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Batalhas perdidas

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BATALHA. Monumento de Interesse Público, o edifício já perdeu os frescos de Júlio Resende e está agora ele próprio em risco

RUI DUARTE SILVA

Os acasos fazem-nos por vezes tropeçar em novas aproximações a realidades já conhecidas. Há uma sensação de redescoberta nestes reencontros com fragmentos do quotidiano, como sucedeu esta semana num regresso à exposição A felicidade em Júlio Pomar, visitável ainda até o próximo domingo na Galeria Municipal, aos jardins do Palácio de Cristal, no Porto.

Pensada a partir de uma conversa inicial do pintor com o então vereador da cultura da Câmara Municipal do Porto, Paulo Cunha e Silva, a mostra, com curadoria de Sara Antónia Matos e Pedro Faro, é constituída por obras das coleções Millennium BCP e do Atelier-Museu Júlio Pomar.

A referência, aqui, à coleção Millennium/BCP não tem uma função estritamente informativa e remete de imediato para a importância do acaso no modo como somos levados a rever o já visto. Acontece que neste regresso à Galeria optei por gastar o tempo todo a demorar o olhar no núcleo dedicado aos frescos pintados por Júlio Pomar no cinema Batalha.

Fresco mandado tapar pela PIDE

Fresco mandado tapar pela PIDE

d.r.

Pensei, nesse contexto, como uma praça também pode atrair maldições. Parece ser o caso da da Batalha, cujo nome resultará de uma guerra perdida. No século X, naquele local, sarracenos de Almançor e habitantes da cidade travaram um combate de morte, do qual saíram derrotados os portuenses, ao ponto de a cidade ter sido depois arrasada.

Muitos séculos mais tarde, e depois de muitas outras lutas ali encenadas, outro combate ficou a marcar o local e, de novo, parece termos saído todos vencidos, desta vez por desleixo, por apagamento da memória, por incapacidade absoluta de salvaguardar o património.

Tudo remonta a 1944, quando o arquiteto Artur Andrade projeta um novo cinema para aquela praça e resolve convidar um jovem de apenas 20 anos para pintar dois frescos. Na inauguração da exposição, o pintor recordara o quanto fora necessário de ousadia para, com aquela idade, assumir a concretização de uma obra com tamanho impacto, com mais de 100 metros quadrados, pintada sobre andaimes e com recurso a novas técnicas.

Pomar começa a pintar os dois frescos em 1946. O maior ocupava uma parte relevante do "foyer" principal do edifício e o mais pequeno fora pintado numa parede junto ao balcão do cinema. Na data escolhida para a inauguração do Batalha, 3 de junho de 1947, os frescos não estavam concluídos. O pintor, com outros elementos do Movimento de Unidade Democrática, fora preso em abril por ordem da PIDE, a polícia política do regime de Oliveira Salazar. Apenas em outubro daquele ano, Pomar, de novo em liberdade, consegue voltar aos frescos e rematar o trabalho.

Pormenor de um dos frescos

Pormenor de um dos frescos

d.r.

Poderia, apesar de tudo, ter sido uma história com final feliz, não fora a circunstância de os zelosos defensores da ordem estabelecida terem visto naquelas pinturas um perigoso ato subversivo, ao ponto de as terem mandado destruir. Pomar recebe mesmo uma carta, exposta na Galeria, através da qual o informam que os conteúdos representados “tecem uma crítica social”. Em junho de 1948 eram mandados tapar pela censura salazarista e assim se perdia, pode dizer-se para sempre, o contacto direto com a criação singular de um artista em construção.

Sobram memórias. Algumas imagens dispersas. Como a apresentada na exposição pelo Millennium. O banco possui um desenho de um estudo feito por Júlio Pomar para os frescos. Tanto quanto se sabe, foi o único a sobreviver à destruição ordenada pela PIDE. É o máximo que conseguimos hoje aproximar-nos da ideia projetada por aqueles trabalhos alusivos às festas de São João e, dizia-o a polícia política, com uma poderosa carga de crítica social.

Em 2006 assiste-se a uma tentativa de os recuperar no âmbito de obras de reabilitação do cinema, mas sem qualquer sucesso. Encerrado desde 2000, o Batalha fora reaberto naquele ano pela Associação de Comerciantes do Porto (ACP), à época dirigida por uma filha do arquiteto Artur Andrade, para voltar a fechar em dezembro de 2010. Abandonado desde janeiro de 2011, é classificado como Monumento de Interesse Público em outubro de 2012.

Há uns quatro ou cinco anos foi inviabilizado um projeto para a criação, ali, de um hotel, dado a classificação pressupor uma salvaguarda mínima da função original.

Em 2006 houve a tentativa de recuperar os frescos

Em 2006 houve a tentativa de recuperar os frescos

d.r.

Os proprietários não desdenhariam vender o Batalha, mas as condicionantes são demasiadas e já não são apenas os frescos de Júlio Pomar a serem dados como perdidos. O próprio edifício, cuja fachada inclui um baixo-relevo do escultor Américo Soares Braga (1909-1991), é hoje, nos amplos espaços cobertos do exterior, apenas uma espécie de albergue para indigentes.

Percebe-se a passagem implacável do tempo. E percebe-se como, ou há na cidade instituições capazes de criar ali novos focos de vida e criatividade, ou o edifício no seu todo será a curto prazo uma batalha perdida.