Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

“As melhores coisas não se contam por palavras”

  • 333

Nádia estudou realização e montagem mas a dada altura percebeu que, na área do cinema, aquilo que lhe interessava mesmo era direção de arte - escolher os décors, os objetos, tudo o que vemos em cada plano de um filme. Conheceu o realizador João Salaviza na Escola Superior de Teatro e Cinema. Eram da mesma turma, tornaram-se amigos. É com ele que tem trabalhado desde então. Outros realizadores destacam-se no seu percurso, como João Botelho, João Canijo, Miguel Gomes e Ivo Ferreira

Helena Bento

Jornalista

João Roberto

João Roberto

Motion designer

Nádia está nervosa. Diz que não está habituada às câmaras e que preferia estar no nosso lugar. Anuímos com um ligeiro encolher de ombros e soltamos um "pois". "São só algumas perguntas, nada de especial", dizemos-lhe. Ela parece acreditar. É sexta-feira e estamos num armazém enorme de dois pisos localizado em Alfragide. Nádia senta-se num banco junto a uma cortina de candeeiros e espera que o jornalista lhe coloque o microfone, o que nos dá tempo de olhar em volta e observar o local onde estamos. Livros, mesas, cadeiras de madeira, de plástico, frascos de perfume, manequins vestidos, outros despidos, bicicletas, quadros, posters, máquinas fotográficas, pilhas, um escadote, redes de pesca, uma corda grossa, enrolada sobre si mesma. Procuramos padrões, pistas, qualquer coisa que nos ajude a dar um pouco de arrumação a esta catrefada de coisas que estão à nossa volta. Percebemos que alguns objetos estão organizados segundo o seu tipo. Outros não. No segundo andar, ao lado de dois globos terrestres com suporte em madeira trabalhada está um aspirador, e a escassos metros dali estão quatro máscaras com aspecto tribal. Nada do que aqui está parece ser novo. O chão tem pó e os objetos têm pó e o cheiro das coisas velhas.

Nádia começa a falar. Diz-nos que é aqui que vem, ao armazém de Madalena Serôdio, quando precisa de fazer décors "um bocadinho mais antigos, tudo o que seja anos 50, 60 ou 70". "Gosto especialmente deste armazém porque me permite ter uma relação mais próxima com as coisas. Aqui no meio, eu consigo descobrir objetos que trazem com eles ideias que depois me vão permitir pensar as coisas de outra maneira, e isso faz parte da minha forma de trabalhar."

Nádia (o apelido é Henriques) é diretora de arte. É ela que assegura que o espaço em que vai ser filmada determinada cena apresenta-se tal e qual como o realizador o idealizou, tanto em termos de decoração como dos objetos presentes. De uma forma mais simples, podemos dizer que está encarregada da cenografia do filme. "Depois de ler o argumento, começo a fazer o levantamento de todas as necessidades do filme. Fico a saber, por exemplo, que em determinada cena o protagonista utiliza uma chávena de café verde e que está sentado numa cadeira vermelha e que o espaço onde ele se encontra é em tons de cinza. Esta é a primeira relação mais prática com o argumento", explica Nádia. "Depois, no trabalho com o realizador e com o diretor de fotografia, e no confronto com os espaços escolhidos para filmar e com os atores, vou percebendo efetivamente o que pretende o realizador. Vou perceber que se calhar aquela chávena não tem obrigatoriamente de ser verde, porque no fundo o que está descrito no argumento é uma interação entre as coisas e não a coisa em si", acrescenta.

"Entrei neste meio assim pela porta do cavalo"

A maioria dos diretores de arte "vem de áreas como a arquitetura, arquitetura de interior ou design de cena", mas Nádia optou por fazer um percurso diferente. Estudou Realização e Montagem na Escola Superior de Teatro e Cinema, em Lisboa. "Entrei neste meio assim pela porta do cavalo." Durante o curso realizou duas curtas-metragens, mas depois começou a dedicar-se mais à área de direção de arte. "Acho que é um trabalho extraordinário. E o facto de não ter tido formação artística no sentido plástico dos materiais e das escolas é para mim um desafio ainda maior. Sinto que tenho de trabalhar muito mais do que os meus colegas."

Foi ali, no antigo Conservatório Nacional de Lisboa, que conheceu o realizador João Salaviza. Eram da mesma turma, tornaram-se amigos. Trabalhou com ele na curta-metragem "Duas Pessoas" (2004) e depois em "Cães de Caça", "Arena", que foi Palma de Ouro em Cannes, "Hotel Müller", "Rafa", que foi Urso de Ouro em Berlim, e "Montanha", primeira longa-metragem de Salaviza, que estreou em 2015. Embora não tenha sido na área da direção de arte, Nádia também já trabalhou com realizadores como João Botelho (foi segunda assistente de realização no "Filme do Desassossego"), João Canijo (terceira assistente de realização em "Sangue do Meu Sangue"), Cláudia Varejão (no filme "Luz da Manhã", em que ficou encarregada do guarda-roupa) e Miguel Gomes (foi assistente de decoração no primeiro volume da trilogia "As Mil e Uma Noites", que estreou no ano passado). O seu trabalho mais recente, enquanto assistente de decoração, foi em "Cartas da Guerra", o filme de Ivo Ferreira que esteve competição este mês no Festival de Cinema de Berlim, um dos três mais importantes festivais de cinema do mundo.

"Queres que eu diga uma coisa genérica ou mais específica?"

Perguntamos a Nádia o que mais a atrai no trabalho de direção de arte e ela, em vez de responder logo, surpreende-nos com outra pergunta: "Há um problema nessa questão que é: eu vou dar-te uma resposta que a maior parte das pessoas não daria. Queres que eu diga uma coisa genérica ou mais específica, correndo o risco de ser demasiado específica?" Respondemos, sem saber bem ao que vamos, e ela prossegue: "O realizador escreve o filme, pensa no filme; sabe qual será o ritmo dele, o ambiente, as personagens... E o meu papel é tentar transmitir isso a partir dos objetos e dos décors. Quando eu consigo efetivamente traduzir uma coisa tão abstrata numa coisa concreta é super recompensador", diz Nádia. E acrescenta que no meio disto tudo também gosta de "dar alternativas para se pensar a história", ajudar o realizador dentro daquela que é a sua área, linguagem, ferramentas e materiais de trabalho.

De entre os materiais de trabalho de um diretor de arte, Nádia destaca a cor, "que é uma grande parte de tudo isto". "Quando lês um argumento tentas perceber, por exemplo, que relação o realizador quer que os personagens tenham com o espaço onde estão - se ele quer que o personagem esteja confortável no espaço que o rodeia ou completamente desconfortável; se quer que o personagem se misture com o espaço ou se destaque do espaço. O primeiro trabalho aí é a cor, porque sabemos que os tons mais frios causam mais desconforto e que os tons mais quentes são mais acolhedores. E este é um pensamento que começa logo a guiar o trabalho."

"O nosso trabalho é mais uma ferramenta para contar a história"

Além da cor, há aquilo a que Nádia chama "grau de saturação visual", em que podemos ter décors "mais limpos ou mais compostos", a "natureza do mobiliário" - se se trata de mobiliário dos anos 60 ou 70 ou outra década - e o "grau de familiaridade dos décors". "Neste aspeto, estou a pensar, por exemplo, nas casas, na casa do protagonista, que é raro não aparecer seja em que filme for. Através do décor - décor mais personalizado ou mais anónimo - podemos saber mais sobre aquele personagem", explica Nádia. "No fundo, estamos a trabalhar sempre com este objetivo, que é dar mais à história. O nosso trabalho é mais uma ferramenta para a contar. É muito diferente teres um personagem que vai à janela para fumar um cigarro, ou teres um personagem, como acontece no 'Rafa', que vai até à janela, pára, acende um papelinho, e fica a vê-lo voar, a arder, até cair na calçada. Cigarro e papel são dois elementos diferentes que dizem coisas completamente diferentes sobre aquelas pessoas. E o realizador precisa destes materiais para contar a história, porque as coisas, as melhores coisas, não se contam por palavras".

Um dos adereços que Nádia teve mais dificuldade em encontrar foi uns olhos de que precisava para fazer um alienígena morto no filme "Bunker" (2015), de Sandro Aguilar. Procurou, procurou e nada, até que conseguiu chegar a um responsável do Museu Nacional de História Natural e da Ciência, em Lisboa, que lhe indicou uma empresa alemã especialista em fazer olhos de vidro, que são sobretudo procurados por pessoas que embalsamam animais. Os olhos chegaram finalmente e o alienígena foi feito. O trabalho de um diretor de arte é assim mesmo, diz Nádia, "estar sempre a descobrir coisas, a aprender". "Se vou trabalhar num filme russo, tenho de saber tudo sobre a Rússia. Se vou trabalhar num filme que se passa numa mina, tenho de saber tudo o que tem que ver com o trabalho nas minas, incluindo protocolos de segurança. No caso do alienígena morto, que é assim uma coisa um bocadinho mais escabrosa, foi preciso ver muitas fotografias de animais mortos, ir a talhos e, claro, recorrer ao amigo Google, que nestas coisas é sempre um senhor extraordinário".

O diretor de arte "almeja a invisibilidade"

Nádia acredita que o "objetivo de qualquer diretor de arte é comunicar com o inconsciente do espectador". E dá um exemplo muito claro disto. No filme "Yvone Kane", de Margarida Cardoso, em que Nádia trabalhou, há duas personagens femininas, uma mãe e uma filha, que no início se encontram não só em lugares muito afastados como mantêm uma relação muito distante, e isso reflete-se na roupa que uma e outra usam, com cores muito distintas.

Mas à medida que o filme evolui elas vão aproximando-se, do mesmo modo que a roupa que usam também se vai tornando cada vez mais parecida em termos de cor, até estarem praticamente vestidas de forma igual. É uma mudança muito subtil de que o espectador não se apercebe logo, e ainda bem. O objetivo é precisamente esse. "O diretor de arte está a trabalhar com o inconsciente do espectador, de modo a que ele chegue à mesma conclusão a que o filme chega." O que se pretende verdadeiramente, explica Nádia, não é que o espectador se aperceba destas mudanças à medida que elas vão acontecendo, mas que se aperceba mais tarde, ou que isso, de alguma forma, influa naquilo que ele vai tirar do filme. O diretor de arte, conclui Nádia, "trabalha para a invisibilidade, almeja a invisibilidade".

  • As categorias invisíveis dos óscares que andamos a menosprezar (mas não devíamos)

    Há um certo desapreço por algumas categorias dos óscares – a começar pela própria Academia, que as anuncia aceleradamente e sem afeto durante a cerimónia. Sabe a diferença entre mistura e edição de som? Compreende a relevância da cenografia? Já ponderou nos mistérios da caracterização? Entende a sensibilidade da fotografia de um filme? É aí e em categorias identicamente desconsideradas dos óscares que habitam tantos dos mistérios do ofício de construir um filme. Foi o que aprendemos a elaborar este trabalho que agora partilhamos consigo: fomos ter com profissionais destas áreas do cinema em Portugal e descobrimos os segredos e as astúcias da gente invisível em que raramente pensamos quando contemplamos um filme. Venha daí: é provável que fique a estimar ainda mais o cinema