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O fogo inextinguível de Umberto Eco

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PENSAMENTO. O escritor disse que temia só ser lembrado pelo seu primeiro romance, “O Nome da Rosa”, que escreveu aos 48 anos

nuno botelho

O professor, semiólogo, medievalista, ensaísta, tradutor, colecionador e escritor deixa uma obra vasta que não se limita à literatura. Morreu na sexta-feira à noite, no dealbar dos seus 84 anos

Há um ano, Umberto Eco abria a porta da sua casa com o gesto amplo e resoluto de quem está habituado a receber visitas. Alto, erguido, imponente, não era um eremita, não vivia numa torre de marfim. Vivia no centro de Milão, em frente ao Castelo Sforzesco, num apartamento grande, luminoso e branco, e a cidade inteira conhecia a sua morada.

Lá dentro, o imperador de uma biblioteca de 30 mil volumes — fora os 20 mil que guardava na casa de campo — sentou-se na poltrona de cabedal e, com um cigarro apagado entre os dedos, respondeu a todas as perguntas e formulou outras, a que também deu resposta. Queixou-se da falta de memória coletiva, recuou até à infância e à guerra, riu-se de si próprio e do mundo. Disse que o riso é a consciência da morte, descreveu-se como um “otimista voluntarioso” e mandou suicidar-se quem não aceitar que a Europa está a sofrer uma mudança equivalente à destruição do Império Romano pelos alemães bárbaros.

Pelos vistos, nessa altura, Eco já estava doente. Havia um tumor a corroer-lhe o corpo. Não o parecia. Nem é possível pensar naqueles corredores tomados pelas estantes, meticulosamente organizadas, sem a sua presença poderosa. Na secretária, o lap-top estava aberto numa rádio virtual a emitir sem cessar música dos anos 40, que o escritor reconhecia como o seu último vício — bem longe dos 60 cigarros por dia que outrora fumara. Como conceber esse espaço caótico, selva de cadernos e papelada, sem aquela moldura sonora? Como imaginar o silêncio instalado no que foi cabalmente uma vida de palavras?

“Uma biblioteca não é um repositório dos livros que já lemos. É também o lugar onde guardamos os livros que iremos ler”

“Uma biblioteca não é um repositório dos livros que já lemos. É também o lugar onde guardamos os livros que iremos ler”

NUNO BOTELHO

Construir um leitor

Como se adivinhasse o que aí vinha, Umberto Eco disse-o várias vezes: não gostaria de ser lembrado apenas como o autor de “O Nome da Rosa”. Era um académico ousado e completo, autor de vários ensaios sobre semiótica e de uma tese sobre a estética de São Tomás de Aquino quando, aos 48 anos, escreveu o primeiro romance, que o tornou célebre à escala global e de uma forma como ele próprio jamais teria previsto. O livro foi lido, dissecado e desfrutado por várias camadas de leitores, dos leigos aos eruditos, do povo à academia. Todos leram e foram moldados pela leitura, respondendo ao propósito de Eco, segundo o qual do livro nasce um leitor, um leitor que não existe ainda, mas que existirá no final. Sobre a cena do incêndio na abadia, por exemplo, os editores pediram-lhe para a encurtar. “Mas decidi que o leitor que eu quero para o livro tem de seguir o incêndio tal e qual o descrevi”, contou-nos.

O que ardia dentro de Umberto Eco ultrapassava o impulso literário, tardio, pelo qual ficou conhecido e que ele descreveu como “ir de férias”. Aliás, os seus romances decorrem de uma tentativa de abordar tudo aquilo que a investigação pura e dura não permitia. Não é por acaso que, na entrega da sua tese, em 1956, um professor lhe atribuiu um modo peculiar de investigar: além de revelar as suas conclusões, fruto de anos de estudo, Eco aproveitava para contar a história da própria pesquisa “como se de uma história de detetives se tratasse”. Para explicar melhor o que o movia, Eco parafraseou Wittgenstein, afirmando que “tudo o que não se pode teorizar, deve narrar-se”. O que surgiu depois — mais seis romances, o último dos quais, “Número Zero”, lançado em inícios de 2015 — vive no meio destes dois lugares, num território híbrido entre o pensamento, a história e a literatura.

“Adiei o momento de contar histórias porque tinha outras coisas para fazer. Só depois de ter feito tudo o que queria - o meu lugar na universidade, os ensaios publicados, dois filhos - perguntei-me: “O que vou fazer agora?”. Vou contar histórias”

“Adiei o momento de contar histórias porque tinha outras coisas para fazer. Só depois de ter feito tudo o que queria - o meu lugar na universidade, os ensaios publicados, dois filhos - perguntei-me: “O que vou fazer agora?”. Vou contar histórias”

NUNO BOTELHO

Eco era um intelectual como existem poucos sobre a terra — assim, e para sempre, no presente do indicativo. Pensou a Idade Média, a sua fecundidade e efervescência. Quis perceber os monstros que habitam a imaginação dos homens. Debruçou-se sobre as mentiras que entre eles se contam e passam tantas vezes por verdades, sobre as conspirações que provocaram matanças, viagens loucas e inquéritos perpétuos. Pensou a cultura europeia, Joyce, São Tomás, Dante; pensou a forma como pensamos. Criticou a Itália a que pertencia e amava, escreveu livros infantis sobre temas adultos, teorizou sobre o belo e sobre o feio, e sim, escreveu também literatura de excelência, fez um “Baudolino” e um “Pêndulo de Foucault”, e um “Cemitério de Praga”. Não parou de fazer, pois era acima de tudo um fazedor: um homem cujas palavras são ações.

Um homem contemporâneo

Nos últimos anos, a sua prodigiosa memória pregava-lhe partidas. Impelia-o para o passado de um modo tão feroz que ele foi capaz, aos 80 anos, de falar fluentemente o dialeto piemontês dos pais, feito nunca antes conseguido. “Veio-me das entranhas”, disse-nos, continuando: “Provavelmente, no momento da minha morte vou lembrar-me de tudo, mas será tarde para o contar.” Nascera em janeiro de 1932, numa pequena cidade do norte de Itália chamada Alexandria. De pai contabilista, da pequena burguesia, “nem pobre nem rico”. A avó materna, leitora voraz com cinco anos de escolaridade, deu-lhe o gosto por uma errância nas leituras que haveria de manter: como lia o que ela lia, passava sem intervalo de Balzac às novelas populares. O avô paterno, tipógrafo que na reforma ganhava a vida como encadernador, foi outra grande referência. Dele herdou as caixas de livros que ficaram por encadernar e que continham os tesouros da sua infância — como as enciclopédias que, desintegradas pelo manuseamento, andou anos a tentar reaver nos antiquários.

Contemporâneo mesmo quando escrevia sobre outros tempos, a atualidade era por si analisada ao pormenor. Olhava com ceticismo o infinito acesso à informação promovido pela Internet e a modo de exemplo citava Jorge Luís Borges, criador de uma personagem (Funes) “que se recordava de tudo e por isso era um idiota”. Zangado com uma Europa governada por burocratas, acreditava nela cegamente por constituir a única forma de entidades nacionais como Portugal ou Itália, ou mesmo França, não se tornarem irrelevantes. Concedia — com Churchill — que a democracia era “um sistema horrível, mas melhor do que os outros”. Alertava acerca do novo nazismo muçulmano — ele que viveu o fascismo e a II Guerra — e da lenta metamorfose europeia em curso. “O que se passa não é um fenómeno de imigração, mas de migração”, explicou. E toda a migração acarreta sangue.

Sobre a União Europeia: “Entidades nacionais como Portugal ou Itália tornar-se-ão irrelevantes se não fizerem parte de uma unidade maior. O problema da Europa é estar a ser governada por burocratas”

Sobre a União Europeia: “Entidades nacionais como Portugal ou Itália tornar-se-ão irrelevantes se não fizerem parte de uma unidade maior. O problema da Europa é estar a ser governada por burocratas”

NUNO BOTELHO

Escrever era uma forma de não se render. Daí que o último livro tivesse como foco os limites do jornalismo, a “máquina de lama” que por vezes prevalece — e que, como dizia há dias um jornalista do "El País", fazia corar de vergonha até os profissionais mais puristas — manchando, com as suas mentiras, a própria realidade. Nada que já não soubesse ou tivesse previamente analisado. Afinal, em semiótica — e podemos ver aqui o seu sorriso irónico — as 'narrativas neutrais' são aquilo que contamos sobre o que nos acontece, ou seja, fragmentos de realidade cuja neutralidade é nula. Não é a semiótica, a “teoria e filosofia dos signos”, uma teoria da mentira e não é a mentira — e a credulidade — aquilo que nos define? Não é por isso que ele gostava mais de colecionar livros sobre ocultismo, demonologia, alquimia, magia e iconologia, mais do que quaisquer outros?

“O que torna os signos interessantes não é servirem para dizer a verdade, mas poderem ser usados para mentir ou falar de coisas que nunca vimos. Uma linguagem revela a sua importância quando é usada para referir coisas que não estão lá. Na minha coleção não vai encontrar Galileu, mas sim Ptolomeu, porque estava errado.”

Não, não vamos lembrar-nos de Umberto Eco apenas pelo “Nome da Rosa”. Quem o fizer perde um mundo. Vamos lembrar-nos dele como o homem que nos obrigou a seguir o incêndio até ao fim.

[Texto original publicado no Expresso Diário de 22 de fevereiro de 2016]

  • Umberto Eco, “o homem que sabia tudo”

    Umberto Eco foi escritor, filósofo, professor, semiólogo e crítico literário. Mais conhecidos do que os seus ensaios, são, porém, os seus romances, e em particular "O Nome da Rosa", que se transformou num best-seller internacional. Umberto Eco morreu na sexta-feira, aos 84 anos, vítima de cancro

  • “As mentiras são mais fascinantes do que a verdade”

    Tinha 84 anos e deixou-nos esta sexta-feira. Falámos com ele não há muito, em abril de 2015. A entrevista era sobre livros, sobretudo o dele que estava para sair, e aconteceu num tempo em que esta crise de refugiados que nos entrou pelas notícias já existia mas sem o impacto destes dias - transformados pela imagem do naufrágio da humanidade simbolizado num menino morto numa praia. A entrevista era pois sobre livros, mas Umberto Eco falou sobre mais - incluindo este tema que o preocupava há muito, o da migração e dos refugiados. É uma reflexão dura: “A Europa irá mudar de cor. E isto é um processo que demorará muito tempo e custará imenso sangue”. Mas também com fé no outros homens - nos que estão e nos que vêm: “A migração produz a cor da Europa”

  • “Acontecerá algo terrível antes de se encontrar um equilíbrio.” Migração e refugiados, por Umberto Eco (1932-2016)

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