Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

Os verdadeiros fãs

  • 333

JOSÉ SENA GOULÃO / EPA

O quarto dos 17 concertos de Miguel Araújo e António Zambujo aos olhos (e ouvidos) de uma (quase) groupie

Cristina Figueiredo

Cristina Figueiredo

Jornalista da secção Política

“Então, vocês foram os primeiros!”. O comentário de António Zambujo, na primeira interação com o público do Coliseu de Lisboa (depois de interpretados “Foi Deus”, “Recantiga” e “Romaria das Festas de Santa Eufémia”) mereceu uma ovação. Afinal, aquela era a assistência original, os verdadeiros fãs, os que tinham comprado bilhetes há mais de seis meses para o que era suposto ser um concerto único em Lisboa, longe de imaginarem que depois daqueles se seguiriam mais oito (!). O reconhecimento do estatuto especial, a merecer referência pelos cantores, só podia cair bem. Até podiam ter acabado logo ali o espetáculo: já tinham conquistado o auditório.

A primeira vez que ouvi falar do António Zambujo foi através do Miguel Araújo, cuja carreira eu seguia com particular atenção desde que um CD dos Azeitonas (Rádio Alegria, de 2007) começou a tocar com assiduidade lá em casa, mostrando que havia muito mais para gostar na banda do Porto do que o feliz (e cedo um êxito radiofónico) “Quem és tu, miúda?”.

Zambujo aparecia descrito na altura como “um jovem fadista alentejano” e eu, que até nem gosto muito de fado, confesso que nunca reparara nele. Até ao dia em que os Azeitonas vieram a Lisboa para um concerto na sala mais pequena do cinema São Jorge. António Zambujo estava entre os espectadores. Mas o Miguel Araújo chamou-o para que cantasse com eles o então ainda desconhecido “Anda comigo ver os aviões”. E a sua voz emprestou uma densidade ímpar a uma letra e a uma melodia de si lindíssimas - característica de que nem mesmo a emissão ad nauseam da canção (sobretudo desde que foi interpretada por um concorrente aos Ídolos) conseguiu dar cabo.

“Mãe, pai: arranjei um emprego fixo”

No ano passado, quatro ou cinco anos depois desse serão intimista, o Araújo e o Zambujo, já estrelas reconhecidas no firmamento musical português, voltaram a subir juntos ao palco do São Jorge. Dei-me conta demadiado tarde, já não consegui bilhetes.

Rejubilei, por isso, quando eles anunciaram novos duetos, um no Coliseu de Lisboa e outro no do Porto. Estávamos no verão de 2015, o concerto seria em fevereiro de 2016. Desta vez não havia riscos de ficar à porta. Não? Foi por um triz.

Dias depois do anúncio oficial, o Miguel Araújo alertou no Facebook que já havia poucos lugares disponíveis para o concerto do Porto. Por mera curiosidade fui espreitar o Coliseu de Lisboa: praticamente não havia vagas na plateia e mesmo os camarotes ameaçavam esgotar rapidamente. Era agosto, faltavam mais de seis meses: como era possível?! Não estávamos a falar de fenómenos da música pop internacional, de Rolling Stones, U2 ou Justin Bieber, mas de um alentejano e de um portuense a cantar em português!

Com tamanha evidência de procura, a oferta soube ajustar-se. E o concerto de 20 de fevereiro, que era o primeiro de dois únicos, acabou por ser o quarto de uma inacreditável sucessão de 17 (nove em Lisboa, oito no Porto) que nem os próprios artistas conseguem explicar como nem porque aconteceu. Quando ainda iam “apenas” nos dez, já Miguel Araújo gracejava: “Mãe, pai, arranjei um emprego fixo”, escreveu na sua página.

Meio ano, afinal, passa num instante. O dia do concerto chegou e com ele todas as expectativas – as iniciais e mais algumas acrescentadas pelo muito que se escreveu nestes últimos tempos sobre o fenómeno “Zambaraújo” e pelas boas críticas ao primeiro dos seus concertos. Esperava-se um cenário sóbrio mas muito bem conseguido na sua singeleza, um alinhamento que misturasse referências obrigatórias no percurso dos dois cantores com os maiores êxitos da carreira individual de cada um, um faz-de-conta-que-estamos-na-sala-lá-de-casa-a-cantar-para-os-amigos em que todos os presentes acreditariam facilmente. Confere.

Mas foi mais do que isso. António Zambujo e Miguel Araújo mereceram cada um dos muitos aplausos que ouviram esta sábado à noite (e nas noites anteriores, e nas que vierem a seguir). Dupla que, à partida, se diria improvável – um vindo do Alentejo profundo, do cante alentejano e do fado tradicional; outro nascido nos subúrbios do Porto, “caído de pequenino no caldeirão” (a expressão é dele) da música anglo-saxónica dos Beatles, dos Rolling Stones ou de Bob Dylan –, aquele mais intérprete, este sobretudo compositor, partilham (e alardeiam) o amor à música e à língua portuguesa (que alargam ao outro lado do oceano). “Uma da coisas que nos uniu mais”, conta Zambujo, “foi o gosto pela música popular brasileira”.

É esse chão comum, que pisam com naturalidade evidente, que os torna únicos na sua duplicidade. Muitas vezes confundidos (até porque são sensivelmente da mesma idade e ambos têm barba), brincaram com o facto: “Uma das razões porque fizemos este concerto foi para mostrar que somos duas pessoas diferentes”, garantiu Araújo. E são. Mas que bem que ficam juntos.

Alinhamento

Foi Deus (Alberto Janes)

Recantiga (Miguel Araújo)

Romaria das Festas de Santa Eufémia (Miguel Araújo)

Zorro (João Monge/João Gil)

José (Miguel Araújo)

Valsa do vai não vás (Samuel Úria)

Fui comer uma romã (cantar alentejano)

Don't think twice. It's all right (Bob Dylan)

Blackbird (Paul McCartney)

Rosinha dos Limões (Max)

E tu gostavas de mim (Miguel Araújo)

Despiu a saudade (Paulo Abreu Lima/António Zambujo)

Cucurrucucú Paloma (Tomàs Mendes)

Pica do 7 (Miguel Araújo)

Felicidade (Tom Jobim/Vinicius de Moraes)

João e Maria (Chico Buarque)

Eu não existo sem você (Vinicius de Moraes)

No rancho fundo (Ary Barroso / Lamartine Babo)

Algo estranho acontece (Pedro da Silva Martins)

Reader's Digest (Miguel Araújo)

Balada Astral (Miguel Araújo)

Flagrante (Maria do Rosário Pedreira/António Zambujo)

Os maridos das outras (Miguel Araújo)

Bohemian rhapsody (Freddie Mercury)

Anda comigo ver os aviões (Miguel Araújo)

Lambreta (João Monge)

Som de cristal (Marante)

Laurinha (Miguel Araújo)