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Metallica: O nascimento do monstro

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D.R.

Celebram este ano 35 anos de carreira e já se estão a mexer: transmitiram um concerto em São Francisco em direto na internet no passado sábado. Em 1983, em vésperas de entrarem em estúdio para gravar o primeiro disco, começavam a delinear um percurso que revolucionou o heavy metal nos loucos anos 80. A história conta-se aqui

«Tínhamos o bilhete de autocarro na mão e demos-lhe quinze minutos para sair. Não foi a forma mais simpática de o fazer, mas era o que tínhamos de fazer», haveria de confessar James Hetfield. A viagem, entre São Francisco e Nova Iorque, tinha sido feita em missão e mesmo para quem cavalgava a onda fundadora do thrash metal havia que definir limites.

«Os Vandenberg estavam no palco, a meio da tarde, a fazer o soundcheck, e o Dave [Mustaine] já estava todo estragado, no meio do chão. Quando acabaram começou aos gritos, a dizer-lhes que não prestavam e que tinham de desaparecer do palco. Não estava à espera que fosse suficiente para que ele fosse corrido da banda», recordou na sua autobiografia Scott Ian, guitarrista dos Anthrax. «Eram todos amigos dos copos e faziam muita parvoíce. O Dave era pior. À noite divertia-se a encher a porta dos estúdios das outras bandas com lixo. Os Metallica eram os únicos que lá estavam a dormir e por isso todos sabiam quem tinha sido. Conclusão: muitos músicos iam bater à porta deles para lhes bater», conta o homem da guitarra dos Anthrax.

No currículo, apenas carregavam No Life 'Til Leather, a maqueta que tinha convencido Jon Zazula, dono da Rock n' Roll Heaven e fundador da independente Megaforce Record, a apresentar a proposta. Com «Hit the Lights» e «Seek and Destroy» entre o reportório, tinham sido os destemidos solos de Mustaine a chamar à atenção. E a dias de, pela primeira vez, serem chamados a estúdio a baixa era de peso. «Bebíamos muito, mesmo muito, mas o Dave tinha um lado negro. O Cliff [Burton] achava que ele era louco», conta Lars Ulrich em Justice For All: The Truth About Metallica, livro de Joel McIver. «Sem nos conhecer, Zazula tinha pago para que guiássemos até Nova Iorque. A primeira coisa que lhe dissemos foi "despedimos o guitarrista", lembra Hetfield.

Mas a maqueta, a que agora merece a reedição em cassete, era suficientemente boa para que o empresário preferisse procurar uma solução à alternativa de recambiar a banda de regresso a São Francisco. Uma decisão que a história provaria ser acertada. Nesse dia, conta Lars no documentário When Metallica Ruled the World, do canal VH1, a manhã foi passada numa visita ao topo do Empire State Building. Naturalmente a beber. Em dois meses haveriam de receber Kirk Hammett, que se apresentou com «Seek and Destroy» bem decorada, e finalmente entrar para o estúdio.

Três meses depois apresentavam um disco que ajudaria a definir um novo estilo musical, o thrash metal. Se os Motörhead já tinham andado perto, agora, com muito de Mustaine nos créditos, os Metallica preparavam-se para acelerar tudo.

Na guitarra, Hammett nunca deixou que se sentissem saudades de Mustaine. Hetfield tornar-se-ia no mais conhecido dos vocalistas de metal. E Lars no motor de um monstro que começara a criar com um anúncio num jornal dois anos antes: procurava músicos para banda de rock. «Ligou-me um tipo chamado Hugh a dizer que queria tocar, que gostava de metal. No dia, apareceu com o amigo James. Era inacreditavelmente tímido, não olhava nos olhos de ninguém, mas tinha uma grande paixão pela música», contou Lars.

Do mesmo encontro, Hetfield recordou o «cheiro a sovaco dinamarquês» e o nível de bateria «não brilhante» que o anfitrião à época apresentava. De Hugh a história não guardou memória, mas o segundo anúncio já seria colocado a meias e seria numa noite a dois, naturalmente a beber, que haveriam de encontrar o ingrediente secreto: Cliff Burton para o baixo. Estavam reunidos os quatro cavaleiros de que Mustaine haveria de retirar a inspiração para um dos primeiros sucessos da banda («The Four Horsemen»).

Álbum de família

Filho de um antigo tenista dinamarquês, Lars cresceu sem entraves. Às presenças no US Open e na Taça Davis, Torben (que não subiu da 96ª posição do ranking) somava concertos e a comprar discos: ao primeiro concerto, aos 12 anos (em Copenhaga), seguiu-se a compra do primeiro vinil, Fireball, dos Deep Purple. Depois, viriam Meat Loaf, Aerosmith, Kiss e ZZ Top e logo à chegada a Los Angeles, em 1980, uma decisão de vida: não seguiria as pisadas de pai e avô como desportista, queria ser músico.

Hetfield não teve tanta sorte. Se financeiramente a vida também tinha sido confortável, o pai era dono de uma empresa de distribuição e a mãe uma cantora amadora, a vida familiar revelar-se-ia atribulada. Primeiro o divórcio, depois a morte da mãe aos 16 anos e a educação num estranho ambiente religioso, deixaram marcas. «Fui educado como cristão científico [«christian scientist»], uma religião estranha. A regra básica era que o teu corpo é uma concha e que Deus arranja tudo, sem médicos. Era estranho, eu nem podia fazer exames para entrar na equipa de futebol», contou o vocalista em entrevista à Playboy.

«Tinha medo de tudo. Era um miúdo muito tímido que começou a fazer da música a sua voz. Passava os dias a escrever, poesia ou o que fosse, e juntava acordes», disse ao Guitar Center, onde lembrou a primeira guitarra digna desse nome, uma Gibson SG que um amigo vendeu por 200 dólares. Obcecado com os segredos da guitarra de Tony Iommi, o homem atrás dos riffs dos Black Sabbath, Hetfield cresceu agarrado à guitarra e, mesmo depois do liceu, os intervalos para almoço na fábrica de autocolantes onde começou a trabalhar eram passados no carro a tocar ou a escrever letras. Mas Hetfield nunca aspirou a ser virtuoso. «Sempre gostei de guitarras ritmo, eu queria tocar bateria na guitarra, gostava do som percussivo, rápido a reagir, agressivo e capaz de encher uma sala», diz.

Bem diferente tinha sido a história de Hammett. Com origens irlandesas e filipinas e uma família estável - o pai era oficial da marinha - só aos quinze anos a guitarra lhe chamou à atenção. «Tinha ido ver um filme sobre o Hendrix. Quando cheguei a casa, tirei do armário a guitarra que me tinham oferecido e decidi que ia aprender a tocar», contou quem, nesse momento, descobriu um novo «objetivo de vida». Para o miúdo «muito nerd», que passava as tardes em casa a tentar copiar tudo o que ouvia, as guitarras preferidas eram as dos Rolling Stones e Aerosmith, os heróis Hendrix e Jeff Beck e a banda de eleição os Kiss.

Por essa altura, em São Francisco, Cliff Burton partilhava o grau de obsessão com o instrumento, mas rapidamente tinha subido de nível. Aos dois anos de aulas de baixo, Burton tinha acertado em companheiros de banda bem diferentes dos projetos de garagem com que os restantes membros dos Metallica queimaram os primeiros anos. Como companheiros de aventura, Burton tinha Jim Martin, que acabaria a tocar guitarra nos três primeiros discos dos Faith No More, e Dave Donato, que chegaria à guitarra de umas das últimas formações dos Black Sabbath. «Pássamos os anos de formação musical juntos. O Dave Donato também esteve muito presente. Costumávamos ir para uma casa nas montanhas para experimentar música estranha, tudo o que nos apetecesse, tudo o que nos viesse à cabeça. Muitas das músicas que conhecem dos Faith No More e dos Metallica nasceram ali», contou Martin que ao amigo gabava a diversidade de gostos musicais, «que chegava a Bach e Beethoven», e o célebre «Gafanhoto», o Volkswagen carocha verde em que andava.

Para chegar aos Metallica, Mustaine teria de sobreviver a uma infância mais dura. O pai tinha comportamentos violentos ao ponto de fazer com que Mustaine, a mãe e a irmã mais velha andassem fugidos de cidade em cidade.

Aos 15 anos já Mustaine vivia sozinho, em Los Angeles, e aos 17 fazia da venda de droga a sua principal fonte de rendimento. Da família tinha ficado com o gosto pela música e, em especial o fascínio por dois discos: o quarto álbum dos Led Zeppelin e o «álbum preto» dos Beatles. No que a guitarras dizia respeito, era aos Judas Priest e aos AC/DC que ia buscar inspiração. Mustaine seria despedido antes de sequer gravar o primeiro disco.

D.R.

O deboche e a tragédia

Depois da curta digressão com Kill 'Em All, em 1983, rapidamente a banda lançou Ride The Lightning (1984). Se no primeiro disco o registo musical se mantém mais homogéneo, com quatro das dez músicas a serem de Mustaine, ao segundo álbum já os Metallica se arriscavam diferente fórmulas. Tanto encaravam a violenta «Fight Fire With Fire», como os nove minutos instrumentais de «Call of Ktulu» ou mesmo as primeiras experiências acústicas em «Fade To Black». A banda tinha crescido e a base de fãs começava a alargar - o final do ano já seria passado em digressão por Inglaterra, a celebrar a venda de 60 mil cópias de Ride the Lightning na Europa e com os olhos postos na digressão do ano seguinte pelo norte da América. Nos Estados Unidos haveriam de cumprir cinquenta datas em dezanove estados e ainda tocar em cinco cidades do Canadá. Como banda de abertura dos W.A.S.P, seria nessa digressão que banda ganharia a sua mais famosa alcunha, Alcoholica.

Blackie Kawkess, vocalista dos W.A.S.P, recordou à Metal Hammer a aventura que foi dividir o espaço com os jovens metaleiros. «Era como se houvesse uma linha invisível a dividir os quartos, de um lado eles, do outro nós. Parecíamos dois exércitos diferentes. Era uma guerra», contou. E nem só o consumo de álcool começava a atingir novos recordes.

Com Ride the Lightning também o volume de groupies disparou. «A maior diferença entre a Europa e os Estados Unidos foram as miúdas. Na Europa, com sorte apareciam algumas em Paris ou na Alemanha, nos Estados Unidos estavam em todos os concertos e no autocarro», conta Lars, que não esquece que a alcunha que reservavam às fãs mais dedicadas, as Ednas, tinha servido para batizar o autocarro da banda, o Expresso Edna. «A privacidade era rara. Ficávamos todos no mesmo quarto, dois por cama e partilhávamos tudo, todos dormimos com todos numa altura ou outra. Os piores eram o Cliff, que tinha cotovelos e joelhos pontiagudos, e o Lars, que trazia sempre mais alguém para a cama», recordou Kirk Hammett.

Se os dois primeiros discos tinham sido gravados com músicas compostas quase em simultâneo, para Master of Puppets a banda enfrentava um desafio bem diferente. Não tinha material de reserva e agora, com o estatuto de estrelas do metal, a pressão era outra.

Para trás tinha ficado a pequena editora e o contrato era com a Elektra, uma subsidiária da gigante Warner. No total, durante 1985, os Metallica passaram mais de cem dias em estúdio à volta das oito músicas que lhes valeriam o primeiro Disco de Ouro. «Foi o testemunho definitivo daquela formação. Já nos conhecíamos muito bem, sabíamos as capacidades e os temperamentos de cada um e eu comecei a aperceber-me que nos estávamos a tornar em algo muito sério. Só nos saíam grandes músicas, uma atrás da outra, como se algo mágico ali estivesse a acontecer», contou Hammett. Ainda durante esse verão, haveriam de descobrir o ambiente em que até hoje melhor se movimentam, os estádios esgotados.

Convidados para o Monsters of Rock - festival que em agosto desse ano juntou em Donington, em Inglaterra, AC/DC, Van Halen, ZZ Top e Ozzy Osbourne, a tocar perante 55 mil espetadores - os Metallica brilharam. A frase de Hetfield de cumprimento ao público haveria de ficar célebre. «Se vieram aqui para ver calças elásticas, maquilhagem nos olhos e ouvir a frase "rock'n'roll baby" em todas as canções, então esqueçam. Não somos essa banda. Estamos aqui para abanar cabeças durante 50 minutos. Estão prontos?», perguntou o vocalista que subia ao palco depois da atuação de uma então desconhecida banda de New Jersey, os Bon Jovi.

Gravado na Dinamarca, depois de Lars ter recebido as primeiras aulas de bateria da sua vida e de Kirk Hammett ter estudado com Joe Satriani a melhor forma de gravar em estúdio, Master of Puppets foi lançado em março de 1986 e imediatamente seguido por um regresso à estrada. Sempre divididos entre o público metaleiro europeu e as digressões em casa, a 21 de setembro uma viagem acabaria por marcar a história da banda. Depois de mais um concerto e consequentes excessos, a banda embarcou no autocarro para ligar Suécia à Dinamarca.

Durante a madrugada, a passar por Ljungby, no sul da Suécia, o motorista adormeceu e capotou o autocarro. Hetfield acordou com queimadura do café quente e só pelo vidro de trás, e apenas de boxers vestidas, conseguiu sair. No Behind the Music que o VH1 dedicou à banda, Lars confessaria que, em pânico, o seu reflexo havia sido «saltar para a rua e correr 100 metros em sete segundos».

Hammett foi o primeiro a perceber que algo de grave se tinha passado. «Ouvia toda a gente aos gritos ou a chorar, mas não ouvia o Cliff. Foi quando me virei e vi os pés dele a sair debaixo do autocarro. Sem movimento», recordou anos mais tarde. «Havia mais gente presa, mas todos vivos. Vi o motorista em pânico a tentar puxar o Cliff. Comecei a gritar com ele e disse-me que tinha sido do gelo. Só o queria matar», confessou o vocalista, então com 23 anos. Até esse momento, o álcool era o remédio para todos os males e esse dia não foi exceção. «Lembro-me de estar no quarto de hotel, acordado às quatro da manhã e ouvir o James aos gritos, bêbedo na rua, a chamar pelo Cliff. Foi o suficiente para que voltasse a chorar desalmadamente», contou Hammett que, dias depois do acidente, estava na companhia dos restantes membros da banda, em São Francisco, a assistir à cremação do baixista ao som de «Orion», o instrumental de Master of Puppets.

Sem misericórdia

Parar nunca foi opção. Com uma digressão agendada para o Japão logo em novembro, a banda imediatamente arrancou com o casting para encontrar um baixista. E o processo não foi agradável. Ao todo foram mais de quarenta os candidatos e nenhum foi bem tratado. «A mim perguntaram-me se tinha a certeza que sabia tocar este género de música. Disse-lhes que não e perguntei se não preferiam tocar os Isley Brothers. Ninguém se riu da minha piada», contou Les Claypool, baixista e vocalista dos Primus, confessando que «chorou» por nunca ter sido chamado. Hetfield haveria de justificar a inesperada recusa por Claypool ser «demasiado bom e ter um caminho próprio para seguir». Mas a maior probabilidade é mesmo que mal o tenham ouvido.

«Não estavam a dar hipóteses. Bastava não ter o aspeto certo e ao fim de vinte segundos chamavam o próximo. Estavam frios e eu tremia por todos os lados», contou Jason Newsted que, fã da banda, se apresentou com todo o reportório decorado. Pouco depois, num restaurante de São Francisco, haveria de receber a notícia de que tinha ganho um emprego, mas ninguém o preparou para o que se avizinhava.

Mesmo que não o soubessem, o exército Metallica estava de luto e pouco disponível para acolher o substituto de Burton. «Todos os dias nos apercebíamos que o Cliff não estava. A forma que encontrámos de lidar com isso foi descarregar no Jason. Não fomos simpáticos», contou Ulrich. «Foi o bode expiatório. Fizemos-lhe tudo, espalhámos por toda a gente que era gay, colocávamos tudo o que bebíamos nos hotéis na conta do quarto dele, nem me lembro de tudo o que lhe fizemos», confessou Hammett. Mas se a digressão pelo Japão «não foi fácil», como reconheceu Newsted, a maior desfeita haveria de chegar em estúdio.

Gravado entre janeiro e maio de 88, ...And Justice for All revelar-se-ia um desafio para a equipa de produção liderada por Flemming Rasmussen, responsável pelo som de Appetite for Destruction, dos Guns n' Roses. Com composições bem mais sofisticadas e com o estatuto de estrelas a justificar todas as exigências, a banda não facilitou na gravação do disco que, inconscientemente, encerraria uma fase da carreira. Steve Thompson, engenheiro de som nas sessões, não esqueceu a conversa com Ulrich.

«Perguntou-me se ouvia bem o baixo, respondi que sim e disse que o Jason tinha estado em grande. Respondeu-me: quero que lhe baixes o volume até que seja quase inaudível. Perguntei-lhe se estava a brincar. Respondeu que não e mandou baixar ainda mais», contou numa recente entrevista ao Ultimate Guitar. ...And Justice for All não é o melhor disco dos Metallica e, caso chegue a merecer as reedições que a banda agora prepara dos primeiros discos, talvez o papel de Newsted venha a ser reconhecido. Nas gravações originais foi escondido. Nessa altura, a agressividade em palco tinha passado para o interior do estúdio e, tal como na hora de atacar riffs, ninguém merecia misericórdia. Nem mesmo os membros da banda.

Originalmente publicado na revista BLITZ de maio de 2015