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A tristeza que nos rói

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Ninguém pode acusar Andrew Solomon de não ter feito o seu trabalho de campo. Para este “atlas” de uma doença que afeta uma parte substancial da humanidade, ele carreou anos de experiência prática dolorosa

Luís M. Faria

Jornalista

O sentimento de melancolia foi captado por Albrecht Dürer nesta gravura de 1514

O sentimento de melancolia foi captado por Albrecht Dürer nesta gravura de 1514

d.r.

Obviamente, é a sua vida inteira que está em causa, mas num sentido restrito trata-se de uma depressão de longo prazo, com secções identificáveis: “Muitos lapsos ligeiros, depois duas graves recaídas, depois um momento de repouso, depois uma terceira recaída, depois mais alguns lapsos. Depois de tudo isto, faço o que tenho a fazer para evitar futuros distúrbios. Todas as manhãs e todas as noites olho para os comprimidos que tenho na palma da mão: brancos, cor de rosa, vermelhos, turquesa (…). Sinto por vezes que estou a engolir as minhas próprias cerimónias fúnebres duas vezes por dia, pois sem aqueles comprimidos, há muito tinha partido.”

À vivência pessoal junta-se a reportagem. Solomon entrevista outros deprimidos, nem todos americanos ou europeus, e alguns com um passado muitíssimo mais terrível do que o dele. Há ainda imensa informação sobre terapias e medicamentos, e também sobre aspetos históricos, políticos, sociais — um capítulo certeiro fala da relação entre pobreza e depressão. Tudo servido numa excelente prosa cujo fôlego alargado não a impede de ir direita ao assunto (“a psicanálise é boa a explicar as coisas, mas não é um modo eficaz de as mudar”), onde a alta cultura produz algumas imagens notáveis, e cujo único senão é dar ocasionalmente um certo ar de se deleitar consigo própria, estendendo por quatro parágrafos aquilo que podia dizer num só. Se os doentes são às vezes acusados de estarem apaixonados pelas suas doenças, ainda maior é a paixão pelas curas. No caso de um escritor como Solomon, a cura passa claramente pela escrita. Ele assume, aliás, esse fator, citando Graham Greene. Fá-lo a propósito dos mais de mil leitores que responderam a um artigo que publicou em 1998 na revista “New Yorker”.

Intitulado “The Anatomy of Melancholy” (“Anatomia da Melancolia”, o nome da famosa obra do autor setecentista Robert Burton), era ao mesmo tempo um relato pessoal e um exame das panaceias disponíveis. O eco imediato foi uma grande vantagem para o livro em que depois se transformaria, pois houve leitores, não poucos, que se disponibilizaram a ser entrevistados. A vontade de falar assinalada em muitos deprimidos terá que ver, pelo menos em parte, com o facto de a doença ser difícil de apreender ou explicar. Não por acaso, as tentativas de definição no capítulo inicial de “O Demónio da Depressão” rapidamente caem na metáfora. Uma realidade multiforme, interior por natureza mas geradora de distorções cognitivas bastante amplas, pode ficar por diagnosticar até ser demasiado tarde. Hoje em dia, felizmente, a compreensão dela está a aumentar. Mas uma definição básica — “uma vulnerabilidade genética ativada por fatores externos” — é suscetível de críticas. Quando mais não seja, a crítica de ser excessivamente geral.

Além disso, os obstáculos financeiros continuam a limitar o acesso de largas faixas da população aos tratamentos disponíveis. Isso vale tanto para os convencionais — ‘conversa’ e medicamentos — como para os outros que o autor refere com graus variáveis de favor num capítulo à parte. Entre eles, hipnose, massagem, uso de caixas de luz, estimulação magnética do cérebro... Duas recomendações seguras são o exercício físico e uma dieta adequada. Acima de tudo, o que resulta é acreditar no tratamento, seja ele qual for. E um indicador fiável de melhoria, ou de perspetiva de melhoria, é o sentido de humor. “É frequentemente o melhor indicador de que as pessoas gostam de nós”, escreve Solomon.

“Evidentemente, é difícil manter o sentido de humor durante uma experiência que realmente não tem nada de engraçado. Mas é absolutamente necessário. A coisa mais importante que não devemos esquecer durante uma depressão é a seguinte: o tempo não volta para trás. No fim da vida não há um prolongamento para compensar os anos desastrosos. O tempo consumido por uma depressão perde-se para sempre.”

O último capítulo desmente parcialmente essa afirmação, pois fala da profundidade que a vida pode ganhar com a depressão. Não será a forma ideal de ganhar conhecimento, nem para Solomon nem, por maioria de razão, para vários dos seus entrevistados. Para alguns deles, o rastilho da crise emocional foi a violação, a tortura ou outras formas de violência. Para ele, foi o suicídio da mãe, efetuado em casa na presença da família. Essa cena trágica de sóbria solenidade, com falas que associam a razão e o afeto a um tom matter of fact, é uma das passagens notáveis do livro.

Claro que as coisas não se passam desse modo com toda a gente. Os ricos (como no caso) são diferentes. Mas a depressão no extremo oposto é pior. A pobreza deprime e “a depressão empobrece, por conduzir ao disfuncionamento e ao isolamento”, explica Solomon. “A humildade da pobreza é um relacionamento passivo com o destino”, algo que noutras classes “requer um tratamento imediato”.

O Demónio da Depressão – um Atlas da Doença, de Andrew Solomon, Quetzal, 2016, trad. de Francisco 
Paiva Boléo e Constança Paiva Boléo, 816 págs., €24,40

O Demónio da Depressão – um Atlas da Doença, de Andrew Solomon, Quetzal, 2016, trad. de Francisco 
Paiva Boléo e Constança Paiva Boléo, 816 págs., €24,40