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Filme e disco lembram a pior cantora de sempre

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Library of Congress

Quando se tem um historial de concertos todos eles feitos apenas por convite, algo de invulgar certamente se passa nesta carreira. Com uma obra em disco curta, mas transformada em peça de culto, feita de uma mão-cheia de gravações que recordam uma voz sem sentido de ritmo nem de afinação, a norte-americana Florence Foster Jenkins (1868-1944) pode candidatar-se a ser recordada como uma das piores cantoras de sempre. Este ano não só verá a integral dos seus discos ser reeditada como terá em Meryl Streep a atriz que vestirá a sua pele, num biopic sobre a cantora realizado por Stephen Frears.

Nascida em Wilkes-Barre, na Pensilvânia, filha de um rico proprietário, Florence teve lições de piano e chegou a dar recitais que a tomaram como criança-prodígio enquanto pianista. O pai não a deixou, contudo, continuar estudos superiores, pelo que, como retaliação, ela fugiu com um homem, com quem se mudou para Filadélfia e com quem viria a casar. Florence viveu das aulas de piano que começou a dar até que um acidente a impediu de trabalhar, deixando-a no limiar da pobreza e fazendo-a mudar-se para Nova Iorque. E é aí que encontra um sonho de futuro no canto.

A morte do pai, em 1909, fá-la herdar uma fortuna considerável, o que lhe permite ter uma nova vida social em Nova Iorque. Foi responsável musical de vários clubes, criando mesmo o Verdi Club e começando a dar recitais em espaços privados, onde interpretava árias de Mozart, Verdi e Lieder de Brahms. Explica-se por este regime de atuações feitas entre amigos a ausência de textos críticos. Há quem justifique os problemas de dicção e até mesmo eventualmente a ilusão de uma carreira com o avanço de complicações da sífilis e o envenenamento com mercúrio e arsénio proveniente dos tratamentos contra a doença.

Aos discos foi chegando a partir dos anos 30, gravando uma série de 78 rotações, dos quais se conhecem nove faixas que mais tarde seriam reunidas em álbuns póstumos, como “A Florence! Foster!! Jenkins!!! Recital” (1956) ou “The Glory (???) of the Human Voice” (1962). Em 2007, a Naxos tinha já lançado uma antologia em CD com o título “The Complete Legacy”, juntando gravações efetuadas entre 1937 e 1951. Agora, três anos depois da edição em CD da antologia de 1962, a Acrobat prepara-se para lançar a 11 de março “The Complete Recordings”, disco no qual ouviremos Florence a cantar Bach, Mozart ou Delibes.

O disco surge assim como um primeiro sinal de um ano que dará nova visibilidade a esta invulgar cantora, já que aguarda novo surto de interesse pela sua obra por ocasião de “Florence Foster Jenkins”, um biopic realizado por Stephen Frears que terá estreia em vários países a partir de finais de agosto. No filme caberá a Meryl Streep interpretar a figura da protagonista, contracenando com Hugh Grant, que vestirá a pele de St. Clair Bayfield, o pianista que a acompanhava, que era também seu companheiro e empresário.

De eventuais comparações que possam vir a ser feitas com a portuguesa Natália de Andrade convém lembrar que viveram percursos sociais bem diferentes, mostrando o retrato de socialite do filme “Margerite” uma figura bem mais próxima de Florence Foster Jenkins.