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“Escrever tem de ser organicamente indispensável”

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Gonçalo M. Tavares é um dos dois escritores portugueses na lista de candidatos ao prémio

Gonçalo Rosa da Silva

Quase 200 pessoas pagaram bilhete para assistir à conferência 'Prosa em Português' no âmbito do Hay Festival, em Cartagena das Índias, na Colômbia. Gonçalo M. Tavares e Afonso Cruz, numa conversa moderada por Jerónimo Pizarro, professor da Universidad de los Andes, titular da Cátedra de Estudos Portugueses do Instituto Camões, na Colômbia. Uma hora de troca de ideias sobre literatura, o mundo contemporâneo e o progresso que pode, afinal, não significar qualquer avanço, o bem e o mal. No final, os escritores portugueses responderam às perguntas do público colombiano

Por onde começar a ler, Gonçalo? A pergunta foi feita ao escritor por Jerónimo Pizarro, depois das apresentações e da constatação implícita da quantidade e diversidade da sua obra. O autor de "Jerusalém" cumprimentou a sala e não facilitou na resposta. Começou por explicar que os seus livros são muito distintos, "podem ser lúdicos ou muito duros", e que "os livros são como os animais": "para mim não faz sentido fazer juízos de valor sobre os animais. Por exemplo, não é acertado dizer que um leão é melhor que um crocodilo ou que um crocodilo é melhor que uma águia. Se queremos lentidão temos a tartaruga, se queremos velocidade o tigre é melhor. Nenhum é melhor do que o outro. Tem que ver com as características dos animais, e com os livros também é assim."
Explica que prefere não catalogar os livros porque considera que há "imensos caminhos para fazer literatura": "não gosto nada quando as pessoas produzem uma teoria sobre a literatura, dizer que é assim que se faz. Eu gosto de muitas coisas, filosofia, ciência ou matemática e não distingo, por exemplo, o ensaio da narrativa, acho que são o mesmo mundo. A narrativa pode pensar, um ensaio também".

Na vasta obra publicada de Gonçalo M. Tavares encontram-se então vários caminhos que jogam de maneira diferente com os leitores: "gosto de encantar, de prolongar a canção, mas para mim também é essencial que a literatura desencante, perturbe, seja um golpe violento nos leitores. Então, se estiverem deprimidos podem ler um determinado livro, mas se estiverem excessivamente contentes podem ler outro, porque a alegria excessiva é tão perigosa como a depressão."

João Lima

Trabalhar e descansar é o mesmo

Afonso Cruz, autor traduzido na Colômbia em cinco livros, respondeu à pergunta sobre o facto de escrever e publicar muito, "mais de um livro por ano", explicando que ser escritor é um ofício mas bem mais do que isso: "comecei a escrever um pouco tarde, há sete anos e meio ou algo assim, e escrevo muito, é verdade. Mas escrevo porque acredito que o ócio e o meu trabalho são a mesma coisa e então, quando estou a trabalhar e a descansar, é o mesmo."

Há dois livros de Afonso Cruz, "O Pintor Debaixo do Lava-Loiças" e "Jesus Cristo Bebia Cerveja" muito bem recebidos pelos leitores colombianos. Afonso cruz conta que o primeiro é inspirado numa história pessoal e real, e que o segundo é sobre algo que pode acontecer a qualquer um de nós: "tem a ver com a superação, com aquilo que nós estamos dispostos a mudar por alguém." Mudar, continua Afonso cruz, exatamente como fez Jesus Cristo, "também ele historicamente um homem que era Deus ao mesmo tempo, e essa é uma possibilidade que todos temos quando uma pessoa nos ama incondicionalmente."

A conversa prosseguiu com o moderador a tentar esclarecer o que têm em comum os dois escritores convidados, no que escrevem mas também no método de trabalho. Gonçalo M. Tavares falou do papel do escritor como alguém capaz de estabelecer um "diálogo entre a tradição e o presente", e deu um exemplo de uma história em que um narrador fala de uma personagem tão vesga, tão vesga, que à Quarta-Feira vê simultaneamente os dois Domingos, o anterior e o posterior: "para mim essa é uma definição de escritor. Alguém que conhece a história, o domingo passado - não sendo um historiador - e que consegue ao mesmo tempo olhar para frente, ver o domingo seguinte, com os pés no presente, portanto alguém que não está afastado da realidade."

Afonso cruz também escreveu e continua a escrever livros que têm o tempo como pano de fundo. "A Enciclopédia da História Universal" é um projeto, "a primeira coisa que escrevi na vida e uma mentira de catalogar não o mundo mas a ficção." Trata-se de um conjunto de livros, explica ao público colombiano, que o ajudam a organizar o seu "mundo pessoal" mas onde tudo é falso: "Parece-se com uma enciclopédia verdadeira, podia vender-se porta a porta, mas é tudo falso. Os autores são falsos, as personagens são falsas, a biografia é inventada, é um projeto um pouco estranho."

A grande tragédia do século XX

"Muitos dos meus livros têm como paisagens o Século XX e de alguma forma o holocausto." É desta forma que Gonçalo M. Tavares introduz o tema das fábricas de morte para dizer que há um homem antes e um homem depois do holocausto: "não tem que ver com matar, torturar, ou perseguir pessoas. O que aconteceu no holocausto é que todo o progresso científico das coisas que admiramos foi concentrado em algo novo e terrível que são as fábricas da morte. O conceito de fábrica, grande produção a baixo preço, passou a ser produzir mortos a baixo preço. O material humano era transformado em morte tentando ser o mais económico e o mais rápido possível."

Usou a palavra "terrível" para dizer que a lógica das fábricas de morte era "de racionalidade pura", e concluir que "não há seres humanos maus ou bons", que "o ser humano é uma potência de maldade e também de bondade", e que "a grande tragédia do século XX é continuarmos depois dele a associar progresso humano ao progresso tecnológico. Há progresso tecnológico que é progresso humano mas também há progresso tecnológico que é retrocesso humano."

"Não nos apaixonamos melhor do que há 20 anos"

Afonso cruz pega na mesma ideia para defender que "temos um progresso tecnológico mas não temos um progresso moral", e dá como exemplo a crise dos refugiados que se vive atualmente na Europa, "uma coisa que em nada muda as nossas vidas mas que, sendo uma pequena coisa, faz uma quantidade maior de pessoas votar nos partidos nazis." E continua: "podemos achar que um carro é melhor do que uma carroça, que os nossos telefones são melhores que os de há vinte anos, mas nós não nos apaixonamos melhor agora do que há vinte anos. Moralmente continuamos a ser uns selvagens."

"Desconectar é essencial para criar"

No final da conferência, o público teve direito a perguntas e uma delas foi sobre as rotinas dos escritores. Afonso Cruz contou que vive no campo embora acredite que esse facto não contribui para que escreva mais ou melhor: "há uma crença de que as pessoas quando vão para o campo vão ser mais inteligentes e vão ter muitas ideias, não é assim. Ver umas vacas não te faz mais inteligente". Escreve sempre que pode e em qualquer lugar não tem rotinas a não ser ler: "ler é como respirar, a minha única rotina é ler."

Gonçalo M. Tavares escreve na cidade, "o campo é totalmente destrutivo da minha vontade de escrever", e num escritório com características especiais: "tenho um escritório do século XIX, sem internet. Às vezes digo aos meus amigos que vou ao século XIX durante três ou quatro horas porque desconectar é essencial para criar". No entanto, revela, apenas escreve quando é impossível fazer outra coisa qualquer: "só devemos escrever quando estamos no ponto em que não há outra opção. Escrever tem de ser algo organicamente indispensável."