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“A poesia é a saúde da linguagem”

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FOTO SÍLABA EDITORES

Chama-se Juan Manuel Roca, vive em Bogotá, e é um dos poetas mais lidos na Colômbia. É também amigo de Nuno Júdice, poeta português da mesma geração. Júdice traduziu Roca para português, Roca traduziu Júdice para espanhol. Estiveram juntos no Hay Festival, de Cartagena das Índias, e conversaram com o Expresso.

No pátio interior do hotel onde estão hospedados os convidados do festival falam-se várias línguas, muda-se muitas vezes de mesa, trocam-se contactos e experiências. O rodopio faz parte e não permite uma conversa sem interrupções. Por isso subimos a uma varanda de um quarto andar para fazer a entrevista. Os poetas, amigos de longa data e sentados lado a lado, começaram por se apresentar um ao outro. Juan Manuel Roca elogia a poesia de Nuno Júdice porque “escreve como pensa, tem uma grande capacidade de criação de imagens e de silêncios” e porque consegue juntar “o que dizer e o como fazer”. Nuno Júdice retribui os elogios apresentando Juan Manuel Roca como um poeta com “uma escrita original” onde se encontra muitas vezes “uma narrativa ou mesmo um pequeno ensaio”. Além disso, “tem um imenso conhecimento de toda a poesia, não só europeia como asiática e também da América Latina, e esse jogo com os outros poetas faz com que se interrogue e pense sobre o que é o homem, a poesia, e sobre as razões da própria existência”.

O jogo com outras poéticas, “essa necessidade de ir procurar os outros e de os absorver”, está muito relacionada, diz Nuno Júdice, com “aquilo que é a Colômbia e com o que são estas sociedades pós-coloniais, porque encontram a sua identidade no contraste com o outro que aqui esteve”. Juan Manuel Roca escuta Nuno Júdice com atenção e acrescenta que “a América Latina não tem uma identidade única porque, como diz o cubano José Lima, tudo nos pertence”.

d.r.

Esta tese é também reforçada em causa própria pelo poeta colombiano e a ideia pessoana de “um ser muitos” que Juan Manuel Roca considera “uma característica de todos os bons poetas”, herdada ou assimilada não só mas também pela poesia portuguesa de Fernando Pessoa: “penso que se alguém é responsável por uma tribo de poetas, como se tivesse inventado um regimento, uma quadrilha de poetas de carne e osso, que podemos apalpar como se tivessem existido, esse alguém é Fernando Pessoa e essa é a sua magia”.

Juan Manuel Roca é um dos poetas mais lidos na Colômbia e também um dos mais procurados nas sessões de leitura de poesia, ou de conversas entre poetas. Apesar de a opinião dos editores, diz, não ser essa, considera que se lê cada vez mais poesia na Colômbia ou que, pelo menos, as pessoas procuram cada vez mais os poetas. Dá o exemplo do maior festival de poesia do mundo, em Medellín, que está sempre esgotado, “parece uma hipérbole”, porém “não se sabe se as pessoas são pessoas que gostam de ler poesia ou de ouvir poesia. É um caminho muito delicado”.
No que a Portugal diz respeito, Nuno Júdice duvida da existência de poucos leitores por considerar que não se deve avaliar apenas a tiragem dos livros mas sim “pensar na imensa dimensão que a poesia tem através das novas formas de partilha de poemas que as redes sociais permitem”.

Tal como Nuno Júdice, Juan Manuel Roca considera que a poesia “está em todo o lado”, porque “traduz a realidade quotidiana através da linguagem”, como se o poeta fosse encarregado de nomear as coisas para lhes dar um novo significado. Um significado que os leitores, de certa maneira procuram, lembra o poeta português, “porque é lá que encontram aquilo que gostariam de dizer e não conseguem, e quando leem aquele poema, de repente, descobrem a sua expressão e o seu sentimento e é por isso que a poesia, no fundo, deixa de ser nossa a partir do momento em que a escrevemos”.

E de tal maneira a poesia estará em toda a realidade quotidiana que Juan Manuel Roca defende a criação de uma Teoria Geral das Artes a partir do poético, porque “onde não há poesia, dificilmente há arte. Seja na literatura, nas artes plásticas ou no cinema, o que não contempla uma poética dificilmente é arte”.

A poesia será então, para estes dois poetas da mesma geração mas de países diferentes, “a melhor forma de traduzir aquilo que não se sabe o que é”, lembra Nuno Júdice, ou “a saúde da linguagem”, como Juan Manuel Roca prefere chamar-lhe.