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Histórias de guerra

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EM AÇÃO. Soldados norte-americanos evacuados de uma zona vietcong, no dia 11 de dezembro de 1965

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Reinaldo Serrano

Se a Europa de hoje, para o bem e para o mal, tem fronteiras mais ou menos acertadas ou desacertos que derivaram em maus modos, tal se deve em parte à influência determinante saída do final da II Guerra Mundial. Para as nações mais diretamente envolvidas no conflito, a guerra generalizada entre 1939 e 1945 é, ainda hoje (e sempre) motivo de profunda análise, reflexão, disputa, polémica, observação e escrutínio.

Para os norte-americanos, porém, há um acontecimento que equivale ou supera aquela a que os próprios chamaram durante algum tempo “a guerra na Europa”. Falo naturalmente da Guerra do Vietname, que preencheu a agenda política e social dos Estados Unidos entre 1955 e 1975. As duas décadas de conflito para travar o avanço do comunismo deixaram marcas profundas e indeléveis, transversais a gerações de famílias, de políticos, de artistas e intelectuais, de cidadãos estrangeiros a residir em solo americano, numa sociedade que ainda não conseguiu pacificar-se com os acontecimentos que ao longo de duas décadas encheram de vermelho-sangue o sudeste asiático.

A questão dos veteranos de guerra ganhou foros de saúde pública e de forte polémica muito graças aos traumas dos regressados do Vietname, uma guerra que se tornou numa verdadeira agonia e num campo de batalha político e social que deixou marcas profundas na sociedade norte-americana. Além do mais, o conflito teve uma cobertura mediática muito particular, levando as incidências do terreno a um grau de exposição nunca antes visto.

Dir-se-á, também pelas razões acima expostas, estar o mundo pleno de artigos, livros, filmes, séries e documentários sobre a Guerra do Vietname ou, como lhe chamam os vietnamitas, a Guerra Americana. Justamente porque o leque de opções é vasto, optei eu próprio por destacar um interessante documentário lançado em abril do ano passado e que viu a luz do dia graças à cada vez mais surpreendente PBS (Public Broadcasting Service) -- responsável por, entre outros feitos, ter dado a conhecer (e com um sucesso imenso) a série “Downton Abbey” ao público norte-americano.

Desta feita, o produto televisivo que aqui me permito destacar chama-se “Dick Cavett´s Vietnam”. Comecemos pelo nome que partilha o título: Richard Alva “Dick” Cavett foi figura de proa na cadeia norte-americana ABC ao longo de décadas, com presença regular junto dos espectadores dos Estados Unidos desde os anos 60 até ao virar do século passado. Pese embora menos conhecido fora do território norte-americano do que o lendário Johnny Carson, Cavett foi uma sólida e assídua presença no pequeno e ecrã muito graças à sua notável capacidade de comunicação, quiçá adquirida aquando da sua breve passagem pela "escola" da "stand-up comedy". Bem mais sérios, os temas que o deram a conhecer junto do grande público, bem como a presença dos maiores nomes de diversas artes que lhe enriqueceram o "Dick Cavett Show": Groucho Marx, Marlon Brando, John Lennon ou Judy Garland, entre outros, passaram pelo seu programa. De entre os outros, merece destaque a presença do realizador sueco Ingmar Bergman, numa das suas raras autorizações para ser entrevistado em televisão.

Com tal currículo não admira, pois, que a guerra do Vietname tenha constado de diversos programas nos anos quentes do conflito. A figura a quem chamavam "o pensador dos talk-shows" levou à antena inúmeras e plurais opiniões sobre a presença americana na guerra asiática, o que proporcionou à vasta audiência a possibilidade de ver e ouvir debates desabridos e de todo o espetro político sobre a guerra que devastava, dentro e fora de portas, a nação americana.

É justamente uma séria e segura compilação destes momentos que está disponível no documentário sugestivamente intitulado "Dick Cavett´s Vietnam", disponível numa edição DVD que só pode ser adquirida no mercado internacional. O documentário foi exibido pela PBS no dia 27 de abril do ano passado e serviu para invocar os 40 anos passados sobre o fim da guerra no Vietname. O programa contempla, além das entrevistas em estúdio, uma série de material de arquivo relacionado com o conflito bem como excertos da cobertura noticiosa feita à época dos acontecimentos.

Ao longo da sua hora de duração, ""Dick Cavett´s Vietnam" apresenta uma súmula das tensões políticas e sociais que o drama vivido no sudeste asiático trouxe a uma sociedade profundamente dividida entre os que consideravam ser um dever norte-americano travar o comunismo de Saigão e os que viam na intervenção militar uma forma desonesta e demasiado rápida de pôr fim à vida de milhares de jovens, a braços com uma situação completamente nova e para a qual não estavam devidamente preparados. Recorde-se que a média de idades dos soldados norte-americanos no Vietname era de apenas 19 anos...

Mais ouvinte que interpelante, a Dick Cavett se reconhece o mérito de ser um erudito entre os anfitriões dos talk-shows que povoavam a televisão dos Estados Unidos nas décadas de 60 e 70. Tal facto, aliado a um apurado sentido de oportunidade, fez do programa de Cavett um cenário privilegiado para o que foram os ecos de um debate permanente à escala nacional. As administrações de Lyndon Johnson e Richard Nixon, assim como o papel de alguma hierarquia militar, são escrutinados por gente de todas as áreas de intervenção no mundo das artes, do espetáculo e da política, reflexos notáveis da diversidade de (extremadas) opiniões sobre o conflito vietnamita.

Um bom complemento ao documentário será sem dúvida um filme quiçá esquecido nos escaparates mas que merece um visionamento atento; falo, naturalmente, de "Gardens of Stone" ("Jardins de Pedra"), um notável mas subestimado trabalho de Francis Ford Copolla, com notáveis desempenhos de James Caan, James Earl Jones, Angelica Houston e D.B. Sweeney. Basicamente, o filme retrata o conflito vietnamita através do olhar da Guarda de Honra, os homens cuja trágica missão era realizar, com os rituais militares, as cerimónias fúnebres dos que morriam "overseas".

Assistir a "Dick Cavett´s Vietnam" para um contexto adequado e visionar em seguida "Jardins de Pedra" será, estou certo, um conjunto perfeito para aferir as consequências que ainda hoje se sentem na sociedade norte-americana relativas a uma guerra que custou a vida a quase 60 mil militares do lado americano e cerca de um milhão e meio de mortos entre os vietnamitas. A História não absolverá nenhuma das partes.