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E o Óscar vai para... onde?

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Reinaldo Serrano

Quando faltam 3 semanas para a grande Babilónia de Hollywood celebrar a entrega dos prémios maiores da indústria cinematográfica, cumprirá eventualmente tecer algumas considerações sobre a mesma, ou seja, sobre o facto de os óscares se terem transformado real e unicamente em troféus de uma indústria em primeiro lugar, com o cinema como pano de fundo e mero pretexto de celebração... da indústria.

Sou daqueles que, pese embora a crescente escassez de companhia nesta matéria, entendem o cinema como arte em primeiro lugar e como indústria muito depois. Nada disto significa uma utópica rejeição da equação que nos diz que arte e dinheiro (leia-se, negócio) estão íntima e promiscuamente ligados; nem significa, obviamente, negar que as grandes maquias contribuem por mérito próprio para a prossecução de projetos artísticos cuja relevância acaba, até, por ser bem maior que o investimento neles feito. O que me ensombra realmente a alma é ver uma comunidade artística ceder ao longo do tempo os preceitos éticos sob os quais deve reger-se, ao valor dúbio do marketing e dos padrões ditados por produtores que, legitimamente, diga-se, veem no lucro imediato o objetivo primeiro e único da sua atividade; falo de uma regra, porque exceções também as há.

Felizmente, estou em boa companhia no raciocínio (esteja ele certo ou errado). Basta ver a maliciosa observação do excessivo mas acutilante Ricky Gervais enquanto anfitrião dos Globos de Ouro, ao aludir ao facto de muitos se darem ao trabalho de comparecer à cerimónia quando os grandes estúdios já tinham pago para conquistarem os troféus. Passe o exagero, há um terrível fundo de verdade na invectiva “gervaisiana”.

Anos 30

Feito o desabafo, e tendo no horizonte a 88ª cerimónia de entrega dos Óscares (no último dia de fevereiro), lembrei-me de, na parcimónia da prosa, evocar alguns títulos que estão fora do contexto sombrio que preencheu o relambório inicial da crónica. Assumindo o percurso, nele recuo até ao ano de 1930 para (re)lembrar o triunfo que foi “All Quiet In The Western Front” (“A Oeste Nada de Novo”). Filme baseado na obra homónima de Erich Maria Remarque, continua a ser, 85 anos depois, uma referência obrigatória no chamado Cinema de Guerra. Dirigido por Lewis Milestone e com uma notável produção de Carl Laemmle, “A Oeste Nada de Novo” é um retrato desolador e desencantado da guerra, neste caso do primeiro conflito mundial, espelhado no profundo antagonismo entre um discurso marcadamente nacionalista em defesa da glória da Mãe-Pátria e a dura realidade vivida por um conjunto de jovens soldados, a braços com o caos e a desolação de um conflito armado e que mudará para sempre a sua vida e o modo de olhar para ela. Escusado será dizer que a obra de Remarque e a sua adaptação para o cinema foi pedra de toque na inspiração de inúmeros filmes com a temática nem sempre devidamente repescada.

Anos 40

Nos anos 40, e com a devida vénia ao mítico “Casablanca” (1943) de Michael Curtiz, permito-me chamar a justa atenção ao menos conhecido mas não menos extraordinário “Gentleman´s Agreement” (“A Luz é Para Todos”): o Melhor Filme de 1947 foi realizado pelo nem sempre pacífico Elia Kazan e teve em Gregory Peck e John Garfield duas sólidas representações nesta obra que é um cru libelo acusatório dirigido ao preconceito racial. A história narra basicamente o desempenho de um jornalista que se faz passar por judeu por forma a entender melhor o pensamento antissemita numa comunidade norte-americana. O filho é um personagem central nesta espécie de exercício pedagógico sobre o que (não) são a moral e os bons costumes. Polémico na altura da sua estreia, inflacionou a recetividade que tinha sido dada à obra homónima na qual se inspirou, da escritora Laura Z. Hobson.

Anos 50

Chegados à década de 50, optei por escolher outro Melhor Filme, seguramente menos conhecido que “Ben Hur” (1959), “Há Lodo no Cais” (1954) ou “A Ponte Sobre o Rio Kwai” (1957). Trata-se de “Marty”, realizado pelo injustamente esquecido Delbert Mann e produzido por Harold Hecht e... Burt Lancaster. Este drama romântico de 1955 resulta de uma adaptação feita por Paddy Chayefsky de uma obra sua e que lhe valeu o óscar para Melhor Argumento Adaptado. “Marty”, a história de um solteirão boa-gente mas socialmente inadaptado, valeu ainda o óscar para Melhor Ator ao grande Ernest Borgnine, mais conhecido por papéis de ação do que por desempenhos dramáticos. Não menos relevante, a obra de Delbert Mann fez história ao tornar-se no primeiro filme a conquistar a Palma d´Ouro do Festival de Cannes.

É pois com chave de ouro que me permito encerrar, de momento, esta brevíssima retrospetiva do que é (foi) o cinema no seu melhor, na esperança sincera que o (re)visionamento destas obras fortaleça o raciocínio inicial de que a sétima arte ainda pode manter o número mas de artística vai tendo muitos defeitos... especiais.