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“45 anos”: a ficção não tem de ser justa

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Em "45 Anos", um casal de reformados percebe que a vida só está resolvida quando chega ao fim, uma verdade que traz consigo possibilidades assustadoras. Na realidade, a história de um homem cujo corpo ficou perfeitamente conservado pelo gelo dos Alpes durante 70 anos impressionou o escritor e poeta David Constantine. “45 Anos” tem uma nomeação - melhor atriz, Charlot Rampling

É a história de terror de uma relação, é uma luta entre amores e lealdades que acaba por ser irremediavelmente injusta. A história de "45 anos" já motivou as duas reações (a primeira do realizador, a segunda do homem que escreveu o conto "In Another Country", que é a base do filme), mas talvez a melhor descrição seja dada pelo escritor, o britânico David Constantine, ao Expresso: "Nos Alpes, muita da água que vem do gelo derretido, por causa do aquecimento global, ainda não desceu mas está armazenada, talvez subterraneamente, no topo de vales muito íngremes. Essa é a imagem que ajuda a expressar a intrusão destrutiva do passado na vida das minhas personagens".

A recatada casa no campo de Mr. e Mrs. Mercer é fictícia, tal como os seus habitantes e tudo o que lá dentro se passa. Mas a história tem como base uma imagem "particularmente drástica" que afetou desde logo o autor: "Há mais de vinte anos, um amigo francês que tinha acabado de voltar da região de Chamonix contou-me sobre uma descoberta, algures naquela região, do corpo perfeitamente preservado de um jovem guia de montanha, encontrado numa fenda de um vale onde a neve tinha derretido".

O corpo do homem jovem, morto naquela zona havia cerca de 70 anos, preservava uma juventude eterna que arrepiou Constantine, sobretudo pelos pormenores sórdidos à volta da história: "Ele ia ter um filho na altura em que morreu, e o seu filho, que no presente já era um homem velho e vivia na mesma vila, foi levado para ver o seu jovem pai no gelo. A visão chocou-o profundamente e perturbou a sua saúde mental".

As certezas por água abaixo

Em "In Another Country", o autor explora o drama que uma descoberta de tal ordem pode trazer a um casal aparentemente feliz e sólido, abalando as certezas de uma vida – como num vale íngreme cheio de água pronta a correr, que por alguma razão espera anos até revelar a sua existência. Também no filme, a notícia de que uma antiga namorada de Geoff, casado com Kate há 45 anos, foi encontrada naquele estado eternamente jovem nos Alpes afeta um casal que sentia ter uma relação garantidamente sólida, mesmo que o tente evitar: "Uma vez que estão à mercê disso, já não podem controlar o que lhes faz".

A perturbação de Geoff ao descobrir que Katya, a sua namorada da juventude, continua bela e jovem enquanto ele inevitavelmente envelheceu, afeta a mulher que partilha a vida com ele e que pouco a pouco descobre dados tão novos quanto chocantes: Katya e o seu marido iriam casar caso a tragédia não tivesse ocorrido, Katya estava grávida de poucas semanas. Informações que o autor admite ter introduzido para marcar a diferença entre as duas mulheres e introduzir uma sensação de insegurança desconfortável em Kate: "O facto de Katya estar grávida aumenta o impacto sobre o casal que não tem filhos, especialmente a mulher, no presente". O desconforto de Kate é representado com precisão e equilíbrio por Charlotte Rampling, que está nomeada ao óscar de melhor atriz pelo papel.

A ficção não tem de ser justa

Se para o realizador Andrew Haigh "45 Anos" pode ser um verdadeiro filme de terror, a abordagem do homem que escreveu o conto que lhe dá matéria prima é diferente: "É uma luta muito injusta entre amores e lealdades que competem", o amor de uma Katya que nunca ganhará rugas e que se conservará para sempre jovem e aventureira (e grávida) e o amor de uma Kate cansada, insegura, que olha para trás e não consegue deixar de questionar um passado e até um futuro que dava como adquiridos.

"Não é a responsabilidade da ficção ser justa, mas contar a verdade sobre vidas humanas em circunstâncias particulares. O homem jovem e a Katya não representam uma forma de vida melhor do que o homem velho e Kate. Mas, injustamente nesta competição, têm juventude, paixão, romance do seu lado, enquanto o coração de Kate se parte e reclama o valor de muitos anos de amor e companheirismo nos quais o passado romântico irrompe sem piedade, tal como uma avalanche." Afinal, terrorífico ou não, "45 anos" relembra que a vida só está resolvida quando acaba – e isto pode ser uma avalanche de possibilidades ou de pesadelos.