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Harper Lee, que falhou a morte rápida e misericordiosa às mãos dos críticos

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Chip Somodevilla/Getty

Harper Lee escreveu uma grande obra que foi traduzida em mais de 40 línguas e lhe valeu o Pulitzer em 1961. Depois afastou-se da literatura e de todas as outras literatices. Esqueceu o mundo e o mundo esqueceu-a. Até que em 2015 publicou outro livro, o seu segundo em vida, que se tornou um dos maiores acontecimentos literários do ano. Harper Lee morreu esta sexta-feira, aos 89 anos. As causas da morte não foram ainda reveladas

Helena Bento

Jornalista

Harper Lee tinha 34 anos quando escreveu aquele que viria a ser considerado uma das obras-primas da literatura do século XX. "To Kill a Mockingbird", publicado em Portugal com o título "Mataram a Cotovia" (Relógio d'Água), venceu o prémio Pulitzer um ano depois de ter sido publicado, em 1961.

Harper Lee retirou-se depois disso, que é como quem diz não voltou a publicar, evitando qualquer circunstância em que viesse a estar publicamente exposta. O sucesso de "Mataram a Cotovia" - foi traduzido em mais 40 línguas e vendeu cerca de 40 milhões de exemplares em todo o mundo - apanhou-a desprevenida.

Numa entrevista à rádio em 1964, que o "New York Times" recupera no obituário que lhe dedica, Harper Lee dizia que nunca esperara que o livro tivesse "qualquer tipo de sucesso". "Eu estava à espera de uma morte rápida e misericordiosa às mãos dos críticos mas, ao mesmo tempo, tinha alguma esperança de que alguém viesse a gostar dele o suficiente para eu me sentir encorajada. No entanto, acabei por ter muito mais, e isso, de alguma forma, foi tão assustador quanto a morte rápida e misericordiosa que eu esperara". Harper Lee viveu afastada do espectáculo literário e dos demais durante mais de 50 anos.

O romance "Mataram a Cotovia", cuja ação decorre no rescaldo da Grande Depressão, aborda as relações raciais numa pequena cidade no estado de Alabama (EUA). Atticus Finch, um respeitado advogado de uma antiga família da terra e pai de duas crianças (Jem, rapaz, e Scout Finch, uma rapariga de seis anos, que é quem conta a história), assume por sua conta e risco a responsabilidade de defender em tribunal um negro (Tom Robinson) acusado injustamente de ter violado uma rapariga branca. A decisão do pai e advogado vai deixar os locais extremamante descontentes - eles que já o olhavam com algum desprezo por saberem-no amigo dos negros.

No ano passado, a notícia de que ia ser lançado outro livro de Harper Lee - cujo manuscrito estava perdido e foi encontrado por uma advogada e amiga sua, Tonja Carter, no outono de 2014 - veio sem aviso. Até então era muito claro para todos que Harper Lee ia ficar para a história como autora de um único romance, rótulo que tão bem assenta em escritores como Emily Brontë, Sylvia Plath, Oscar Wilde, entre outros. O novo livro foi apresentado ao mundo como uma sequela de "Mataram a Cotovia", embora tenha sido escrito antes, na década de 50. Na altura, a autora deixou-o, digamos assim, em banho-maria, a conselho do seu editor, que a convenceu a focar-se em alguns "flashbacks" que ia fazendo aos tempos da infância de Scout e a escrever o romance do ponto de vista de uma jovem Scout. "Eu estava a começar como escritora e por isso fiz o que me disseram", explicou a autora, citada pela BBC.

"Go Set a Watchman" foi lançado em julho do ano passado em versão impresa e ebook em língua inglesa e publicado em Portugal meses depois (em outubro), com o título "Vai e Põe uma Sentinela", editado pela Presença. Scout Finch, já adulta, regressa de Nova Iorque para visitar o pai. Nesse regresso, confronta-se com várias questões pessoais e políticas - como a atitude do pai, que com o decorrer dos anos se torna um símbolo da igualdade entre brancos e negros na América. O lançamento de "Vai e Põe uma Sentinela" foi um dos grandes acontecimentos literários de 2015, mas depois de estar arrumadinho nas prateleiras das livrarias pouco mais se falou dele, pelo menos cá em Portugal.

Harper Lee, a quem os mais próximos chamavam Nelle, nasceu em 1926 numa pequena cidade de Monroeville, Alabama (EUA). Era filha de Amasa Coleman Lee, advogado, e Frances Finch Lee, e era a mais nova de três irmãos. É conhecida a amizade entre Lee e o escritor norte-americano Truman Capote. Os dois conheceram-se em Monroeville, onde Truman passava os verões numa casa ao lado da sua. Os dois viam-se com frequência e tornaram-se amigos. Harper Lee, aliás, chegou a acompanhá-lo a Holcomb, no Kansas, e a ajudá-lo na pesquisa que viria a dar origem ao célebre "A Sangue Frio".

Harper Lee morreu esta sexta-feira, aos 89 anos. Em comunicado após a sua morte, o seu agente Andrew Nurnberg escreveu que acabara de perder "uma grande escritora, uma grande amiga e um farol de integridade". "Ter conhecido Nelle nestes últimos anos foi não só um prazer imenso, como também um privilégio extraordinário. Quando estive com ela há seis semanas, ela estava cheia de vida", lê-se no comunicado.