Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

A arte da ilusão

  • 333

O cinema reflecte sobre si próprio e sobre os dramas do mundo actual no primeiro fim-de-semana do Fantasporto

D.R.

Que é o cinema? Montagem? Realização? Argumento? Atores? Basicamente, a Sétima Arte resume-se a 24 imagens por segundo a serem projetadas num ecrã. Isto dizia, de forma desencantada, uma das personagens de Wim Wenders em “O Estado das Coisas”. E será que a importância de um filme se mede pela mensagem transmitida? John Ford costumava dizer que quem quer mandar recados, o melhor é ir ao correio e escrever cartas. Será que uma boa fita é a que tem final feliz? Cinicamente Orson Welles dizia que o “happy end” é só uma questão de escolher até onde se pára de contar a história…

Tudo isto me vinha à cabeça enquanto assistia à projeção de “Gelo” de Gonçalo e Luís Galvão Teles, filme português que abriu o Fantasporto na sexta-feira à noite. Uma obra muito cuidada esteticamente e que brinca com os fundamentos do próprio cinema: os protagonistas são alunos da escola de cinema (um deles cita a frase de Ford atrás referida) e a narrativa faz-se em dois planos temporais paralelos, nenhum dos quais mais verdadeiro que o outro. Quem é Joana? Uma criança criada artificialmente a partir de ADN da Idade do Gelo? A vítima de uma acidente de viação mantida numa câmara de congelação à espera de a ciência médica lhe poder devolver a vida? Uma estudante de cinema que sonha com o argumento para o seu primeiro filme?

Confesso que uma coisa que me divertiu no filme foi entreter-me a reconhecer os locais de filmagem: o Museu de Arte Antiga, em Lisboa, o recente e exemplarmente reconstruído Chalet da Condessa no Parque da Pena, o nó rodoviário do Carregado e uma paisagem de granito com neve que, se não é na Serra da Estrela, parece.

De facto, o cinema é antes de mais ilusão. Há três anos, quando o Fantasporto homenageou o produtor português Henrique Espírito Santo, passeávamos os dois pelo Jardim da Cordoaria, quando, apontando para a porta do Centro Português de Fotografia, antiga Cadeia da Relação onde Camilo Castelo Branco e Ana Plácido estiveram presos pelo crime de adultério, ele me disse: “Está a ver as grades da porta? É o único cenário real que usámos com o Manoel de Oliveira no “Amor de Perdição. Tudo o resto é estúdio. É assim o cinema, meu amigo, é ilusão…”

D.R.

Mas para chegarmos à ilusão temos que partir da realidade. Foi o que uma série de filmes entretanto projetados no festival fizeram. “The Lesson” da britânica Ruth Pratt, conta-nos o que pode acontecer quando um professor de literatura perde a cabeça com uma turma de rufias e resolve enfiar-lhes Milton, Stuart Mill, Hobbes ou Dickens, à martelada na cabeça, literalmente falando… Ou quando os sobreviventes de uma guerra apocalíptica e interminável, fazem a única coisa sensata no meio da loucura e encenam um torneio de ténis nas Highland escocesas. É este o resumo de “The Open” do francês Mark Lahore. Se “Gelo” era indiferentemente falado em espanhol e português, neste há diálogos travados em francês e inglês. O que os produtores têm que inventar nos projetos transnacionais…

D.R.

Finalmente, uma referência ao melhor filme até agora passado no Fantasporto: “Prisoner X” do canadiano Gauray Seth. Uma história bem contada, bons atores e um tema perturbador: pode alguém vir do futuro para manipular o passado? E quem é o verdadeiro manipulador? O preso ou os seus carrascos? E qual a mais terrível das armas? A bomba atómica ou a desconfiança paranoica? E já agora, é legítimo torturar presos mesmo que sejam suspeitos de atentados terroristas? Nada mais atual quando um labroste chamado Trump defende a reintrodução do “waterboarding” e outras selvajarias no preciso momento em que Obama faz o derradeiro esforço para fechar Guantánamo.