Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

Rir é o melhor remédio... e a melhor arma

  • 333

Um escritor espanhol interroga os limites do riso e o seu papel social e político

ESPELHO DA ALMA“. Dois homens a rir”, um duplo autorretrato do pintor alemão Hans von Aachen (1552-1615)

ESPELHO DA ALMA“. Dois homens a rir”, um duplo autorretrato do pintor alemão Hans von Aachen (1552-1615)

Se é dos que pensam que a política dá vontade de rir (o que não deixa de ter um lado muito saudável, como quase tudo o que envolve o riso), saiba que uma gargalhada pode ser uma ferramenta de poder ou contrapoder. É o que defende o espanhol Andrés Barba num livro que analisa o papel do humor na política ao longo dos tempos, do filósofo cínico Diógenes de Sinope (século V a.C.) ao 43.º presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, de “O Grande Ditador” de Chaplin às caricaturas do “Charlie Hebdo”.

“Tem-se escrito muito sobre o humor, mas, de forma grosseiramente resumida, poderíamos dizer que há duas maneiras elementares de abordar o fenómeno do riso. A primeira seria a intelectualista, que incluiria todos os filósofos, psicólogos e sociólogos que pensaram no riso de um ponto de vista estritamente mental (o que nos faz rir, porque reagimos perante certos estímulos com uma reação tão inesperada e, sobretudo, tão física como encher os pulmões de ar e expulsá-lo bruscamente). A outra seria a social, que descarta o interesse sobre os motivos mentais do riso, centrando-se nas suas qualidades sociais: a sua condição, por exemplo, de castigo social, de humilhação, de alternativa ao pensamento idealista...”, declara o autor de “La risa caníbal” (“O riso canibal”) ao diário madrileno “El Mundo”.

Rir é devorar o outro

A premissa da obra (com o subtítulo “humor, pensamento cínico e poder” é que “cada vez que um homem abre a boca para se rir, está a devorar outro homem”, na senda do que teorizou Thomas Hobbes. Barba ironiza que a primeira comunidade humana nasceu no dia em que duas pessoas se riram de uma terceira que tropeçara numa pedra.

Fazendo o elogio do cinismo – num sentido original de verdade descarnada, não de manipulação –, Barba considera-o um “contrapeso necessário ao pensamento idealista” e evoca Diógenes, o filósofo que troçou da escola platónica, e o movimento punk enquanto seu legítimo herdeiro. Foi, lamenta o autor, o último estertor cínico verdadeiramente capaz de ação, em comparação com a inércia coletiva do presente.

CHAMARIZ. Um anúncio de um chapeleiro do Connecticut na época vitoriana retrata quatro fases do riso

CHAMARIZ. Um anúncio de um chapeleiro do Connecticut na época vitoriana retrata quatro fases do riso

O riso também é ação, podendo exprimir satisfação ou constituir um ataque que ridiculariza e desmonta o adversário (veja-se o caso do filme de Chaplin sobre Hitler), critica o seu sistema de ideias ou camufla uma determinada estratégia. Daí que tenhamos medo de sermos alvo do riso de alguém e que continuemos a debater, milénio após milénio, os limites do riso, da sátira, da paródia – atente-se aos debates que se seguiram aos casos dos cartoons sobre Maomé (2005) ou do atentado contra o “Charlie Hebdo” (2014), entre defensores da liberdade de expressão e partidários da respeitosa prudência. Discussão que Barba aflora neste volume.

Barba, nascido na capital espanhola há 40 anos, revelou-se em 2001 com “La hermana de Katia”, um romance mais tarde levado ao grande ecrã. Com Javier Montes deu à estampa “La ceremonia del porno”, galardoado com o Prémio Anagrama de ensaio. Elogiado pela revista “Granta”, tem livros publicados em 14 idiomas e foi coautor de uma tradução em castelhano de “Alice no País das Maravilhas”.

“Cubed: La risa canibal”, autor: Andrés Barba, editora: Alpha Decay, páginas: 152; preço: €15,90 (preço de editora)

“Cubed: La risa canibal”, autor: Andrés Barba, editora: Alpha Decay, páginas: 152; preço: €15,90 (preço de editora)