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Em direção à luz

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Conversa com Lenny Abrahamson em torno de “Quarto”, a surpresa dos nomeados para os Óscares deste ano, já em exibição

Jeff Vespa/WireImage

Fiquei preso ao livro desde a primeira página”, confessou-nos com simpatia o irlandês Lenny Abrahamson ao abordar o best-seller “Room” (chamou-se por cá “O Quarto de Jack”, ed. Porto Editora), da sua conterrânea Emma Donoghue, e que ele adaptou ao cinema no ano passado. Quase desconhecido em Portugal (pese embora a estreia, tímida, do seu trabalho anterior, “Frank”), Abrahamson apresentou o filme no Festival de Toronto, em setembro de 2015, duas semanas depois da estreia mundial do mesmo em Telluride, nos EUA. O cineasta de Dublin estava então longe de imaginar como seria positiva a receção da obra, entretanto nomeada para quatro Óscares. “Quarto” pede-nos cautela porque depende como poucos das revelações que vão sendo feitas ao espectador. É um daqueles casos em que contar o mínimo que seja já é contar em demasia. Digamos apenas que se trata da história de Ma e do seu filho de cinco anos, Jack, que vivem entre quatro paredes e — sem que saibamos porquê — não podem sair desse huis clos. Deste filme que dividirá crítica e audiências, diga-se ainda que a protagonista se chama Brie Larson, notável atriz que se destacou há seis anos com “Greenberg”, de Ben Stiller. Ainda há pouco (Atual, 28 de dezembro de 2013), aquando da estreia de “Temporário 12”, de Destin Cretton, avisámos que ela chegaria longe. Dois anos depois, ei-la nomeada para o Óscar.

O que é que o levou a fazer este filme?
Honestamente, acho que partiu tudo da comoção que tive ao ler o livro da Emma Donoghue. Um colega da produtora com que habitualmente trabalho aconselhara-me a leitura. Acho que o facto de ser pai de um miúdo de quatro anos contribuiu muito para me lançar nisto. Conhece aquela sensação em que nos dizemos que temos de ser nós a fazer determinada coisa? Foi o que me aconteceu.

Leu o livro logo após o seu lançamento [em 2010]?
Não. Um pouco mais tarde — e já era um bestseller. Foi na altura em que se ouviu o rumor de que o Presidente Obama havia sido visto a comprá-lo. Aí dissemo-nos: “Bolas, agora é que nunca mais vamos conseguir ficar com os direitos.” Foi então que decidi escrever uma carta a Emma Donoghue...

Que é irlandesa, como você...
E isso ajudou, sabe? Ainda hesitei, pensei que ela jamais estaria interessada numa adaptação para cinema do livro. Por outro lado, achei que não tinha nada a perder, ainda mais sabendo que ela é irlandesa. Na minha carta, que tinha umas dez páginas, apresentei-me, disse-lhe ao que vinha, que tinha lido o livro e que me sentia capaz de o passar para cinema se nos focássemos naquilo que julgava ser absolutamente central no texto. Permiti-me também dizer-lhe o que eu achava que não se poderia fazer, imagine..

Então a carta já era uma proposta de trabalho disfarçada?
Acho que se pode dizer isso. Destaquei a importância da voz do Jack mas notei que não se poderia exagerar na voiceover, por exemplo.

Porquê?
Porque eu acho que a audiência se afastaria das personagens se ficássemos presos a excessos poéticos. Tentei escapar a uma abordagem comum ao ‘realismo mágico’. Isto é: há uma ressonância alegórica evidente no livro, não a podemos negar, mas isso não nos impede de tentarmos, com subtileza, chegar a essa mesma ressonância através de uma abordagem naturalista. Escolher um ponto de vista é sempre uma questão central num filme e, neste caso, eu sentia que podíamos passar da cabeça de Jack para a cabeça de Ma, ou seja, do filho para a mãe, com uma facilidade incrível. O cinema permite-nos essa passagem imediata, muito mais do que a literatura. Disse então à Emma que imaginava o filme a alternar entre dois pontos de vista e não fixo num só, como no livro. E ela comprou a ideia imediatamente.

A Emma gostou da carta?
Disse-me que tinha sido o melhor texto que havia lido sobre o livro. Mas acho que, ao mesmo tempo, ela receava que eu não conseguisse levar o projeto até ao fim. Eu ainda só realizara duas pequenas produções na Irlanda. Acontece que, entretanto, fiz “What Richard Did” [2012] e “Frank” [2014], este último com Maggie Gyllenhaal e Michael Fassbender, atores conhecidos. Começou-se a falar mais do meu nome e as pessoas que trabalham com a Emma notaram isso. Disseram-lhe que talvez o projeto nem fosse má ideia. E reencontrámo-nos.

Foi então que decidiram que seria a Emma a escrever o argumento do seu próprio romance?
Toda a gente me vai colocar essa questão. Na indústria do cinema, evita-se que isso aconteça, a todo o custo. O autor e o argumentista não podem coincidir. Acontece que uma adaptação livre nunca foi o que esteve em cima da mesa. Quando encontrei a Emma a questão era antes esta: “Vamos conseguir trabalhar juntos?” E eu tinha esta boa sensação de que a colaboração podia dar frutos. Começámos então a trabalhar. Sentámo-nos semanas a fio na mesa da cozinha dela. Às vezes ela dizia-me coisas como “promete-me que não vais fazer este filme a preto e branco”, ao que eu lhe respondia: “Promete-me que me deixas levar este projeto até ao fim.” E assim se foi fazendo o filme, entre uma promessa e outra.

Como é que chegou ao elenco? À Brie Larson, sobretudo?
O caso da Brie... Eu vi-a em “Temporário 12”. Muito depois da estreia, o filme tinha-me passado ao lado. Achei-a fantástica, ela leva o filme aos ombros e é tão delicada, tão natural, é tão difícil encontrar nela uma nota em falso... Disse-me que tinha de encontrá-la. Também vi outras atrizes. A Brie não foi uma daquelas obsessões em que era ela ou ninguém... Pedi-lhe depois uns ensaios, e ao longo da rodagem fui-me apercebendo que ela era, de facto, a pessoa indicada para o papel e para a encarnação física que a personagem de Ma exige. Há coisas difíceis de explicar: a Brie é luminosa, bonita e, ao mesmo tempo, é tão genuína nos filmes que parece ser ela própria. Parece que não está a fazer qualquer esforço quando interpreta. E isso é tão raro...

E o caso do miúdo, Jake?
É totalmente diferente. Trabalhar com uma criança é uma das coisas mais difíceis para um realizador. Descobri o Jacob Tremblay após um casting exaustivo e aqui tenho que dar mérito aos profissionais que me ajudaram a encontrá-lo. E garanto: tive mesmo medo de não sermos capazes de encontrar um rapaz assim. A uma dada altura estávamos bastante nervosos com isso. Arranjaríamos outra solução, seguramente, mas o Jacob foi especial, acabou por ter uma importância no filme que não estava planeada. Ele está sempre na imagem. Parece ter cinco anos, embora seja um pouco mais velho na realidade.

Uma criança de cinco anos conseguiria fazer aquele papel?
Pela minha experiência de pai, acho que não, francamente. Havia bastante texto a decorar, e a rodagem em si exigia uma determinada energia que uma criança de cinco anos ainda não tem. Procurámos um pouco por todos os Estados Unidos mas foi no Canadá que o encontrámos. Ele é de Vancouver. E é claro que a Brie me ajudou, e muito, a dirigi-lo, dando-lhe pequenas indicações, pedindo-lhe para repetir certas passagens. Também aqui ela foi brilhante.

O que é que este filme representa para si?
Quem conhece a história e o pano de fundo das personagens pode pensar que este é um filme de género que tanto pode tender para o melodrama como para o terror. Mas eu prefiro pensar no espectador que entra na sala sem saber nada. A esse espectador, eu diria que “Quarto” é um filme sobre o amor parental e aquilo que uma mãe é capaz de fazer para proteger o seu filho. Começa num sítio muito negro que depois evolui com a experiência de vida e a perceção de cada um de nós. Eu quis filmar uma jornada em direção à luz.