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“A Queda de Wall Street”: continuamos indignados e sem perceber nada do que se passou

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Quando a crise financeira de 2008 eclodiu, nem todos percebemos o porquê mas quase todos nos assustámos. Entre o temor e a estupefacção houve um pequeno grupo de "outsiders" que ficou sem perceber o que devia fazer - se chorar, se abrir uma garrafa de champanhe, porque acabavam de se tornar ricos. “A Queda de Wall Street” tem cinco nomeações, incluindo a de melhor filme

Há várias maneiras de contar esta história. Uma é a dos cidadãos norte-americanos e do mundo em geral: não perceberam nada do que se estava a passar. Outra é a dos grandes bancos de Wall Street: estavam ocupados a ganhar cada vez mais dinheiro, num ciclo de lucros que não era invertido desde 1995. Outra é a de Ben Hockett, que em vez de estar na Califórnia a gerir o seu fundo de investimentos se encontrava, numa qualquer altura de 2007, de férias em Devon, Inglaterra, apanhando wi-fi num pub para fazer transações que lhe valeriam 80 milhões de dólares (72 milhões de euros) em poucos dias. E outra ainda é a de Michael Burry, que no último dia desse ano estava tão perturbado com o rumo que as coisas estavam a tomar que não conseguiu sair do escritório e ir para casa.

Falamos, é claro, da história da crise financeira de 2008, gerada com base em conceitos que o comum dos conceitos mortais desconhece, como hipotecas subprime (dica: são as que se condecem aos clientes que têm mais risco de não conseguir pagar o empréstimo) ou CDO (a estratégia financeira que consiste em pegar num bem, dividi-lo em componentes mais pequenas e dar a cada uma um valor independente). No filme, o realizador Adam McKay resolve o problema de forma a captar a atenção das pessoas e põe Margot Robbie numa banheira de espuma ou Selena Gomez numa mesa de póquer a dar estas explicações.

Mas voltemos à perspetiva dos cidadãos que não sabiam nada sobre o assunto. Em 2007, Michael Lewis não era um deles – trabalhava como jornalista financeiro -, mas quase. Como explica à "Vanity Fair", o que lhe chamou a atenção na altura "foram as estranhas, amorfas e crescentes perdas que os grandes bancos de Wall Street estavam a sofrer. Os seus empregados, supostamente os mais brilhantes e certamente as pessoas mais egocêntricas do planeta, estavam a cometer suicídios em massa". A pergunta surgiu naturalmente: "Afinal, o que é que estava a acontecer?".

A resposta é dada no livro que Lewis publicou em 2010 e no filme consequente, candidato aos principais óscares deste ano. Mas se agora é possível pôr Brad Pitt, Ryan Gosling ou Christian Bale num cartaz para atrair o público, na altura Lewis deparou-se com vários obstáculos: "Precisava de contra a história de forma que uma pessoa normal percebesse, e quisesse perceber". E mais importante: "Algumas pessoas tinham de estar do outro lado das transações estúpidas que Wall Street estava a fazer. Propus-me encontrar todas as que conseguisse. Havia umas 15 e todas tinham apostado contra hipotecas subprime" e feito rios de dinheiro, uma vez que depois da festa da concessão de crédito quase ilimitada, encapotada pelas agências de rating, o inevitável aconteceu: as pessoas deixaram de poder pagar os empréstimos e o sistema ruiu como um castelo de cartas.

Paciente zero ou o rapaz alegre

O grupo de protagonistas é constituído por personalidades "interessantes e peculiares", como o autor descreve - é difícil saber se devemos chamar heróis às pessoas que previram e beneficiaram de uma crise com repercussões mundiais, e esta dúvida é partilhada pelas próprias. Para Michael Lewis, que contactou com elas enquanto escrevia o livro, "este era o tipo de "outsiders" que teria dificuldade em arranjar emprego num grande banco de Wall Street" - mas que foi capaz de fazer a difícil distinção "entre o fim da estupidez e o início da corrupção".

É difícil falar de um "paciente zero" num caso em que pessoas de vários meios e contextos perceberam as falhas de um sistema de escala mundial. No entanto, Michael Lewis atribui este título a Greg Lippman, que é retratado no filme por um Ryan Gosling com uma peruca chamativa. Se viu este filme e não reconhece o nome de Lippman, não é motivo para espanto: o banqueiro, que na altura trabalhava no Deutsche Bank como vendedor de seguros, pediu que o seu nome verdadeiro não fosse usado, tendo em 2010 explicado à "Bustle" que estava "ansioso por voltar a ser anónimo".

Quem é então o discreto Lippman? Para o ator que lhe dá vida, com quem jantou e a quem deu dicas sobre o papel, "o seu trabalho era fazer dinheiro para o seu banco, mas ele não criou o sistema. Teve o instinto de perceber que as coisas eram demasiado boas para serem verdade, e foi dizer aos seus patrões que a recompensa de apostar contra os grandes bancos seriam maior do que o preço a pagar". A ideia foi desvalorizada pelos seus colegas, que "o apelidavam de Chicken Little ou o rapaz alegre porque era o único que defendia uma ideia impopular".

No entanto, diz Gosling, o homem que no filme tanto é elogiado como criticado pela frontalidade e a falta de escrúpulos que demonstra não tem uma correspondência exata na realidade. "Ele percebeu que a personagem era vagamente baseada nele, mas que o propósito do filme era contar uma história maior, e ajudou a contá-la." O homem que lucrou milhões com o fim da banca como a conhecíamos fundou em 2010 o seu próprio fundo de investimentos, o LibreMax Capital, e desde então tem-se dedicado a pedir publicamente que os americanos que não conseguem pagar as suas hipotecas sejam perdoados.

O eremita que não aparece nem em caso de apocalipse

Brad Pitt surge para dar vida a Ben Rickett (na verdade, Ben Hockett) como uma espécie de eremita desiludido com o sistema financeiro. Esta afirmação verifica-se, na vida real, a vários níveis - a começar por Hockett nunca ter falado à imprensa sobre o filme e a acabar com o facto de nunca ter comunicado com quem o retratou ou participado na produção cinematográfica. Brad Pitt explica à Vulture que "não há acessos de carro para a casa dele, nem em caso de apocalipse".

Na verdade, quando tudo aconteceu, Hockett não era um eremita; Hockett geria o seu fundo, Cornwall Capital Management com os vizinhos Jamie Mai e Charlie Ledley e vivia em Berkeley, na Califórnia. Mas, para confirmar a aura de mistério que paira sobre o verdadeiro Hockett, há que referir que tal como o filme indica ele esteve mesmo a fazer transações financeiras que lhe deram um lucro de 80 milhões de dólares (72 milhões de euros) enfiado num pub de Devon, onde passava umas férias curtas.

Se me tirarem o sentido de humor, aquele sou eu

"Se eu fosse a ti, nesta altura estaria bastante mais contente." O conselho foi dado por Steve Eisman (que marca presença no filme com a personagem Mark Baum) a, imagine-se, um Steve Carrell mais sério do que o costume. Carrell filmava na altura a cena em que o grupo de protagonistas se desloca a Las Vegas e compreende finalmente as dimensões do escândalo financeiro que está para acontecer; Eisman, presente no set, defendia uma atitude mais risonha da parte de um ator a quem todos reconhecemos a veia cómica: "Eu estava contente porque tinha estes tipos na mão e isto ia ser divertido para mim".

Se há, aliás, queixa que Eisman, na altura chefe do fundo FrontPointPartners, apresenta sobre o papel de Carrell é a falta de sentido de humor com que foi retratado: "O meu retrato não está certo a 100%. Se eliminarem o meu sentido de humor e me mostrarem zangado o tempo todo, esse sou eu. É suficientemente realista, mas não sou verdadeiramente eu".

Mas Carrell defende a interpretação. Em entrevista à Bustle, o ator justifica: ""Acho que ele se vê como um defensor da justiça, um soldado no lado dos bons. (...) Ele estava e está muito zangado, é um homem zangado, porque viu muita fraude à sua volta. Nesta altura, ele estava sozinho e isso define-o". A crítica do "Guardian" dá-lhe razão, defendendo que a sua interpretação mantém "as origens judaicas e a frontalidade" de Eisman.

O conflito destes homens parece, no filme, ser verdadeiramente corporizado por um Mark Baum que se interroga até ao fim sobre se deve vender as obrigações que comprou quando ninguém dava nada por elas e que o tornaram multimilionário (só nesse ano, o fundo chegou a gerir 1,5 mil milhões de dólares - 1,3 mil milhões de euros -, embora em 2011 o resultado se ficasse por uns modestos 750 milhões de dólares, ou 680 milhões em euros). Quando tudo passou, Eisman passou a dirigir o Eisman Group, integrado na empresa dos seus pais, que lhe deram um conselho importante: "Gere o dinheiro dos outros como se fosse o teu".

O princípio terá ecoado na mente de Eisman quando se viu a braços com a decisão que lhe permitiu valorizar o seu fundo em 70% enquanto o sistema se afundava. "Fez-me sentir como Noé, que constrói a sua arca e põe lá a sua família e parte a salvo, enquanto todos os outros morrem afogados."

O génio improvável

Um filme como este, que dá cara e corpo aos "outsiders" do sistema, pedia uma personagem como Michael Burry – e, ironicamente, esta parece ser a que retrata de forma mais fiel a pessoa em que se inspirou e a única que recebe um nome verdadeiro. Quando um Christian Bale muito convincente se senta à mesa para negociar com os principais bancos e apostar contra o tipo de obrigações que estes viam como a maior fonte de lucro, eles riem-se – provavelmente não só da proposta aparentemente absurda, mas também da aparência e dos trejeitos bizarros de Burry.

Se nos cruzássemos com o verdadeiro Burry, é provável que a impressão fosse a mesma: o realizador do filme confirma que ele "ouve speed metal sozinho no escritório e anda sem sapatos frequentemente, além de usar as mesmas roupas durante meses". Mas a estranheza provocada por esta figura pode ir mais longe, uma vez que o próprio suspeita que, tal como um dos seus filhos, pode ter um baixo grau de autismo. Mais: o filme nem sequer lhe acrescenta o olho de vidro – na realidade, Burry perdeu um olho devido a um cancro quando tinha apenas dois anos, explica a "Bloomberg".

No que toca à história de Burry, é mais difícil encontrar pistas de um percurso convencional do que o seu contrário. No segundo ano da escola primária, Burry já investigava sobre a bolsa e o mercado financeiro; na escola secundária, já investia dinheiro real. Pelo meio, teve tempo de desviar a sua atenção do mundo financeiro para uma mudança radical, quando tirou o curso de Medicina (embora, conta a "Bloomberg", já nessa altura a atenção que dedicava à carreira médica fosse tão baixa que chegou a adormecer quando assistia a uma cirurgia complicada).

Terminada a fase de descoberta, Burry acabou por se dedicar inteiramente ao mercado financeiro – em 2008, quando a crise eclodiu, chefiava o fundo de investimento que criou, o Scion Capital LLC. Nesse ano chegou a liquidar a empresa, apenas para em 2013 voltar à área que sempre foi a sua e criar a Scion Asset Management, onde aos 44 anos continua.

À New York Magazine, Burry falou em dezembro para explicar o que sente uma pessoa que desmonta um sistema como este e, perante as gargalhadas de todos, beneficia da tragédia que está para vir. "Senti que estava a ver um avião a despenhar-se. Tive esse sonho vezes sem conta, mas não havia nada que eu ou alguém pudesse fazer. No último dia de 2007, não consegui ir para casa. Estive no escritório até tarde, sem conseguir acalmar-me, e enviei um e-mail à minha mulher a dizer 'não consigo ir para casa, o que está a acontecer é demasiado perturbador e não quero que os meus filhos me vejam assim'".