Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

Lar, inexistente lar

  • 333

TRAGÉDIA FAMILIAR Eram raros, hoje são mais do que frequentes: os despejos, nos Estados Unidos, já não são apenas uma consequência da pobreza. São uma das causas da pobreza. Na imagem, um menino aguarda que a família deixe a sua casa, já sem os móveis e os pertences

reuters

O sociólogo Matthew Desmond, professor em Harvard, viveu durante dois anos num bairro pobre e num parque de caravanas de Milwaukee, presenciando diariamente despejos de famílias inteiras

Entre o retrato etnográfico e a reportagem policial. Balouçando entre estes dois géneros, o sociólogo Matthew Desmond, professor na Universidade de Harvard e codiretor do Projeto Justiça e Pobreza, que decorre na mesma instituição, acompanha a vida de oito famílias norte-americanas condenadas a uma vida caixotes — os mesmos que enchem ou esvaziam à medida que os despejos vão acontecendo. Todos os anos, nos Estados Unidos, “milhões de famílias” — e não apenas milhares, argumenta o autor de “Evicted” — são obrigadas a abandonar as suas casas. Um problema que se tornou “uma epidemia”, assegura Desmond, sobretudo nos bairros pobres das famílias negras.

Para escrever este livro, Matthew Desmond, 36 anos, optou por integrar-se em comunidades onde a perda constante de casa já é um hábito, em Milwaukee (a maior cidade do estado do Wisconsin). Entre 2008 e 2009, viveu num parque de caravanas (White College Mobile Park), onde acabam as famílias sem abrigo, muitas destas destruídas pelas circunstâncias de vida e o abuso de drogas; depois, alugou uma casa num bairro pobre, sendo introduzido pelos seus senhorios no submundo dos alugueres de habitações, que podem render aos proprietários muito dinheiro.

Os nomes são fictícios, mas são bem verdadeiras personagens que desfilam neste livro, que sairá para o mercado editorial norte-americano no dia 1 de março. Como Ruby Hinkston, menina de 13 anos, que vive numa casa imunda, invadida por baratas e onde os canos não funcionam. Muitas vezes, a adolescente procura refúgio na biblioteca pública do seu bairro. Não é para ler. Ruby senta-se ao computador e, através de um jogo online, constrói a casa dos seus sonhos. Na realidade virtual, o chão da casa brilha e as camas têm lençóis e almofadas com fronhas. Ruby gosta de visitar esta sua casa quando pode.

Matthew Desmond que, pelo seu trabalho, recebeu uma das bolsas mais famigeradas (e ambicionadas), a MacArthur fellowship, conhece inúmeras histórias de pobreza e de despejos. Para muitas destas pessoas, que vivem abaixo do limiar de pobreza, pagar a renda mensal significa, na grande maioria das vezes, perder de uma assentada 80% dos seus rendimentos. Por isso, o autor advoga que o despejo já “não é apenas uma consequência da pobreza, mas uma causa da pobreza”.

POBREZA. Desmond, o autor, afirma que os despejos já não são uma consequência da pobreza; antes uma causa da própria pobreza

POBREZA. Desmond, o autor, afirma que os despejos já não são uma consequência da pobreza; antes uma causa da própria pobreza

reuters

“Da mesma forma que a prisão começou a definir as vidas de muitos homens negros pobres, o despejo passou a definir as vidas das mulheres negras pobres”, comparou o autor ao 'New York Times', que sentencia sobre este livro: “Escrito com a vividez de um romance, oferece um retrato negro da obsessão da classe média americana com o imobiliário, pondo a descoberto o funcionamento do mercado para os mais pobres, onde os despejos se tornaram apenas uma outra parte de uma modelo de negócio frequentemente lucrativo”.

O drama da perda de casa é também vivido por famílias brancas. No entanto, como explica Desmond, normalmente estas têm mais facilidade em reencontrar um novo poiso para habitar — ainda que daí a poucos meses já possam estar novamente na rua.

Para os senhorios, o negócio é rentável. Despejar inquilinos é uma ação relativamente fácil do outro lado do Atlântico e há tribunais, os 'eviction courts', que só deliberam sobre estas matérias. Em muitos estados, as obras de manutenção não são necessárias e os inquilinos não têm de se responsabilizar sobre os estragos e danos que até podem ser da sua responsabilidade.

67% das famílias pobres, nos Estados Unidos, não receberam qualquer apoio ou ajudas públicas para financiarem a sua habitação. As rendas são altas, cada vez mais altas (mesmo que as condições deixem muito a desejar), e levam a grande fatia do rendimento destas famílias. Se não pagam, podem ser facilmente despejadas. E, se o despejo se concretiza, o senhoria guarda para si com o depósito de garantia que, inicialmente, todos os inquilinos têm de pagar. Uma família vai para a rua, outra embolsa com esta tragédia.

Quando decidiu viver no bairro pobre de Milwaukee, o professor de Harvard conheceu a sua senhoria, Sherrena Tarver, uma antiga professora transformada em empreendedora imobiliária, que a introduz no feroz e lucrativo mundo dos despejos. Ainda que goste muito da sua inquilina Arleen — mãe de dois filhos adolescentes que, nos últimos quinze anos, habitou (sempre fugazmente) 20 casas — e saiba que esta não conseguiu pagar a totalidade da renda nos últimos meses porque teve de fazer face às despesas do funeral da irmã, Sherrena não coíbe de expulsar a família apenas dois dias antes do Natal. “O amor não paga as contas”, costuma dizer.

Sem condenações ou falsos moralismos, Desmond conta as histórias difíceis destas famílias, questionando as razões que levaram a sociedade a esquecer a necessidade de assegurar um dos direitos mais básicos da Humanidade: o direito à habitação, com o mínimo de dignidade.

“Evicted — Poverty and Profit in the American City”, de Matthew Desmond, editora Crown, 418 páginas, €28 (preço de editora)

“Evicted — Poverty and Profit in the American City”, de Matthew Desmond, editora Crown, 418 páginas, €28 (preço de editora)