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A esperança de uma nova vida, noticiando uma crise e um talento português: as fotografias que falam de nós

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A foto vencedora do prémio principal

Warren Richardson

Há fotografias que mostram o drama de quem foge à guerra, mas também há as que captam os prodígios da natureza. São as preferidas do World Press Photo, versão 2015

No dia 28 de agosto de 2015, Warren Richardson encontrava-se na cidade de Roszka, na Hungria, junto à fronteira com a Sérvia. Com ele estavam mais de 200 pessoas, todas com um objetivo: atravessar a barreira de arame farpado que as separava de uma nova vida. A tarefa não era fácil, e por isso mesmo entre aquele enorme grupo encontravam-se dez engenheiros que observavam a barreira, tentando descobrir a melhor forma de passar o maior número possível de pessoas para o outro lado.

Durante horas, o grupo foi perseguido pela polícia, tentando disfarçar os estragos na barreira sempre que os agentes se aproximavam. Fartos do jogo do gato e do rato, os agentes começaram a ficar cada vez mais zangados. O gás pimenta espalhava-se no ar e nos olhos dos engenheiros, que no entanto não desistiram e começaram a passar pessoas por baixo da barreira: primeiro bebés e crianças, depois mulheres, depois homens, até que mais de 200 pessoas passaram para o outro lado. Num destes momentos, Warren Richardson carregou no botão da máquina - sem flash, para não denunciar quem fugia - e tirou aquela que foi considerada a "fotografia do ano" pelo World Press Photo.

A imagem captada por Richardson, um fotógrafo freelance australiano, foi a escolhida entre 82.951 fotografias, tiradas por 5.775 fotógrados oriundos de 128 países. Mas esta "Esperança de uma nova vida" não é a única imagem que merece destaque - esta quinta-feira, 41 fotógrafos foram premiados em oito categorias diferentes.

Se a crise dos refugiados invadiu as capas de jornais durante todo o ano passado, as fotografias premiadas refletem os mesmos momentos de fuga, frustração e dor - por vezes pelos olhos de quem foge da guerra, outras vezes do lado de quem ficou. Este foi o tema que ganhou o primeiro prémio de ensaio na categoria de notícias gerais, com o título "Noticiando a crise dos refugiados na Europa". O fotógrafo russo Sergey Ponomarov documentou as várias fases da viagem, começando pelo momento em que um grupo de refugiados como tantos outros chega de barco à ilha de Lesbos, na Grécia.

Os escravos modernos pela lente de um português

Abdoulaye é um talibé de 15 anos que está preso por grades num quarto. A seguir, um homem bate numa criança que se enganou a ler o Corão. Depois, um menino pedinte numa ponte. Por fim, um rapaz acorrentado pelos pés enquanto lê o livro sagrado dos muçulmanos.

Os talibé são rapazes de cinco a 15 anos que nascem na Guiné-Bissau e no Senegal e, quer por terem sido raptados ou abandonados pelas famílias, vivem em escolas islâmicas em que são obrigados a mendigar e a entregar os seus ganhos aos professores, que frequentemente os violam e lhes batem. O ensaio "Talibés, modern day slaves" é do fotógrafo português Mário Cruz, da Agência Lusa, e ganhou o primeiro prémio da categoria de temas contemporâneos, por mostrar a preto e branco a realidade destas crianças, ainda bastante desconhecida na Europa.

O fotógrafo de 28 anos também já conquistou o maior prémio de fotojornalismo português, Estação Imagem, em 2014, com o trabalho "Cegueira Recente".

Ainda sobre o tema dos refugiados, que domina a edição deste ano, o primeiro prémio da categoria pessoas foi atribuído à fotografia "À espera do registo", do fotógrafo esloveno Matic Zormar. Na imagem, uma menina agarrada às grades de um campo de refugiados na cidade sérvia de Presevo espera para se registar, abrigada por um casaco impermeável.

Uma Síria devastada

Sobre outro dos temas do ano, o ensaio "Dia seguinte aos bombardeamentos na Síria" retrata a cidade destruída de Douma, que há dois anos está nas mãos dos rebeldes e é sitiada pelo Governo sírio. As imagens arrepiam: de corpos de crianças aos restos de uma cidade em chamas, o fotógrafo sírio Sameer Al-Doumy mostra os detalhes para mostrar o que é sobreviver assim. O ensaio que mostra, de acordo com o fotógrafo, "um constante rasto de destruição e vidas perdidas" arrecadou o primeiro prémio na categoria de Notícias Locais.

O outro lado do conflito sírio é captado pela câmara do brasileiro Mauricio Lima, que fotografou Jacob, um combatente do autoproclamado Estado Islâmico (Daesh) de apenas 16 anos. O jovem encontra-se em tratamento num hospital curdo na cidade síria de Hasaka, deitado numa maca diante de um poster do líder do Partido dos Trabalhadores Curdos, Abdullah Ocalan. O retrato de Jacob mereceu o segundo prémio da categoria:

Outro dos temas incontornáveis do ano é o dos atentados de Paris, retratados em múltiplos trabalhos. Um deles, titulado "Vítimas dos ataques de Paris", mostra as fotografias das vítimas molhadas pela chuva num memorial de rua da capital francesa. O retrato de Daniel Ochoa de Olza, fotógrafo espanhol, mereceu o terceiro lugar na categoria Pessoas.

Já a "Marcha contra o terrorismo em Paris", captada pelo francês Corentin Fohlen dias depois do ataque à redação do Charlie Hebdo, mereceu o segundo prémio na categoria temas contemporâneos.

Mas nem só de guerra, conflitos e morte se fez o ano, e por isso mesmo houve espaço para fotografias vencedoras muito díspares. Entre elas estiveram também a "Frente de tempestade na praia de Bondi", que deu ao fotógrafo australiano Rohan Kelly o primeiro prémio da categoria Natureza, e "Neblina na China", do fotógrafo chinês Chang Lei, que retratou a cidade de Tianjin.

A exposição das fotografias vencedoras passa por Lisboa de 28 de abril a 22 de maio e estará instalada no Museu da Eletricidade, em Alcântara.