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José Duarte: “Fiz o jazz entrar em casa das pessoas”

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antónio pedro ferreira

Era a música odiada, mal vista. E amada por um grupo restrito de jovens aprendizes que a ergueram como bandeira. Um deles, José Duarte, aceitou dar-lhe existência cinco minutos por dia. No próximo dia 21, “Cinco Minutos de Jazz” faz 50 anos e torna-se o programa de rádio mais antigo de sempre

Luciana Leiderfarb

Luciana Leiderfarb

Texto

Jornalista

António Pedro Ferreira

António Pedro Ferreira

Fotos

Fotojornalista

Era uma vez um rapaz de Lisboa, a quem os pais levaram a uma aula de piano e o professor, cujo nome ficou esquecido, lhe elogiou o ouvido em detrimento de umas “mãos sapudas” impróprias para o instrumento. Era uma vez esse mesmo rapaz a acordar para a música mais mal vista da cidade e do país, num tempo em que a guerra reinava e arrancava os jovens ao calor das suas casas. Esse rapaz, nesse tempo, arriscou um pequeno movimento. Um gesto que, fazendo justiça à teoria do caos, desencadeou um cataclismo. Claro que isso não aconteceu logo: tiveram de passar 50 anos. O suficiente para José Duarte deixar de ser um rapaz — será? —, de o país se transformar ao ponto de estar irreconhecível e de esse gesto ter hoje, por assim dizer, a idade de uma pessoa.

Pode um programa de rádio entrar na meia idade? “Cinco Minutos de Jazz” pode, ou não fosse o mais antigo da rádio portuguesa, criado a 21 de fevereiro de 1966, meio século atrás. E se ao longo dos anos mudou algumas vezes de morada — esteve na Rádio Renascença até 1975, depois na Comercial entre 1984 e 1993, e finalmente na Antena 1 até hoje, com breve passagem pela Antena 2 — a sua duração manteve-se inalterável, aqueles cinco minutos que José Duarte acatou e encheu de tudo quanto o jazz lhe dava a ouvir.

Em 50 anos, fazendo sobretudo isso, fez outras coisas. Teve outros programas (lembram-se de “Pão com Manteiga”, no qual participou, ou “A Menina Dança?”, na Comercial?), escreveu na imprensa, trouxe músicos e música (Steve Lacy, Frank Wright), escreveu livros; foi responsável pela primeira cadeira de jazz numa Universidade do país, neste caso a de Aveiro, à qual doou o seu espólio; fez entrar o jazz, esse maldito, na Antena 2, onde teve durante quatro anos uma hora inteirinha intitulada “Jazz com Brancas”; homenageou (pasme-se) Luís Villas-Boas, amigo e rival, and so on.

Hoje, o rapaz tem 77 anos. Oscila entre a euforia e a tristeza. Continua de concerto em concerto, a fazer conferências, a falar sobre jazz, a sua “razão de viver”. Dono de um feitio assumidamente difícil, diz ter menos amigos do que inimigos. E tem duas filhas que já voaram mas estão por toda a casa, capturadas em fotografias que concorrem com a vista deslumbrante para o Tejo, uma paisagem que é “todos os dias diferente” como a música que se dedicou a divulgar. Foi este o cenário de uma conversa que decorreu sem filtros e trouxe à tona velhas querelas, muitas memórias e alguma desilusão.

O que seria a sua vida sem o jazz?
Seria muito triste, porque não conheceria a arte mais bela que nasceu no século XX. Há quem diga que o José Duarte só gosta de jazz, o que antigamente me irritava, mas agora estou de acordo. É uma música inesgotável e mesmo em disco — que capta apenas um momento — nunca se deve fazer só uma audição. Descobrem-se sempre coisas diferentes, inesperadas.

A sua resposta leva-me a repetir: o que seria a sua vida sem o jazz?
O jazz é a minha razão de viver. Dá-me alegrias permanentes e a possibilidade de falar com as outras pessoas em paz. Daqui a horas, no Barreiro, vou fazer uma conferência ao lado do homem [Raul Calado] em cuja casa eu estava quando um radialista conhecido me convidou, em 1966, para fazer os “Cinco Minutos de Jazz” na Renascença. Eu fui aprendendo à medida que passava os discos, veja o descaramento. Não tive mestre nenhum, embora treinasse com os amadores que sabiam mais do que eu. E hoje sou o José Duarte.

E quem é o José Duarte?
Quem é? Sou um homem encantador, não é verdade?

Talvez a minha pergunta devesse ser, antes, quem é o José Duarte além do jazz ao qual está umbilicalmente ligado. O que há nos outros compartimentos da sua vida?
A morte. A morte de um filho que tive. Por isso é que o meu primeiro livro se chamou “João na Terra do Jaze”. E, claro, as minhas filhas, que são da música. A Adriana compõe, arranja, canta, e toca flauta e piano. A Rita é advogada e tem o curso de música. Sou pai. Quando o João morreu para mim deixou de haver filhos. Até que a Frances, a minha mulher, me convenceu e as meninas nasceram.

Faria alguma coisa diferente se pudesse voltar atrás?
Não. Mas cometi muitos erros. Sabe, vive-se muito mal em Portugal. Eu vivo muito mal em Portugal. Não só é um país pobre — e estou a ser simpático — como é um país de portugueses. Dou-me mal com as pessoas todas. Dizem que tenho um feitio difícil e se calhar é verdade, porque aos 77 anos não tenho amigos.

Sente-se abandonado?
Abandonado não, esquecido. Não tenho visitas. E olhe que fui muito popular. Na rua, nos táxis, ainda me perguntam: “José Duarte, como é que vai o jazz?” Ultimamente tenho andado com estas bengalas. Tiraram-me uma anca — sem pedir autorização à minha mãe — e aí as pessoas apareceram. Mas estou melhor e isso atenuou-se. É duro.

Porque diz que vive mal em Portugal?
As pessoas são invejosas, ciumentas. São cínicas, fingem para não ofender, mentem. Se calhar é doença minha, mas quando conheço alguém novo já vou de pé atrás.

Este país de portugueses não o inclui?
Se eu pudesse escolher uma nacionalidade seria italiano. Pela arte, a história, o cinema, as mulheres, os homens. São alegres, histriónicos, falam com as mãos. Gasta-se a vida a ser italiano, dá trabalho.

E ser português não?
Há muitos analfabetos e há os outros: os que sabem ler e não compreendem o que estão a ler, e os que sabem escrever mas escrevem mal. Os que escrevem bem são pouquíssimos. Temos um Nobel que escrevia bem. Vou dizer uma coisa que pouca gente sabe. Quando Louis Armstrong esteve em Portugal com a mulher Lucille, em 1963, eu acompanhei-o, andámos juntos por todo o lado. E no final, já no aeroporto — eu trabalhava na TAP — perguntou se não queria ir com eles para os Estados Unidos. Eu era um miúdo, filho único, e não fui. Ainda hoje hesito sobre se fiz bem ou se fiz mal. Mas acho que fiz mais pelo jazz em Portugal do que teria feito em Nova Iorque.

Refere ser filho único. Como era a sua família?
Classe média, remediada, como se dizia na ditadura. O meu pai era sargento enfermeiro da Armada. Deu não sei quantas voltas ao mundo no petroleiro “Sam Brás”, que trazia combustível para a Europa. Era um homem simpático, bem vestido, as pessoas gostavam muito dele. A minha mãe era doméstica, e não tínhamos mais nada senão dinheiro para viver. Tive também dois tios que me influenciaram muito, ambos comunistas, um deles esteve no Tarrafal. Eram verdadeiros operários, trabalhavam com as mãos.

MEMÓRIAS. 
Na sua casa em Lisboa, José Duarte tem um escritório onde guarda tudo o que o seu percurso lhe deixou. Discos, livros, fotografias, cartões. Num deles, lê-se: “You can sleep when you are dead!”

MEMÓRIAS. 
Na sua casa em Lisboa, José Duarte tem um escritório onde guarda tudo o que o seu percurso lhe deixou. Discos, livros, fotografias, cartões. Num deles, lê-se: “You can sleep when you are dead!”

antónio pedro ferreira

Vivia no Bairro Alto, perto do Conservatório de Música. Nunca quis lá estudar?
Morar ao pé da música não quer dizer nada, até acho que se fica longe da música. Ainda para mais no nosso Conservatório, que desconhece o jazz. Por outro lado, na classe a que a minha família pertencia isso não era possível. Hoje estou um bocadinho acima, mas não sou rico. A troika desequilibrou-me o orçamento e tenho algumas dificuldades. De quatro programas de rádio, sobrou um, os “Cinco Minutos de Jazz”, que sobrevive porque tem 50 anos.

A TAP no seu percurso parece algo exógeno. Como foi para lá?
Fui para a TAP porque chumbava muito na Universidade. Os meus pais pagavam, mas com muito esforço. Então decidi trabalhar. Tornei-me oficial de tráfego e cheguei a ser chefe de divisão, com a grande vantagem de que a TAP dava bilhetes aos trabalhadores. E posso dizer que foi isso que me fez ficar: estávamos no país da ditadura, onde não havia nada, e eu tive a oportunidade de sair. A primeira viagem foi a Paris. Seguiram-se Londres e Nova Iorque. Comprava livros, LPs, ia ao cinema, ouvia imenso jazz... Recentemente estive na Cinemateca a ver as obras do Eisenstein, que por cá naquele tempo era proibido. Íamos à casa de um tipo que tinha o filme, sem fazer barulho, muito quietinhos, não fosse a PIDE desconfiar.

O que representou para o rapaz de classe ‘remediada’ essa abertura ao mundo?
Deu-me cultura. E deu-me isso depois de décadas de fome, de carência. Andava sempre com um bilhete da TAP no bolso. Tinha medo de que a PIDE me apanhasse, porque havia o problema da minha idade e de poder ser chamado para a guerra. Se me chamassem, eu fugia para Paris. Sabe, hoje até digo isto com entusiasmo, mas já chorei por ser português. Uma vez, em Nova Iorque, fui a uma manifestação de negros que lutavam pelos direitos sociais e no chão estava um papel verde que dizia “Boycott Lancer’s & Mateus Rosé, Products of Portugal”. Eles sabiam que Portugal era um país racista e que estava a matar negros em África. E se um branco já era um elemento estranho num clube de jazz nova-iorquino, nem pensar em dizer que era português. Dizia que era brasileiro, porque eles gostavam mais dos brasileiros — como se não houvesse racismo no Brasil! Há racismo em todo o lado.

Fala no presente.
É um problema de sempre, não tem fim. Conheço um músico negro norte-americano que vive em Sines e dá aulas de jazz, que viaja muito. Um dia tive a coragem de lhe perguntar em que país é que não sentiu o racismo. “Em nenhum”, respondeu. Pode até ser em pequenas coisas e quase nem se dá por elas, mas estão lá.

Conta quem o conhece que tinha um excelente ouvido na adolescência. Alguma vez quis ser músico?
Nunca. Uma vez os meus pais levaram-me à casa de um senhor, no Chiado, que me pôs em frente a um piano e me mostrou a escala. Depois virou-me, tocou uma nota e perguntou que nota era. Eu soube. Fez isto várias vezes e disse aos meus pais: “O seu filho é muito bom em música, mas não pode tocar piano porque tem as mãos muito sapudas.” E recomendou o violino. Com certeza não conhecia as mãos sapudas do Bill Evans!

Mas o José Duarte chegou a ‘pecar’: teve um grupo rock, onde cantava. Tocou saxofone, trombone, bateria....
Criei o dueto The Strollers, com a Teresa Paula Brito, que era uma cantora fabulosa. Mas não tive sucesso, era muito pobrezinho. E nos instrumentos era um curioso, tocava às escondidas, tinha vergonha. Era novo, estava a fazer tudo pela primeira vez.

Consta que uma das suas primeiras paixões musicais foi o Frank Sinatra.
Sempre fui um solitário. E a minha primeira alienação foi ele, sim. Apesar de não ser uma voz do jazz, é uma voz pró-jazz, admirada por todos os jazzmen. Muitos seguem mesmo a sua maneira de frasear, que nele é natural e única. Sinatra cantou todos os autores importantes e vulgarizou o American Songbook.

E o jazz? Foi o Paulo Gil que o levou para o Hot Clube?
O Paulo era o meu colega de liceu e um músico extraordinário, que me mostrou muita coisa. Levou-me ao Hot Clube, mas não gostei. Estava lá o Villas-Boas e aquela gente mais velha a jogar póquer e a ouvir “Voice of America Jazz Hour”. Ignoraram-me, deixaram-me sozinho. Eram muito fechados e nunca mais lá pus os pés.

O Clube Universitário de Jazz, em 1958, surge como reação a esta atitude?
Essa foi uma ideia do Raul Calado, a que eu aderi. E tudo começou porque assisti a uma sessão fonográfica dele na associação de estudantes do Instituto Superior Técnico. No fim, ele contou que se tinha candidatado contra o Villas-Boas nas eleições para presidente do Hot Clube, e que se perdesse iria fundar um Clube Universitário de Jazz (CUJ). Pediu que quem estivesse de acordo deixasse o contacto e eu deixei. Ficara logo rendido àquela música, que era toda ao contrário: as palmas batiam-se no tempo fraco, havia improviso, descaramento.

E um lado político?
Uma afirmação política. Era música contra o poder. No CUJ — com sede na Praça da Alegria, a metros do Hot — faziam-se exposições de arte africana, divulgava-se jazz, conversava-se com as pessoas. E a sede do CUJ era frequentada por estudantes da Casa do Império, membros do MPLA, da Frelimo...

O jazz era mal visto?
Era ‘música de pretos’, e no início dos “Cinco Minutos de Jazz”, em 1966, recebi imensas cartas a insultar-me, cheias de palavrões e ordinarices, que nunca eram assinadas. Eram racistas, nazis que defendiam o império. Sabe, ainda hoje, uma pessoa de quem você gosta pode ser racista. Um grande amigo meu, que já não me visita, disse-me um dia: “Eh, pá, os indianos é que não...” O que se responde a isto?

Conte-me como começaram esses “Cinco Minutos de Jazz”.
Nasceu numa noite do século passado. Estava eu em casa do Raul Calado e telefonou para lá o João Martins, um famoso radialista que fazia o programa “23ª Hora” na Rádio Renascença. Era meu amigo de infância, brincávamos juntos na Rua das Flores. Portugal parava para o ouvir. Fez-me uma proposta: “Queres fazer uma rubrica de cinco minutos de jazz na ‘23ª Hora’?” Disse-lhe logo que cinco minutos era pouco — e durante anos bati-me por mais tempo, sem sucesso — mas aceitei e fomos para o ar a 21 de fevereiro de 1966. Há 50 anos que o programa abre e fecha com uma faixa de Lou Donaldson, do seu LP “Lou’s Blues”. Agora, para as comemorações, consegui que ele viesse a Lisboa e vai tocar no Hot Clube a 22 e 24 deste mês.

Não é curioso ter sido logo a Renascença a aceitar um programa de jazz?
Não sabiam! Até que um dia, sem querer, disse que um padre tinha sido pai. Falava do John Coltrane, que era filho de um pregador. Fui chamado ao monsenhor, que me disse: “Meu filho, então não sabes que os padres não têm filhos?” Não lhe respondi que conhecia muitos padres com filhos. Passei a ter de entregar os textos do programa com antecedência, para aprovação. Aprovou sempre.

Alguma vez sentiu a censura?
Só o facto de ter de dar a ler o que escrevia antes de ir para o ar era uma forma velada de censura. Noutra ocasião, numa sessão fonográfica em Castelo Branco, alguém fez um cartaz a dizer “sessão pornográfica”. No dia seguinte, quando eu já tinha voltado a Lisboa, os organizadores foram chamados à PIDE. Esse cartaz está na Universidade de Aveiro, com todo o meu acervo, que são duas camionetas cheias.

O que aconteceu ao CUJ?
Foi encerrado por não termos entregado os estatutos a tempo. O que era mentira: a polícia política queria fechá-lo e arranjou um motivo.

Luís Villas-Boas [fundador do Hot Clube] disse uma vez que o encerramento se deveu à falta de viabilidade económica.
Já vê porque é que os portugueses se dão mal. O CUJ nunca teve dinheiro, se fosse por isso nem sequer teria aberto!

De onde vem a rivalidade com Villas-Boas?
Éramos amigos e zangávamo-nos muito. Há quem diga que a razão foi o meu filho, porque ele não teve filhos e tinha ciúmes de eu ter um. E, de facto, ele falou-me antes e depois, mas não enquanto o João foi vivo. Não conheceu as minhas filhas.

Porque se zangavam?
Gostávamos de diferentes tipos de jazz. No Festival de Newport — ele era convidado e eu estava lá a fazer a reportagem — ficámos no mesmo quarto e demo-nos muito bem. Mas era teimoso!

E o José Duarte não era?
Sou. Só que sou teimoso de forma diferente. Mas sejamos justos: tirando tudo isto, ele era um tipo sensacional, um bom ouvinte e um homem importante para o jazz em Portugal. Foi o primeiro a pôr o jazz a correr, a fazer um programa de rádio, a fundar um clube.

Por falar em teimosias, não é verdade que desistiu do curso de Economia para assistir a um concerto do Ray Charles em Paris?
Era o primeiro concerto europeu dele, sabia as canções dele de cor e dançava-as — era um bom dançarino e um grande saloio, eu! E tinha um exame a que faltei, embora já estivesse quase certo de que não ia continuar.

Falava de ser bom ouvinte. Como se chega lá?
Ouvindo sem jamais dizer “não sou capaz”. É preciso tentar, insistir. E um dia o milagre dá-se, passamos a falar a linguagem do músico.

Li que se obrigou a ouvir e a entender o free jazz.
Foi em Londres, numa noite em que Miles Davis, esse génio comercial, abria o concerto, e quem o fechava era um tipo do free jazz, o Archie Shepp — que em novembro passado tocou em Guimarães. Eu estava a fazer a reportagem para o “Diário de Lisboa” e não tinha bilhetes para esse concerto, mas entrei na mesma. A casa estava cheia para o Miles e no intervalo saiu metade do público. Assisti à atuação do Shepp sentado na fila da frente, a levar com o free na cara. Pensava: “Só sais daqui quando gostares disto.” Lutei muito contra mim mesmo, contra o meu organismo. Até que, de repente, me dei a entender esse jazz novo, com novas regras e novas sonoridades.

É por dar luta que o jazz continua a ser uma música para minorias?
De há uns anos para cá, o jazz está a descansar, à espera de um salto qualitativo. Mas não sendo uma música para todos também não é uma música para minorias ou para músicos. É para ser ouvido repetidamente, o que só as pessoas muito inteligentes conseguem conceber.
Que lugar ocupa o jazz em Portugal? Já afirmou que se hoje o convidassem a fazer um programa, lhe daria o título do primeiro que assinou, em 1958: “O Jazz, esse desconhecido”.
Porque o jazz não é conhecido em Portugal. As pessoas não vão aos concertos, vão às salas. Se fulano toca no CCB ou na Gulbenkian é bom. E ainda há muita gente a bater mal as palmas, a acentuar o tempo forte. O Duke Ellington, num concerto, disse: “Enquanto vocês se sentam, vamos tocar uns blues. E, se gostarem, batam as palmas no tempo fraco, senão paramos.”

Essa gíria do jazz é um campo minado para quem não a conhece. O que é que um espectador tem de saber para não cometer gafes num concerto de jazz?
Se não conhece, o melhor é não fazer nada. Mas uma grande gafe é, por exemplo, a que faz o público português ao obrigar um pianista como o Brad Mehldau a tocar 45 minutos de encores. Será porque esse extra reduz o preço do bilhete para metade? É assim que fazem as contas Querem mais sem saber o que estão a pedir.

E o que diz da profusão de festivais de jazz? É uma moda?
É também uma moda. Porém, havendo festivais praticamente em todas as capitais de distrito, só há um grande festival, que é o de Guimarães. O que não deixa de ser bom, porque entre 500 pessoas que assistam, umas seis podem vir a gostar mesmo de jazz. Sabe, neste país, os surdos trazem vedetas rock com cachets que ultrapassam os 2275 euros por minuto que o Taarabt — um jogador de futebol — ganha no Benfica B. Tudo para pôr gente nova aos pulos e de braços no ar. Ainda hoje, instrumentistas de jazz como [Chick] Corea ou [Keith] Jarrett não merecem qualquer notícia na imprensa...

Uma vez perguntaram-lhe sobre o futuro do jazz e respondeu que este ia esbater-se, diluir-se.
É provável que isso aconteça. Porque o jazz tem um poder de influência terrível nas outras músicas, no rock, na clássica — a que prefiro chamar ‘música escrita’. Todas têm algo a beber do jazz, que é hoje uma máquina de fornecer músicos, ideias e inspiração.

ATIVO. 
Os concertos e as conferências ainda lhe preenchem a agenda, e ainda se surpreende com alguns álbuns, que passam logo a fazer parte da imensa coleção “de milhares” que José Duarte acarinha. Mas não tem visitas

ATIVO. 
Os concertos e as conferências ainda lhe preenchem a agenda, e ainda se surpreende com alguns álbuns, que passam logo a fazer parte da imensa coleção “de milhares” que José Duarte acarinha. Mas não tem visitas

antónio pedro ferreira

Criou uma cadeira de jazz na Universidade de Aveiro, que foi pioneira. Afinal, o jazz ensina-se?
Não se ensina, mas pode aprender-se. O que fiz em Aveiro foi ensinar a ouvir. Tive uma aluna que era violoncelista e dizia que não gostava nem queria gostar. E que se matriculou para eu a convencer do contrário. Sabe, nasci para uma música pouco amada.

Conseguiu convencê-la?
Claro! Achava que não? Há poucas pessoas que se predispõem a ser convertidas, a fazer esse esforço.

Alguma vez no programa passou música de que não gostasse?
Raramente, mas aconteceu. E assumi. Não gosto, mas alguém pode gostar.

Há algum episódio que resgate destes 50 anos?
Há vários, mas conto um. Fui a uma rádio em Los Angeles, que passa jazz 24 horas por dia. O edifício era lindo, alto, todo em vidro. Era o início dos anos 70, o João ainda era vivo. Eu tinha levado comigo uma cassete da Nina Simone a tocar piano. O apresentador fez-me perguntas, estranhou onde era Portugal, expliquei-lhe que se nadasse sempre em frente chegaria a Lisboa. E quando lhe contei que tinha um programa de cinco minutos fechou o microfone, pensava que eu me tinha enganado no inglês! No fim, pôs a minha cassete da Nina Simone e ia caindo da cadeira: nunca a tinha ouvido só a tocar o piano. Saí daquela rádio orgulhoso.

Em 2006 disse: “Se os meus ‘Cinco Minutos de Jazz’ não tivessem surgido, o jazz também não existia em Portugal.” Ainda pensa assim?
Não, hoje não diria isso. Diria que é uma rubrica radiofónica que, ao prolongar-se por meio século, é responsável por alguma da fartura que existe no jazz em Portugal. O programa fez o jazz entrar em casa das pessoas. Não é em vão que os companheiros da Rádio Comercial me chamavam “a melhor orelha branca da Europa”. Numa palavra: sinto que fico na história como o Villas-Boas. [risos]

O que ainda o surpreende?
Em novembro, o Jason Moran fez um concerto à moda de New Orleans, onde o jazz surgiu, com roupa e tudo, e foi o fim. O fim do princípio. Adorei. Sabia tudo mas nunca tinha visto.

É um homem realizado?
Raios partam a pergunta. Sou. Ontem apetecia-me ir embora. Não fossem as minhas filhas... Porque já fiz tudo o que tinha a fazer. [pausa] Bom final, não é?