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“A Rapariga Dinamarquesa”: a impressionante Lili, tão esquecida pela História

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É a história da primeira transsexual, ou talvez de uma das primeiras transsexuais. Não interessa. Esta é, principalmente, a história emocionante de Einar Wegener e o caminho que trilhou até se tornar quem sempre foi. “A Rapariga Dinamarquesa” está nomeado para quatro óscares: melhor ator, melhor atriz, melhor guarda-roupa, melhor cenografia

"Durante estes 14 meses provei que eu, Lili, estou viva e tenho direito a viver. Podem dizer que não é muito, mas a mim parece-me uma vida inteira e feliz." O tom de conclusão das palavras que Lili Elbe escreveu a uma amiga nos primeiros dias de setembro de 1931 arrepia: Lili, antes Einar Wegener, morreu a dia 13 desse mesmo mês, devido a complicações relacionadas com as cirurgias a que se sujeitou para mudar de sexo. E no entanto parece ter morrido tranquila, e finalmente realizada.

É difícil dizer se Lili Elbe foi a primeira mulher transsexual do mundo, aponta o biógrafo David Ebershoff, autor do livro em que o sucesso do grande ecrã "A Rapariga Dinamarquesa" se baseia, ao Expresso: "A primeira vez que ouvi falar do caso de Lili foi há quase duas décadas, uma breve menção num livro sobre género, identidade e teoria literária. Dizia que ela tinha sido uma artista, que tinha casado com outra artista, e que era a primeira pessoa que tinha feito a operação para mudar de sexo. Sempre pensei que a americana Christine Jorgensen tivesse sido a primeira, por isso fiquei curioso com a Lili e o porquê de ela ter sido tão esquecida pela História".

Mas por interessante que seja a história da pioneira transição de Einar Wegener, pintor dinamarquês, para Lili Elbe, mulher livre, este é sobretudo um relato de emoções. Escrevia Einar em fevereiro de 1930, dias antes de conhecer o médico que lhe daria uma nova esperança e por quem seria operado para fazer a mudança de sexo: "Estou acabado. Lili sabe disto há muito tempo, e consequentemente revolta-se todos os dias mais vigorosamente".

À descoberta de Lili

A descoberta de Einar deu-se por acaso, como o próprio relata nos registos que sobrevivem do seu diário, citados pelo "Telegraph". A primeira miragem de Lili deu-se quando a mulher de Einar, Gerda Wegener - também ela uma pintora de sucesso – se preparava para pintar um quadro e a sua modelo faltou. Foi então que a amiga do casal Anna Larsen sugeriu que Einar vestisse as roupas destinadas à modelo para que Gerda pudesse pintar. "Não posso negar, por estranho que pareça, que gostei deste disfarce. Gostei da textura suave da roupa de mulher. Senti-me em casa desde o primeiro momento", admite Einar nos seus escritos.

Depois de Anna Larsen ter batizado o que então não passava de um divertido alter ego para Einar como Lili, Gerda continuou a pintá-lo vestido de mulher. No filme, a mulher do pintor passa por momentos de confusão e frustração, embora tente dar-lhe todo o apoio necessário. Na realidade, defende Ebershoff, "Gerda deu a Lili o amor e apoio de que ela precisava para começar a jornada de se tornar ela própria. Gerda não criou Lili – ela esteve sempre lá. Mas reconheceu-a, percebeu-a e encorajou-a a ser livre".

A relação de Gerda com Einar e depois Lili é uma das vertentes mais exploradas do filme e no entanto uma das que tem gerado mais dúvidas a quem tenta encontrar correspondências na vida real. O primeiro ponto a salientar é que se no grande ecrã a transição de Lili parece dar-se num período de meses, na verdade tudo aconteceu durante um período de quase duas décadas, entre a primeira viagem a Paris - em que um Einar vestido de Lili foi apresentado como "a prima de Einar", em 1912 - e as operações que deram a Lili a identidade que sentia como sua, realizadas entre 1930 e 1931. Durante a maior parte deste tempo, Gerda e Lili permaneceram juntas e foram felizes (o "The Guardian" relembra os rumores que indicam que Gerda fosse lésbica, em parte baseados no seu hábito de pintar cenas eróticas entre mulheres).

Para mais, e embora o drama da relação perante todas estas mudanças seja um dos principais eixos que sustentam o filme, este acaba por ignorar que, na realidade, tanto Lili como Gerda decidiram seguir em frente e, à data da morte de Lili (que no filme também dá a impressão de ser acelerada), ambas mantinham outras relações amorosas: depois de, no último ano de vida de Lili, se terem divorciado, Lili namorou com um comerciante de arte francês chamado Claude Lejeune; Gerda voltou a casar com um homem italiano que gastou todo o seu dinheiro e acabou por morrer pobre em 1940.

A verdadeira pioneira

Quando Einar se apercebeu daquilo que sentia, ele próprio se sentiu perdido, incapaz de reconhecer a própria identidade. No seu diário, o pintor referia sentir-se duas pessoas diferentes: por um lado o forte Einar, "capaz de enfrentar tempestades", e por outro a emergente Lili, "uma mulher frágil e superficial incapaz de falar na presença de homens poderosos". O biógrafo de Lili discorda desta descrição: "Ela era corajosa, criativa, cheia de imaginação e intelecto. Também era brincalhona, sedutora, estatuta. Ela percebeu quem era, e estava determinada a tornar-se a pessoa que estava destinada a ser".

Esta descoberta não foi fácil. Numa altura em que não se falava de transsexualidade, garante Ebershoff ("ela era uma mulher transsexual décadas antes de a palavra existir, e teve de perceber aquilo por que estava a passar mais ou menos sozinha"), Lili foi uma "verdadeira pioneira", sem que importem as datas exatas das suas operações. É que a verdadeira mudança já estava a acontecer: "Não é com o meu cérebro, olhos ou mãos que quero ser criativa, mas com o coração e o sangue. O desejo fervente na minha vida de mulher é ser mãe", revelava nos seus diários.

Lili já não estava interessada em ser Einar, nem sequer em pintar, um talento que associava ao seu passado: "Ela sentia que o instinto de pintar e criar já não era seu. Ela teve de criar o seu próprio caminho, incluindo os mecanismos psicológicos que a ajudavam a perceber aquilo que estava a passar. Eu acredito que para ela fosse importante separar-se de muitos aspetos da sua vida pré-transição", explica o biógrafo. Para isso, Lili teria de dar o passo final que poucas ou nenhumas pessoas tinham dado, e tornar-se, do ponto de vista biológico, mulher.

Por fim, a libertação

Como o filme retrata, a odisseia de Lili por vários consultórios médicos e os seus pedidos de auxílio não tiveram bons resultados – no seu diário fala das reações de "desdém", e o seu biógrafo esclarece: "As pessoas disseram a Lili que ela era louca ou esquizofrénica, mas ela sabia que não era verdade". Em fevereiro de 1930, uma Lili sem esperança escrevia sobre a vontade de cometer suicídio - uma vontade abordada de forma inconsequente no filme. No entanto, foi nesse mesmo mês que Lili, então com 47 anos, ouviu falar de um médico alemão que a poderia ajudar.

"A Rapariga Dinamarquesa" opta por condensar numa única figura as duas pessoas que clinicamente foram mais importantes na transição de Lili: o sexólogo que a acompanhou e o médico que efetivamente a operou, tendo levado a cabo um total de cinco cirurgias. Como o "Telegraph" relata, o primeiro contacto positivo de Lili foi com o sexólogo alemão Magnus Hirschfield, que em 1918 abriu o Instituto de Pesquisa Sexual, em Berlim, determinado a fazer da sexologia uma disciplina respeitada.

Hirschfield tinha experiência na área e compreendia Lili: o médico tinha passado os últimos 30 anos a documentar experiências de homens e mulheres homossexuais, sendo apontado como o inventor da palavra "transsexualidade" (a primeira que se refere à mudança efetiva de sexo).

Lili acabou por ser operada na Clínica Municipal de Dresden para Mulheres, "o sítio onde se sentia verdadeiramente compreendida e onde fez as cirurgias mais importantes", pelo cirurgião Kurt Wanekros. Embora a clínica tenha sido destruída na Segunda Guerra Mundial, o que levou a que muitos dos seus registos médicos desaparecessem, Ebershoff confirma que Lili "teve uma versão muito rudimentar daquilo a que hoje chamaríamos operação de mudança de sexo. Ela confiou nos médicos e não se arrependeu de ter feito as cirurgias, que lhe pareceram a única forma de avançar".

As complicações da última cirurgia, que visou transplantar um útero para o corpo de Lili (Ciclosporin, o medicamento que previne a rejeição dos órgãos transplantados, só foi utilizado com sucesso pela primeira vez em 1980, explica o "Telegraph"), acabaram por lhe tirar a vida. E no entanto, podem ter sido a sua libertação: "Ela percebeu que tinha de ser ela própria" e lutou por isso, nem que fosse por 14 meses.