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A subtileza das coisas complicadas

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Armanda Claro

Nuno Esteves faz maquilhagem e caracterização para cinema e tem histórias para contar que nunca mais acabam. A rodagem do filme "Nuit de Chien" no Porto, do cineasta alemão Werner Schroeter, em que teve de fazer uma reprodução viva de um quadro de Paula Rego e em que dezenas de figurantes estiveram deitados durante horas no chão, à chuva, em pleno Inverno, num passeio junto aos Clérigos, e a serem "cobertos de sangue de dez em dez minutos". Um terramoto no Tajiquistão que destruiu a aldeia construída por pastores onde, pouco tempo antes, tinham estado a filmar. A morte de um colega em Angola, vítima de malária, durante a rodagem do filme "Cartas da Guerra", de Ivo Ferreira, que foi a concurso recentemente no Festival de Cinema de Berlim

Helena Bento

Jornalista

João Roberto

João Roberto

Motion designer

Nuno prepara-se bem antes de iniciar qualquer trabalho. Acredita que os anos de experiência - e no seu caso já são muitos, cerca de 23 - não substituem o trabalho de casa. Mas toda a preparação nunca seria suficiente para aquilo que viria a acontecer em África, durante a rodagem do filme "Cartas da Guerra", de Ivo Ferreira, que esteve em concurso este mês no Festival de Cinema de Berlim. "Nós sofremos na pele muito daquilo que é a África agreste. Estivemos realmente isolados, estivemos realmente no mato. Fomos tão vítimas quanto os soldados na guerra das malárias, dos tifos, dos bichos esquisitos, das viroses. Tivemos tempestades que nos levaram o cenário pelo ar. Por outro lado, o tema do filme, em si, já não é fácil. Foi um trabalho muito, muito duro, e isso acabou também por contribuir um pouco para o realismo do filme. Eu já fiz filmes muito complicados, mas este é um filme que fica especialmente marcado. Um dos nossos colegas morreu vítima de malária". "Cartas da Guerra" é uma adaptação ao cinema das cartas que o escritor António Lobo Antunes enviou à sua mulher, Maria José, quando foi alferes em Angola, reunidas e publicadas sob o título "D'este Viver Aqui Neste Papel Descripto".

Perante tantas dificuldades, as filmagens só avançaram "porque atores, técnicos e realizador uniram-se para levar o projeto avante". "Éramos cerca de 30 lá. Estávamos a trabalhar com atores muito bons do teatro português, todos muito novos, que deram uma frescura àquilo. Fiquei encantado com eles. Serão os meus sobrinhos e filhos para a vida. Da desgraça, do sofrimento e do cansaço resultou uma coisa feita com muito amor", diz Nuno. "Saímos de lá a dizer que nunca mais ninguém nos haveria de apanhar lá, mas ao fim de todos estes meses a opinião geral é que se fosse preciso voltar, voltaríamos, sem hesitar."

Os anos Dior e Gaultier

"Tenho uma história muito feliz e muito cheia de coisas boas." Nuno Esteves tinha 17 anos quando trabalhou pela primeira vez como caracterizador num filme intitulado "O Pecado da Mamã", a longa-metragem de Saguenail, realizador francês há vários anos radicado no Porto. "Ele juntou pessoas de todo o lado do mundo, que vieram trabalhar gratuitamente com ele porque naquela altura era muito difícil ter dinheiro para fazer filmes em película e para o resto. Foi lá que conheci aquelas que ainda hoje são grandes referências do cinema e teatro português, como a Lia Gama, Rui Madeira, Ana Barros." Tratava-se de um filme muito controverso, não só pela estética, como também pela temática, explica Nuno. "Tinha que ver com o vírus da sida, que naquela altura ainda era um tema um bocadinho tabu. Eu, que pela idade também já sou 'old school', aprendi mesmo com a 'old school'. Fui atirado aos lobos assim."

Escultor de formação - estudou na Faculdade de Belas Artes do Porto -, Nuno foi bailarino e professor de caracterização na área da dança e do teatro na escola profissional Ballet Teatro Contemporâneo do Porto. Antes de entrar para a faculdade, fez a primeira formação "às escondidas" em maquilhagem - tinha 17 anos e era demasiado novo para poder frequentá-la. Depois de terminar o curso de escultura, foi viver para Paris, onde esteve durante oito anos. Foi ali que fez a sua formação a sério em maquilhagem. Trabalhou na casa Dior e depois na casa Gaultier, do estilista francês Jean Paul Gaultier, tendo ao fim de algum tempo abandonado a moda. "Cansei-me um bocadinho. É um ritmo alucinante. É fantástico em termos criativos, mas há um momento em que se sente que também se precisa de ter vida, de namorar, sair... e na moda isso não é possível, sobretudo quando se é chefe de sector." Apesar disso, manteve o contacto com os seus chefes e continua a dar-se "muitíssimo bem" com eles. "Aprendi imenso com eles e continuam a ser dos meus melhores amigos - os que ainda estão vivos, claro. São as pessoas que mais respeito e venero. Hoje em dia ainda lhes ligo a pedir conselhos sobre produtos."

A subtileza das coisas complicadas

Perguntamos a Nuno se o papel dele enquanto caracterizador é seguir à risca o que está descrito no guião. "Basicamente sim", responde, destacando a importância do trabalho de grupo. "O realizador passa-me a informação e passa a informação ao ator. Eu falo com o ator e tento perceber o que ele sente em relação à personagem, e depois a três, ou a quatro - o diretor de fotografia pode até juntar-se entretanto - vamos criando tudo. Há uma união muito grande a esse nível. E tem de haver uma confiança absolutamente entre todos. Porque na realidade aquilo que o realizador quer é aquilo que todos nós vamos construir com aquela coisa maravilhosa que não é barro, mas é como se fosse, chamada ator."

Nuno diz que todos nós temos "muita aquela ideia que caracterização é pura e simplesmente o sangue, as cicatrizes", mas isso não é verdade. "A caracterização é uma pequena alteração que pode ser feita com uma prótese de uma sobrancelha, de um nariz. Às vezes, são coisas muito subtis e que são extremamente complicadas. As mais subtis são, aliás, as mais complicadas, como fazer um duplo queixo, por exemplo, de modo a parecer natural, para dar um ar mais gordo à personagem." E recorda uma situação que aconteceu durante a rodagem do filme "Mistérios de Lisboa" (2010), realizado pelo cineasta Raúl Ruiz, falecido em 2011.

Um dos atores foi atacado numa saída à noite, no dia anterior às filmagens de um plano em que ele aparecia em destaque, em grande plano e de perfil, filmado precisamente do lado em que estava mais magoado. "Ficou com o olho todo negro, pisado e cheio de sangue por dentro." A produtora, assim que Nuno chegou ao local onde iam decorrer as filmagens, chamou-o à parte. "Blue [alcunha de Nuno], calma, eu tenho uma coisa para te mostrar e temos de perceber se isto é viável", disse-lhe, mostrando-lhe depois o ator e o estado em que ele se encontrava. "Fiquei completamente à toa quando olhei para ele. Eu tremia como varas verdes", conta Nuno, que ao fim de algum tempo lá conseguiu resolver a situação, usando maquilhagem para ocultar o hematoma. "Foi muito duro, muito complicado."

Outro filme complexo, embora por razões diferentes, foi o "Nuit de chien" (2008), realizado pelo cineasta alemão Werner Schroeter. Trata-se de um filme de época baseado no romance "Para esta Noche" (1941), do espanhol Juan Carlos Onetti, que se inspirou na Guerra Civil de Espanha. O cenário é a cidade do Porto e parte do elenco é português, assim como o produtor, Paulo Branco. "O Werner, como se sabe, era um discípulo de Fassbinder [Rainer Werner Fassbinder] e, como tal, era um enfant terrible. Tinha uma estética muito própria. Uma vez chegou ao pé de mim e pediu-me que fizesse uma reprodução viva de um quadro da Paula Rego. Fiquei muito nervoso, porque longe de mim ter a pretensão de conseguir reproduzir um quadro dela, mas a verdade é que com o ator, o cenário e a roupa conseguimos fazê-lo em muito pouco tempo."

Nuno recorda também as muitas e "estranhas" cenas de caracterização de guerra que tiveram de fazer durante essas filmagens, com os figurantes deitados no chão, à chuva, em pleno Inverno, num passeio junto à Torre dos Clérigos, e a serem "cobertos de sangue de dez em dez minutos porque se tratava de uma cena de uma chacina". A rodagem demorou três meses e o filme foi todo filmado à noite. "Foi muito interessante e duro. Chegámos a Lisboa brancos porque não víamos a luz do dia há meses. Parecíamos filhos de vampiros."

Doenças, talibãs e terramotos na rodagem

Uma das caracterizações que deu a Nuno mais gozo fazer foi num filme ainda por estrear da realizadora afegã Shahrbanoo Sadat, de 23 anos. "Wolf and Sheep" retrata a vida de uma comunidade numa pequena aldeia do Afeganistão, as suas histórias, tradições e crenças, embora tenha sido filmado no Tajiquistão por questões culturais - por ser mulher, Shahrbanoo Sadat nunca poderia filmar no seu país - e de segurança. Várias crianças afegãs das aldeias entram no filme. Uma das crenças dessa comunidade do Afeganistão é no lobo Kashmir, que caminha sobre duas patas e é, ao mesmo tempo, por baixo de todo o seu pêlo, uma fada verde, alta, que obriga os "cruéis" a subir com ela até à montanha.

O lobo foi feito por Nuno e pela sua equipa. "A parte da cabeça foi brutal. Fizemo-la primeiro em escultura e depois fizemos um molde noutro produto, para ficar leve e poder entrar na cabeça da performer, e também para aligeirar o calor." O corpo foi todo coberto de pêlos. A atriz que faz de lobo é a mesma que faz de fada verde, estando completamente nua (exceto as zonas erógenas, que estão tapadas) e o corpo pintado de verde. Nuno diz que tudo isto foi um desafio gigante, apesar de o tempo não ter sido generoso. "As temperaturas no Tajiquistão variam muito, tanto estão seis graus como 30. E o mais caricato é que no dia em que a atriz faz de lobo estão 32 graus e no dia em que faz de fada estão seis e ela está toda nua a rodar durante 12 horas, sem poder pôr um pano nas costas."

Mas filmar no Tajiquistão implica lidar com outras dificuldades além do tempo, como as doenças. "O país tem os mesmos problemas de doenças que África tem. São as amebas, a malária, as viroses. Tivemos a equipa muito doente." Outro grande problema é o terrorismo. "Os talibãs estavam muito próximos de nós, e quando as filmagens terminaram e quisemos levar as crianças de volta para o Afeganistão foi muito complicado. O horror de passar a fronteira com os talibãs tão perto foi sentido por todos. Nós sabíamos que aquelas crianças podiam, de facto, ser mortas. A realizadora foi ameaçada várias vezes, e neste momento até está a viver em Paris, escondida em casa de uma amiga, porque sabe que é perigoso voltar."

Depois houve ainda um episódio com o qual ninguém estava a contar. Meia hora antes de apanharem o avião para voltar para Portugal, houve um sismo no Tajiquistão que destruiu por completo a aldeia em que eles tinham estado a filmar, construída por pastores da região. "Entrámos em pânico porque os nossos técnicos tinham sido as pessoas daquela zona. Nós acabámos por ter uma sorte brutal."

Eles são a coisa mais importante

Nuno recorda uma conversa que teve com Ivo Ferreira durante a rodagem do filme "Cartas da Guerra". O realizador tinha descrito no guião uma das personagens, a taberneira, como uma "mulher feia, gorda e com rugas", e a atriz que interpreta essa personagem no filme é Maria João Abreu.

- Ivo, tens a certeza que é isto que queres? Eu conheço a Maria João, e assim que ela chegar ela vai mesmo querer ser gorda e feia e ter rugas.

- Sim, mas por favor não exageres.

E assim foi. A atriz ficou entusiasmada e Nuno ainda mais. "De repente, vi-me a pegar em silicone e a meter-lhe umas próteses dentro da gengiva para ela ficar inchada e a pôr-lhe um sinal que ela nem sequer tem. Foi muito engraçado. Felizmente, no cinema português, ao contrário do cinema francês, não existe essa coisa de a atriz achar que é só diva e muito bonita e que tem de estar sempre em bom."

Nuno tem um "respeito enorme" pelo atores e também tem tido a "sorte" de eles terem um respeito enorme pelo seu trabalho. "Um bigode que salta, por exemplo, é um problema. Um ator que sabe usar um postiço, que não coça a cabeça quando sabe que tem uma calota porque não é careca e tem de o ser na cena, e que nos poupa esse trabalho de estar continuamente a parar para retocar, é maravilhoso. De resto, eles também sabem que eu só não faço o que não posso."

Mas não é só isso. Trabalhar com Maria João Bastos, por exemplo, no filme "Mistérios de Lisboa" foi para ele uma descoberta. "Foi das atrizes que mais me surpreendeu. Ela trabalhou imenso." E quem diz Maria João Bastos diz, por exemplo, Ricardo Pereira, ou outros atores, "atores novos, que são trabalhadores e que lutam imenso". "As pessoas nem sonham aquilo que eles têm de fazer. Saem dos ensaios e vão ter aulas de canto, porque é preciso para a cena seguinte, ou vão visitar hospitais, como foi o caso da Maria João Bastos, porque a sua personagem [no filme de Raul Ruiz] tem tuberculose e ela precisou de ver comportamentos, respirações. Muitos de nós temos aquela de que para alguns atores que fazem telenovela é tudo muito fácil, mas não é verdade. Tenho um respeito muito profundo pelos atores. Na minha profissão, eles são a coisa mais importante."

Armanda Claro

  • As categorias invisíveis dos óscares que andamos a menosprezar (mas não devíamos)

    Há um certo desapreço por algumas categorias dos óscares – a começar pela própria Academia, que as anuncia aceleradamente e sem afeto durante a cerimónia. Sabe a diferença entre mistura e edição de som? Compreende a relevância da cenografia? Já ponderou nos mistérios da caracterização? Entende a sensibilidade da fotografia de um filme? É aí e em categorias identicamente desconsideradas dos óscares que habitam tantos dos mistérios do ofício de construir um filme. Foi o que aprendemos a elaborar este trabalho que agora partilhamos consigo: fomos ter com profissionais destas áreas do cinema em Portugal e descobrimos os segredos e as astúcias da gente invisível em que raramente pensamos quando contemplamos um filme. Venha daí: é provável que fique a estimar ainda mais o cinema