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Retrato de artista cansado

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EXPOSIÇÃO. Albuquerque Mendes tem uma mostra de blocos de desenhos em Guimarães

D.R.

Pintor de si próprio, multiplicado em dezenas de autorretratos, Albuquerque Mendes gosta de construir o outro lado do espelho da sociedade da qual resiste a ser apenas espetador.

O problema está no tropeço. Não é o embaraço ou o estorvo suscitado pela figura. Não é o despojado desejo de desdenhar ditos porventura nunca pensados. Não é a gargalhada franca. Não é o olhar intenso. Não é o brilho emanado de um sorriso sibilino. Não é a silhueta magra, quase um espetro. Não é a fragilidade de um corpo a deambular pela intensidade do dia. Nada é porque tudo é o seu contrário num artista para quem o respirar é como um permanente mergulho na mais intrigante das caixas de Pandora.

Tropeçar em Albuquerque Mendes é cair numa armadilha sem escape possível. O caminho da salvação conduz a lugar nenhum. Nem ele a procura, nem quem cai na malha a deseja. Há uma sedutora simbiose de desejos a partir da criatividade, da explosão artística de um homem para quem o ato de desenhar é como a construção de uma identidade feita de mistérios.

O sagrado e o profano convivem nele em provocador concubinato. A noção de imaculado é-lhe tão essencial como a ímpia vontade de criar palco outro e cena nova para algumas das manifestações religiosas da cultura popular portuguesa.

Pintor de si próprio, multiplicado em dezenas de autorretratos, Albuquerque gosta de construir o outro lado do espelho da sociedade da qual resiste a ser apenas espetador. Daí até às "performances" foi apenas um pequeno e inevitável passo. Nos idos de 1970 começou a dar pública expressão a esta necessidade de plasmar o imaginário artístico no tempo efémero de uma exibição nem sempre com roteiro definido.

Bloco de desenhos em exposição

Bloco de desenhos em exposição

Provocador, chamaram-lhe. O repto às convenções não tinha de ser catalogado como ato de coragem. Está para lá disso. Está muito para lá, até, do ingénuo clamor por uma afirmação assente no escândalo. Sim, às vezes é visto tão só como escândalo o que é antes de mais desafio.

Fora já assim em 1976 quando, com Carlos Carreiro, João Dixo, Graça Morais, Gerardo Burmester, Pedro Rocha, Jaime Silva, Dario Alves, Fernando Pinto Coelho e Armando Azevedo fundou, a contracorrente, o Grupo Puzzle. Foram polémicos e porventura até se esgotasse na tentação da polémica a razão de existir de um grupo rapidamente perdido no nevoeiro de si próprio.

Albuquerque continuou pelas veredas tão ardilosamente construídas. Agora com 63 anos, um dos nomes fundamentais da arte portuguesa afirmada nos anos de 1980, a quem Serralves dedicou uma antológica em 2002, tem uma nova exposição em Guimarães. Chama-se Nunca Fiz uma Exposição de Desenhos. A ironia contida na verdade traduz uma outra realidade.

Albuquerque desenha todos os dias. Precisa dessa brisa soprada pelo ato de desenhar. Houve um tempo em que desenhava em folhas soltas. Rasgava-as. Nunca estava satisfeito. Um dia passa a optar pelos blocos de desenhos e obriga-se a numerar as folhas. Para não as rasgar. Para se obrigar ao confronto com o que num dado instante pode ter achado descartável.

Com o passar dos anos, e sem programa prévio, aqueles blocos constituem-se um diário com narrativas múltiplas. Está ali, em forma de desenho, uma biografia.

O autorretrato é uma constante no trabalho do pintor

O autorretrato é uma constante no trabalho do pintor

Paula Pinto pegou em todos aqueles blocos e construiu a exposição patente até o próximo sábado no Centro para os Estudos de Arte e Arquitetura, em Guimarães. São algumas dezenas de cadernos preenchidos ao longo dos últimos vinte e cinco anos. A partir do momento em que o bloco passou a fazer parte integrante dos longos bolsos dos longos casacos de Albuquerque. Porventura a partir do momento em que se lhe cravou na alma a frase ouvida anos antes a Ângelo de Sousa, quando lhe disse o pintor: “Se tiveres um lápis e um bloco de desenho, nunca te vais sentir só.”

Albuquerque nunca está só. E não abandona a ideia de prolongar o fixado num papel, numa tela. Por isso, no sábado, regressa às “performances”. Como diz, com o ar de tratante proporcionado pelo sorriso de sempre, há de ter 90 anos e ainda ansiar pelo momento de mais uma destas exibições.

Os desenhos funcionam como um diário

Os desenhos funcionam como um diário

“Cansaço” é o nome escolhido para aquele momento. E aí está, de novo, a ironia, a vontade de brincar com as palavras, a apetência pelo contrário do nomeado. Na geografia das emoções, o artista “cansado” é aqui, apenas, uma metáfora do real. O que constitui sempre outra forma de revelar como, em Albuquerque Mendes, nunca o que parece, é.