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Uma mente brilhante

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Diogo Seixas Lopes, arquiteto e crítico original falecido esta quinta-feira, aos 43 anos, produziu pensamento sobre a disciplina como poucos o fizeram na sua geração. O “The Guardian” considerou a sua obra “Melancholy and Architecture”, sobre o italiano Aldo Rossi, o melhor livro de arquitetura em 2015

Nuno Cera

Uma amiga de infância recordou: "Lembro-me e dele ainda rapazinho pequeno, espantoso, a debitar coisas sobre cinema, sabia tudo sobre cinema. O Diogo era um menino precoce, um ser inteligentíssimo, que se transformou num arquiteto singular, que adorava discutir, que adorava pensar. Acima de tudo, era um homem do pensamento".

Diogo Seixas Lopes, que escolheu estudar arquitetura em vez de cinema, era filho do cineasta Fernando Lopes e da jornalista Maria João Seixas. Nasceu em 1972 em Lisboa, licenciou-se na Universidade Técnica de Lisboa, seguiu para a Suíça para fazer o doutoramento no Instituto Federal de Tecnologia de Zurique, regressou a Portugal, deu aulas na Universidade de Coimbra e depois na Universidade de Carleton em Ottawa, no Canadá. Foi bolseiro do Centro Canadiano de Arquitetura para a Ciência e Tecnologia, passou por Los Angeles para absorver a cultura da grande metrópole americana, regressou, integrou a equipa do semanário "Já", fez parte da direção do "Jornal dos Arquitetos" e criou com Patrícia Barbas, cúmplice, companheira incondicional de uma vida, um ateliê onde assinou projetos como a requalificação do Teatro Thalia em Lisboa (parceria com o ateliê Gonçalo Byrne) ou uma torre de escritórios projetada para a Avenida Fontes Pereira de Melo, que causou polémica e está em fase de construção.

Com a mulher Patrícia Barbas, com quem fundou o ateliê

Com a mulher Patrícia Barbas, com quem fundou o ateliê

Álvaro Rosendo

A biografia curricular é esta, mas há mais coisas. Seguindo a pista indicada pela memória da amiga de infância – que prefere não revelar o nome – podemos sobretudo recordar Diogo Lopes como um ser de acendalha, polémico, verdadeiro e afável, um viajante de olhar vivo e inquieto, um homem do mundo, observador do seu tempo e da cultura da sua geração. Cinema, música, literatura, arquitetura, cultura pop.... Tudo entrava no caldo da elaboração mental, num processo que resultava em pensamento crítico, conversas, escrita. O Diogo era um fazedor.

Na lista das coisas que realizou, logo à cabeça destaca-se a revista "Prototypo", que projetava lançar nove números, cada um deles correspondendo à letra da palavra protótipo, e que punha em diálogo um arquiteto nacional com um estrangeiro; ou o livro, feito em sintonia com o fotógrafo Nuno Cera, "Subúrbios Blues: Cimêncio". Cimento/silêncio quer dizer, segundo os seus autores, "sono profundo dos arredores" e transformou-se num objeto de culto, hoje difícil de encontrar, uma espécie de balada conceptual pelos subúrbios, trabalhado na poesia das imagens, das palavras e do betão.

Entretanto houve críticas em jornais, conferências e consultadoria para a sala de exposições de arquitetura do CCB, Garagem Sul, aulas, até chegar à criação do ateliê Barbas Lopes, em 2006, de onde saíram projetos de remodelações e montagens de exposições, edifícios públicos e privados. Entre eles o espantoso Teatro Thalia, de 2012, em parceria com Gonçalo Byrne, desenhado a partir das ruínas de uma quinta nas Laranjeiras do final do século XVII.

O Teatro Thalia, em Lisboa, foi uma obra assinada pelo ateliê de Diogo Seixas Lopes em parceria com Gonçalo Byrne

O Teatro Thalia, em Lisboa, foi uma obra assinada pelo ateliê de Diogo Seixas Lopes em parceria com Gonçalo Byrne

Ateliê Barbas Lopes

Em maio de 2015, Diogo produziu o livro "Melancholy and Architecture" sobre a obra do italiano Aldo Rossi, resultado da sua tese de douramento que lançou na editora suíça Park Book e que foi considerado pelo jornal inglês "The Guardian" o melhor livro de arquitetura desse ano.

Estava agora a preparar a próxima edição da Trienal de Arquitetura de Lisboa, que se realizará este ano de outubro a dezembro, onde era curador com André Tavares, sobre o tema "A Forma da Forma", onde procurava debater a prática da arquitetura no mundo que ajuda a transformar.

Diogo Seixas Lopes no seu ateliê

Diogo Seixas Lopes no seu ateliê

Joana Gomes Cardoso

É Manuel Mateus, arquiteto, amigo que o acompanhou desde os tempos de escola, quem o define: "A singularidade do Diogo está precisamente na maneira como ele voa para o projeto, sempre a partir de uma reflexão surpreendente. Não é a resolução que interessa como fim, mas o ponto de partida. Fazia isto a desenhar e a pensar. Talvez por isso, o Diogo tenha sido dos raros arquitetos em Portugal que, simultaneamente praticou arquitetura e produziu pensamento crítico. Também por isso era tão singular."

A mão, a cabeça, o ponto de partida, o motor de arranque. Diogo. Um ser livre, original. Tinha 43 anos, ainda ontem de madrugada.