Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

Afinal, o que é que Victoria tem? “A câmara adora-a”

  • 333

João Lima

Aos 26 anos, Victoria Guerra é a atriz portuguesa do momento. Terminou o ano com dois filmes nos cinemas, está a gravar outro e contracenou com John Malkovich e Glenn Close numa comédia com estreia em 2017. Nada mau para quem ser atriz era “impensável”. Mesmo que em criança só soubesse inventar personagens

Chega vestida de preto, com uns All Star brancos, sujos como dita a moda. Só na hora das fotografias revela o top verde escuro escondido por baixo da camisola e solta o cabelo, que pintou de castanho para uma novela e assim manteve para descolar da imagem de “princesinha loura de olhos azuis”. No final de 2015, chegou às salas de cinema em dois filmes: “Cosmos”, do polaco Andrzej Zulawski [que morreu este mês, vítima de cancro], e “Amor Impossível”, de António Pedro Vasconcelos. Foi o epílogo perfeito para “Son Corps”, do francês Benoît Jacquot. A pergunta impõe-se: afinal, o que é que Victoria tem? Malkovich, que trabalhou com ela em “Variações de Casanova” e não mais deixou de tentar levá-la para os projetos em que participa, esboça uma resposta: “A câmara adora-a. É extremamente talentosa, tem muitas qualidades. Aquela em que primeiro reparei foi a capacidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo. A maioria dos atores consegue apenas uma ou duas. Ela parece conseguir 20 ou 30. É capaz de ter uma resposta clara e inteligente a cada segundo”. Os elogios não a fazem perder o chão. “Não estou a salvar vidas”, relativiza. Hollywood assusta-a. A fama perturba-a. “Não vejo nada de bom na fama. Não gosto de falar da minha vida, não me interessam as redes sociais.” Passou a entrevista a roer as unhas e só bebeu água, apesar de ter o frigorífico cheio de Coca-Cola e não dispensar uma imperial com os amigos ao final da tarde, a olhar o rio. Felizmente, não confirmou na entrevista a fama de defensiva. A conversa tornou difícil acreditar que sempre foi “um bicho do mato” e que, no geral, não gosta de pessoas.

Acabou 2015 com dois filmes nos cinemas. Dificilmente podia pedir melhor.
Estrearem-se dois filmes em que participo no mesmo mês já por si é fantástico para uma atriz da minha idade. O facto de serem dois filmes tão diferentes é ainda mais especial. “Cosmos” [que será reposto dia 25 no cinema Monumental Medeia, em homenagem ao realizador] é baseado numa obra do [escritor polaco] Witold Gombrowicz e a história é sobre um rapaz que quer ser escritor, aluga um quarto numa pensão de família e apaixona-se pela filha do casal que gere a pensão, que é a personagem que interpreto. É um filme sobre a obsessão e é uma viagem um bocado louca. “Amor Impossível” é a história de um casal de jovens que vive o amor intensamente e sobre a morte de um deles. É muito mais um policial, completamente diferente de “Cosmos”.

Foi mais difícil e extenuante fazer essa viagem louca que é “Cosmos”?
É outro tipo de trabalho. Com o António Pedro [Vasconcelos, realizador de “Amor Impossível”], a história das personagens já estava bem definida. No “Cosmos” todos os dias reaprendíamos. O próprio realizador [o polaco Andrzej Zulawski] obrigava-nos a questionar tudo. Havia alturas em que ia filmar uma cena mais dramática e ele dizia-me “Não, não, não... Não estás triste, estás feliz”. E tinha lógica, ele sabia o que estava a fazer. E nós sabíamos porque é que ele estava a dizer aquilo.

Está agora a gravar “Son Corps”, de Benoît Jacquot, um filme baseado num romance de Don DeLillo. As filmagens decorrem em Lisboa e no Algarve, onde nasceu. Tem um sabor especial por isso?
Sim, tem sempre. Mas, apesar de ser algarvia, a minha cidade é Lisboa. Cresci aqui desde os 15 anos. As minhas paixões, o meu descobrir do mundo e da vida, foram em Lisboa. Ir para o Algarve é quase como voltar a casa, mas sabendo que a minha casa agora é outra.

O que recorda da infância em Loulé?
A minha família acima de tudo. Tenho uma família muito grande, muito unida. Sou a mais velha de quatro irmãos.

Perdeu outros dois. Lembra-se disso?
Do David não tenho grande memória. Tenho memória do último Carnaval, foi logo antes de ele morrer [aos 9 meses, de legionela]. Eu devia ter uns cinco anos, era uma miúda. Da outra irmã já tenho mais memória porque era a irmã que queríamos ter há muitos anos. Foi muito difícil para a minha mãe, porque já estava nos oito meses de gravidez, era como se a bebé já fizesse parte da família. A minha mãe foi-se muito abaixo, deve ter sido devastador. Mas os meus pais tinham uma coisa fantástica: qualquer problema que tivessem não deixavam que isso passasse para nós. Ela sabia que tinha outros filhos e que não podia ficar um mês enfiada na cama a chorar, tinha de reagir.

A sua mãe é inglesa. Como é que ela e o seu pai se conheceram?
Ela veio passar férias ao Algarve, como muitos ingleses. Conheceram-se, apaixonaram-se, casaram-se. Foi assim uma daquelas histórias...

O que é que eles faziam?
O meu pai foi juiz, ia seguir política mas depois optou pela família, começou a trabalhar como advogado. A minha mãe estudou para educadora de infância e, quando veio para o Algarve, trabalhou em hotelaria. Tem imenso jeito para pessoas, chega a ser irritante [risos].

Ela contou-me que, em miúda, a Victoria era o sonho de qualquer pai, “uma pequena boneca que chegava a casa sempre com o uniforme impecável”. Era mesmo assim?
A minha mãe diz isso? [risos] Sim, era muito certinha. Não era daquelas miúdas que sobem às árvores, que correm de um lado para o outro e que caem. Se me pusessem num canto e não me fossem buscar ficava lá, quietinha.

Nessa altura imaginava ser atriz?
Não, era impensável! Não sei se por ser do Algarve, mas o ser atriz era uma coisa vaga, parecia quase um sonho. Recordo-me é de nunca ser eu quando estava a brincar com os meus irmãos ou quando passeávamos. Arranjava sempre uma personagem: era a empregada de café, a mulher de alguém... Se calhar era a minha forma de chamar a atenção, de comunicar.

Não é verdade que queria ser famosa?
[Gargalhada] A minha mãe está sempre a dizer isso! Não faço ideia do que é que ela quer dizer! Não vejo nada de bom na fama, não sei bem o que é a fama. Não gosto de falar da minha vida, não me interessam as redes sociais... Quero chegar às pessoas de outra forma, com o meu trabalho.

João Lima

A sua mãe diz também que quando o seu pai morreu, no verão de 2014, a Victoria foi a mais forte de todos, foi como “uma mãe para os irmãos”. Descobriu que era mais forte do que imaginava?
Sim, sem dúvida. É daquelas histórias que se veem nos filmes, que em situações extremas o ser humano faz coisas impensáveis. Não só eu, mas toda a família. Tenho uma irmã de 17 anos e ela tomou conta de mim muitas vezes. Na altura ainda tinha 16 anos e dizia-me “Bora, Victoria, agora não vamos chorar”.

Pouco tempo depois estava a gravar “Cosmos”.
O trabalho é quase uma catarse. O filme acabou por me ajudar bastante. Tive de mergulhar nele de cabeça, não podia pensar em mais nada. Houve também um momento importante, muito bonito, com a Sabine Azéma [que faz de mãe de Victoria no filme]. Ela tinha perdido o marido [o realizador Alain Resnais] nesse ano. Uma noite, o elenco foi todo jantar e, quando estávamos a regressar ao hotel, ela dá-me a mão e diz-me [fala com voz sussurrada]: “Tu perdeste o teu pai este ano, não perdeste? Eu perdi o meu marido. Sabes uma coisa? Este filme está a dar-me tanto gozo, estou tão feliz com este trabalho, que isso faz-me querer continuar a viver e a sonhar. Foi a melhor coisa que nos podia ter acontecido”. Ao ouvir isso de uma mulher daquelas, com aquela força, aquela energia, aquela forma de olhar para tudo como uma criança, quem sou eu para chorar?

Liga ao Natal?
Ligava mais antigamente.

Perdeu encanto sem o seu pai?
Perdeu, mas não só por isso. O Natal lá em casa era para os miúdos. Os meus pais criavam um universo mágico que era maravilhoso. Isso deixou de existir de certa forma, porque já não há crianças em casa. Como tenho a minha mãe em Inglaterra e os meus irmãos no Algarve, passou a ser aquele tempo para estar calmamente com a família.

Acredita em Deus?
Não.

Mas, aos 15 anos, quando foi viver para Lisboa, ficou numa casa gerida por freiras...
Era muito nova e os meus pais não achavam muito boa ideia — nem eu — que fosse viver sozinha. A minha mãe dizia-me sempre: “Se fores viver sozinha vais acabar sozinha. Por isso vais partilhar o quarto para fazeres amigos”. Procurámos vários colégios, mas a maioria era para estudantes universitários. Fui para uma casa que tinha miúdas de todas as nacionalidades e idades, dos oito aos 26 anos. Não era uma escola, era quase um dormitório, gerido por freiras. Tinha um ambiente muito mais familiar. Partilhei o quarto com uma rapariga angolana que é hoje uma das minhas melhores amigas.

Porque é que quis ir para Lisboa?
Porque queria ir para a cidade. [risos] Queria ver e fazer coisas novas, e isso era difícil no Algarve, é um sítio muito pequeno. Depois, não queria ir para o liceu de Loulé, estava em pânico com essa ideia. No liceu teria sempre o mesmo grupo de amigos. Os freaks dão-se com os freaks, os não sei quê dão-se com os não sei quê. Eu queria conhecer todos, fazer parte de todas as tribos. Em Lisboa, fui estudar para uma escola profissional, onde ninguém se conhecia. Foi ótimo.

Os seus pais tentaram demovê-la?
De todo. Ainda me lembro quando perguntei à minha mãe. Estávamos no aeroporto de Faro à espera dos meus avós e alguém falou em ir para Lisboa estudar. E lancei a pergunta. “Mãe, e se eu fosse para Lisboa?”. Ela disse-me: “Então vamos a Lisboa ver escolas”. Começou assim. Fiz os exames para entrar na escola e percebi que era aquilo que queria.

João Lima

O começo não foi fácil.
No primeiro dia de aulas não acordei a tempo. O meu pai estava à porta de casa à espera para me levar. Comecei a correr e desatei a chorar baba e ranho. Foi o choque de perceber que aquilo estava mesmo a acontecer. Fomos para um café e fiquei mais duas horas a chorar. Então o pai disse-me: “Queres ir para casa? Fazemos as malas e vamos. Mas se ficares tenho a certeza de que vais adorar, porque é isto que queres. Experimenta.” Os meus pais eram assim, não nos queriam cortar as pernas. Não só acreditavam em mim como eram os primeiros a dizer “Se falhares, tudo bem, ninguém morre. Se mudares de ideias, a tua casa há de estar aqui para sempre”.

Foi estudar jornalismo numa escola profissional. Queria ser jornalista?
Ninguém aos 15 anos sabe aquilo que quer ser. Mas eu sempre gostei de jornais, revistas, televisão, e decidi experimentar.

Completou o curso?
Não, porque acabaram com ele.

Ainda foi finalista do Elite Model Look.
Foi um amigo meu que me inscreveu e eu “Bora lá!”. Estava sempre pronta para fazer coisas novas. Quando és miúdo queres experimentar tudo, viver tudo.

Mas imaginava-se a ser modelo?
Modelo? Não! Da mesma forma que fiz o casting para os “Morangos [com Açúcar]” e não pensava que ia ser atriz.

Como foi parar a esse casting?
Foi um casting de rua, três dias de casting, os “Morangos” estavam em alta. As pessoas vinham de todo o país, dormiam no carro. Uma loucura! Uma amiga desafiou-me para ir e outra queria aproveitar para fazer uma reportagem para a escola. Fomos, tirámos uma fotografia com uma placa com o nosso nome. Uns meses depois ligaram-me a dizer que tinha sido escolhida para fazer um casting com texto. E mais tarde ligaram-me a dizer que tinha ficado.

Foi a sua escola, não tinha qualquer formação.
Foi o início de tudo, aprendi muita coisa. Era muito nova, não fazia ideia de nada... Uma coisa que os “Morangos” me ensinaram foi a respeitar o trabalho em grupo. Quando estás na escola, se faltas às aulas só fazes mal a ti própria. No trabalho, não. Se chegas atrasado ou não sabes os textos estás a pôr em causa o trabalho de uma equipa inteira. É outro tipo de exigência. Apesar de seres miúdo, és um profissional. Depois tive muita sorte com a minha personagem que não era uma adolescente normal, era uma miúda com muitas pancadas, muito excêntrica. Diverti-me imenso.

Sentiu algumas vez o estigma de ter sido uma ‘Moranguita’?
Senti, mas hoje menos. Está a desaparecer. Se olharmos para os jovens atores, muitos começaram nos “Morangos”. Havia muitos que vinham da escola [Profissional de Teatro] de Cascais e, depois da série, vários foram para o Conservatório. Hoje estão a fazer coisas fantásticas.

O que é que as novelas lhe ensinaram?
Tanta coisa. Fazemos 20 cenas por dia, umas a chorar, a seguir estás a rir, exige uma ginástica emocional muito grande. E tive a sorte de trabalhar com atores absolutamente fenomenais. Sou uma pessoa muito atenta e gosto muito de conhecer os métodos de cada ator e perceber como é que cada um trabalha. Depois sugo tudo. Aprende-se muito.

Gostava de fazer mais cinema e menos televisão?
Não, eu quero é trabalhar, gosto mesmo daquilo que faço. Não acho que seja possível um ator dizer “Eu quero fazer só cinema”, ou só teatro, ou só televisão. Por acaso este ano fiz muitos filmes, o que é uma coisa quase irreal, mas foi porque as oportunidades surgiram. Não há assim tantas personagens para a minha idade e para o meu perfil como atriz. Mas o tempo do cinema é-me muito mais confortável, não tenho uma ginástica emocional tão grande. A televisão tem outro ritmo.

A Gabriela Sobral, responsável pela ficção da SIC, diz que a Victoria é “uma das poucas atrizes neste país completamente camaleónicas”. Foi importante para si destruir a imagem de “princesinha de olho azul”?
Foi muito importante. Enquanto atriz, quero fazer várias coisas. Tenho a perfeita noção das minhas fraquezas e das minhas limitações, mas quero lutar contra elas. Gosto que me deem a oportunidade de fazer coisas completamente diferentes e que exijam que saia da minha zona de conforto. E a SIC não tem medo de arriscar.

João Lima

“Cosmos” obrigou-a a sair dessa zona de conforto. Como é que surgiu a oportunidade de participar no filme?
Foi produzido pelo Paulo Branco, com quem já tinha trabalhado noutros dois filmes [“As Linhas de Wellington” e “Variações de Casanova”], e foi ele que me sugeriu ao Zulawski. Conheci-o, fiz uma leitura do guião, mas depois soube que o John Malkovich lhe tinha dito num jantar: “Não duvides, não penses duas vezes, trabalha com ela”. Tive muita sorte.

Já gravou outro filme com o Malkovich, “Wilde Wedding”, que tem estreia marcada para 2017. Como é que ele, que teve pouco mais do que uma cena de dois minutos consigo em “Variações de Casanova”, a puxa para os projetos em que participa?
Não faço a menor ideia. Tenho as mesmas dúvidas. Filmei com ele quatro dias, tinha duas cenas em que falava com ele. Dois anos depois ainda penso “como é que este homem, que esteve ali dois segundos comigo...” Ele é uma pessoa muito atenta e gosta de pegar em jovens atores. Durante as filmagens, contou-me que ia fazer uma série sobre piratas, “Crossbones”, e que havia uma personagem que eu poderia fazer. Nem liguei muito, mas uns meses depois recebi um e-mail a dizer que o John tinha dado o meu contacto e para lhes enviar uma self tape [uma gravação com a audição].

Malkovich disse que não ficou com o papel por ser demasiado jovem e demasiado bonita.
Era um papel que eu gostava de ter feito, mas era uma mulher com um passado muito duro, tinha um lado quase masculino. E eu tenho um ar muito doce, muito jovem. Aquela personagem exigia um ar mais cansado, mais vivido, que eu não tenho. Percebo isso. Não fico a sofrer se não fico com um papel.

Fala-se muito do sexismo da indústria do cinema. Já o sentiu na pele?
Se falas do lado da exploração do corpo, nunca senti isso. Eu protejo-me, faço aquilo que acho que faz sentido. Para mim, fazia todo o sentido fazer nu quando o fiz [duas breves cenas, em “Variações de Casanova” e em “Cosmos”]. É algo que serve a personagem, ponto final. Sou atriz, se tiver de fazer uma personagem que tem um lado mais sensual hei de fazê-lo. Porque é que devo ter problemas com isso e não com um papel dramático?

Alguma vez foi vítima de assédio? Nunca sentiu que...
... uma pessoa está a falar comigo porque quer ir para a cama comigo? [risos] Nunca tive nada a dizer de quem quer que seja, nunca me senti desconfortável. Mas também me protejo muito.

Imagina-se a viver noutra cidade?
Para ser franca, não. Lisboa é a melhor cidade do mundo, de longe. Por mais sítios que visite não há outra cidade assim. Temos bom tempo, comida ótima, temos o rio e o mar. É uma cidade que está a crescer muito, culturalmente, que tem uma beleza e uma luz absolutamente incríveis, e não há país onde eu possa ir ao final da tarde beber uma imperial com os meus amigos a olhar o rio, a ver o pôr do sol, sem estar stressada. Não há aquela agitação de Londres ou de Paris. Gosto muito de Nova Iorque, mas os americanos são muito restritivos e nós temos uma liberdade enorme. Os portugueses não têm bem a noção da liberdade, do conforto e da sorte que têm. É claro que também temos muitas coisas más. Mas sinto que há muito para construir em Portugal e quero fazer parte disso, quero dar o meu contributo para tornar o país mais interessante.

Consegue passar anónima?
Consigo. Saio livremente para onde quero, sempre o fiz. Sou muito discreta. Nunca tive uma chatice, nunca deixei de ir a lado algum, nunca deixei de fazer aquilo de que gosto. Claro que se estiver a fazer uma novela as pessoas reparam muito mais em mim.

Não sonha com Hollywood?
O que é Hollywood? O estrelato? Há uma estética americana, com um lado muito mais comercial, e está a perder-se um bocadinho a magia do cinema. Não é que eu não tenha curiosidade de experimentar um dia, mas mais do que querer, assusta-me.

Tem medo da máquina trituradora de Hollywood?
Tenho. Não é uma coisa que me fascine. O que me fascina é trabalhar com ótimos atores e ótimos realizadores. Tenho conseguido isso aqui, em Portugal. E consegui fazer um filme americano, independente.

Prefere o cinema europeu?
Sim, a estética europeia interessa-me muito mais. Há uma forma de trabalhar, uma proximidade com os atores, uma exigência, que são diferentes. Mas também há filmes americanos independentes absolutamente maravilhosos.

Dizem que não é nada deslumbrada, que tem os pés bem assentes na terra. É difícil consegui-lo?
O deslumbramento é a coisa mais fácil do mundo, há muita gente deslumbrada neste meio. Mas eu nunca o fui, nem em miúda. Tem muito a ver com a minha forma de ser e com a minha educação. Os meus irmãos, por exemplo, nunca se deixaram deslumbrar por a irmã entrar na série mais vista de Portugal. Isso mostra muito daquilo que somos enquanto família e da educação que os nossos pais nos deram. Também sei que sou tão boa quanto o último trabalho que fiz, a seguir tenho de voltar a dar provas. Não vou viver deslumbrada só porque sou protagonista de uma novela e fiz três filmes num ano. Isso não é suficiente, não faz de mim mais do que qualquer outra pessoa. Não estou a salvar vidas. Os atores que eu admiro são humildes. O deslumbramento não deixa que vejamos as nossas fragilidades. E eu preciso de as conhecer para fazer mais e melhor.

Mas é hoje uma das atrizes mais reconhecidas da sua geração. A responsabilidade pesa-lhe?
Fico feliz [pelo reconhecimento], porque é para isso que trabalho, para chegar às pessoas. Mas, ao mesmo tempo, assusta-me brutalmente. É tudo muito esmagador. Nos dois últimos anos tenho tido oportunidades absolutamente inacreditáveis e penso: “OK, Victoria, não te foques demasiado nisso senão vais viver na sombra deste último ano para o resto da tua vida”. Não é isso que quero.

Gosta de se ver no ecrã?
Não adoro. A voz muda sempre, vês as coisas más mais do que as boas, mas também aprendo muito ao ver-me. Sou muito exigente.

João Lima

É angustiante?
Ai, sim, muito! É impossível fazer todas as cenas bem, sobretudo quando tens 20 cenas por dia. Quando estou a ver uma novela penso muitas vezes “neste dia não estava nada bem”. A primeira vez que vejo um filme estou assim [recolhe-se na cadeira, pondo-se quase em posição fetal], em pânico, não vejo nada. Acho que todos os atores são iguais. Faz parte.

Preocupa-se com a opinião dos outros?
Há meia dúzia de opiniões que me interessam: a da minha família, as das minhas agentes, de alguns amigos. Estas pessoas são as mais honestas, não me vão dar uma palmadinha nas costas, vão dizer-me a verdade. Ajudam-me a crescer. Mas não leio a crítica, não ligo nada a isso. Não vale a pena estarmos a massacrar-nos.

É insegura?
Sou, muito, mas não deixo de dormir à noite se faço um trabalho menos bom, aprendo com isso. Há atores que cometem erros aos 50 anos. E vão cometê-los aos 80. Eu não sou exceção.

A sua mãe diz que a maior mudança que viu em si foi na confiança.
Sempre fui um bicho do mato. Nunca tive muitos amigos, nunca fui aquela pessoa que entra numa sala e é toda “Olá, cheguei!”. Sou muito desconfiada, não gosto de pessoas em geral, gosto das minhas pessoas. Mas o meu trabalho exige estar com gente que não conheço de lado nenhum. Por exemplo, os festivais de cinema não são fáceis. Estás rodeado de centenas de pessoas, de várias línguas, é muito assustador. Então comecei a obrigar-me a sair mesmo desconfortável, horrível, com dores de estômago. Isso ajudou-me bastante. E também o despegar da minha mãe, que foi para Inglaterra. Obrigou-me a crescer, a desenrascar-me e a confiar mais nas minhas decisões.

O que a faz feliz?
Ouvir música em casa, um bom filme, Lisboa, os amigos, a família, o trabalho... O trabalho faz-me muito feliz. Adoro a pesquisa, o estar em casa a preparar-me para uma personagem.

É melhor do que representar?
É diferente. É muito egoísta, muito mais pessoal, quase não o partilho. Representar é outro tipo de prazer, mais doloroso, mais angustiante.

Como dar entrevistas? Não parou de roer as unhas.
Roo sempre as unhas, só quando estou a trabalhar é que não [risos]. Mas odeio dar entrevistas. Esqueço-me sempre de que estou com jornalistas e falo demasiado.

Entrevista publicada na revista E de 31 de dezembro de 2015