruído, e que se estava a perder, por completo.

Então, fez investigação com documentos reais desses exploradores que realmente lá estiveram?

O filme inspira-se no diário de dois exploradores que no princípio do século foram os primeiros a estudar a Amazónia Colombiana, que até à época era grande parte território não explorado.

Este filme está agora na corrida para os óscares mas já venceu outros prémios de cinema importantes. Pensava que seria possível chegar aqui?

Realmente não pensava, não creio que possamos pensar nos filmes em função do resultado que possam ter mas, no princípio do projeto sentia que tínhamos algo muito especial, que se conseguíssemos fazer o filme, se conseguíssemos que corresse bem, se conseguíssemos terminá-lo, ia ser alguma coisa especial que ia ter uma conexão especial com o público... mas mesmo assim surpreendeu-me muito a receção porque foi realmente muito entusiasta, muito comovida e muito profunda, de espectadores de todas as partes do mundo.

O casting tem actores colombianos mas não só.

Temos actores da Bélgica, Estados Unidos, Colômbia, Venezuela, e depois ospersonagens indígenas são interpretados por verdadeiros indigenas de lá, são indígenas da Amazónia.

Então não são actores.

Não, não. O que queríamos era um grande nível de autenticidade e para representar um indígena é algo extremamente difícil. Um indígena amazónico é algo que não é possível representar. Neles só existe verdade. Foi isso que tentámos ir buscar.

Como foi essa relação com pessoas que não sabem representar, dirigi-las?

Foi muito mais fácil do que esperava. De início estava preocupado porque pensava que para eles, ao não terem contacto com o teatro com a televisão e a representação, ia ser muito difícil, mas não foi assim.

Para eles as histórias são muito importantes, contar histórias é muito importante. Eles têm uma tradição oral que mantiveram durante séculos, e essa é a sua riqueza cultural. Terem essa tradição oral implica que saibam escutar, e isso é o mais importante para um actor, saber escutar. É muito difícil encontrar actores que de verdade saibam escutar. Então eles, com essa facilidade, já tinham metade do caminho percorrido.

Como está a ser a receção ao filme na Colômbia?

O filme foi muito bem recebido quando estreou na Colômbia, mas na altura estreou em poucas salas. Os cinemas não acreditavam muito no filme e então deram-nos muito poucas salas para o exibir. Mesmo assim, estivemos 2 meses em sala, 11 semanas em cartaz, o que é um record para um filme colombiano porque normalmente duram 2 semanas, no máximo.

Então, as salas estiveram muito cheias durante muito tempo, e houve muito entusiasmo, muita reflexão, muitos debates em volta do filme, mas digamos que nunca se permitiu sair do circuito alternativo, e não podia chegar a um público mais amplo. Nessa primeira exibição foi visto mais ou menos por 110 mil pessoas, o que é muito. Mas agora, com tudo o que se passou, com a nomeação para os óscares, conseguimos pôr o filme pelo país e está neste momento em 100 salas. Está a funcionar extraordinariamente bem. Vai ultrapassar os 400 mil espectadores o que, para um filme a preto e branco, é algo incrivel.

E fora da Colômbia?

Em salas de cinema está actualmente em mais ou menos 40 países.

Lembra-se do que estava a fazer quando soube da nomeação?

Sim. A televisão Caracol, que foi o principal apoio do filme, convidou-nos, a mim, à equipa e aos produtores, para um pequeno-almoço, e estivemos todos juntos a ver o anúncio. Quando soubémos houve muita emoção, muita gente se emocionou, muita alegria e muita histeria.

E agora?

Pessoalmente não espero nada. Estamos muito satisfeitos com tudo o que se passou com o filme, muito contentes. Para nós o prémio principal é o facto de o filme ter sido concluído e poder ser visto.

Recebemos com muita alegria tudo o que vier mas sentimos que, pelo facto de o filme existir, já ganhámos.