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Cultura

A casa
 das peças esquecidas

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Nas mesas desenhadas
 por Carrilho da Graça estão os múltiplos de
uma loja de arte com peças para todos os gostos

antónio pedro ferreira

Das relações pessoais de um curador de arte com os artistas nasceu uma loja onde se expõem “segredos” resgatados. O Gabinete de Delfim Sardo, ao Príncipe Real (em Lisboa), tem arte a rodos, para todas as bolsas

Katya Delimbeuf

Katya Delimbeuf

Texto

Jornalista

António Pedro Ferreira

António Pedro Ferreira

Fotos

Fotojornalista

O que são múltiplos? São obras de arte feitas em edição limitada por artistas. Não são peças únicas, mas são peças de autor que, por isso, têm valor artístico — só que não viam a luz do dia. Em Lisboa, há um espaço que as torna especiais. “O Gabinete nasce precisamente dessa constatação. Os artistas adoram edições. Fazem-nas com cuidado. E não havia local para as mostrar. Ora, os múltiplos também geram valor”, explica o curador de arte Delfim Sardo, que, graças às relações pessoais e de amizade com vários artistas, lançou o Gabinete, em abril de 2015.

O espaço, uma antiga tipografia no Príncipe Real, é acolhedor. Longas mesas de estirador foram desenhadas pelo arquiteto (e amigo) Carrilho da Graça. Aí repousam algumas das obras à venda, que vão de serigrafias de João Louro a livros do artista brasileiro Jardas Lopes, ou a caixas de Beatriz Albuquerque impressas em 3D. Ao fundo, uma vibrante gravura de José Pedro Croft, a laranja e negro, preenche uma das paredes, enquanto outras são ocupadas por edições limitadas.

Delfim Sardo, curador
e professor universitário, ao lado de uma edição limitada de Fernanda Fragateiro, no Gabinete

Delfim Sardo, curador
e professor universitário, ao lado de uma edição limitada de Fernanda Fragateiro, no Gabinete

antónio pedro ferreira

O espaço conta também com várias edições exclusivas. Um exemplo é a série “Par Terre”, de Jorge Molder, três fotografias em platinotipia, um processo raro de impressão do século XIX. Francisco Tropa criou “Acrónimo”, uma peça composta pelas letras ‘R’, ‘E’, ‘T’ e ‘A’, em cobre, atadas por uma corda — trata-se de uma série de nove exemplares numerados e assinados. Já esgotada está “Aula de Ginástica”, de Fernanda Fragateiro, uma estrutura em alumínio polido espelhado, com um caderno em branco, de capa laranja. Disponíveis estão também uma obra de Rui Toscano, “Pequenas Nebulosas”, série de cinco impressões a jato de tinta sobre papel fotográfico, e uma última de André Cepêda, “Sem Título”, composta por 15 fotogravuras.

Fotografias, desenhos, gravuras e até vinis podem encontrar-se ali. Pousado em cima da mesa, um conjunto de organizadores de secretária do designer Miguel Vieira Baptista, em corian branco. “É uma edição de 15, com quatro peças separadoras”, explica o curador. Aqui, a peça mais barata não chega aos 20 euros, a mais cara (um conjunto de fotografias de Francisco Tropa) custa 20 mil euros.

Integralmente vestido de negro, Delfim Sardo contrasta com a claridade do espaço — e encaixa na perfeição. “É um trabalho de arqueologia, este de encontrar preciosidades escondidas em casas dos artistas”. São peças por vezes nunca expostas, revela o também professor da Faculdade de Letras de Coimbra. Só quem se move por dentro dos meandros artísticos sabe, por exemplo, que Julião Sarmento coleciona múltiplos. Delfim assume que gosta da ideia de “desdramatizar o acesso à arte”, e destaca que o espaço “agrada aos artistas porque é despretensioso, cru”. “A arte está hoje associada a uma certa exclusividade, no mau sentido”, ressalva.

Com menos de um ano de existência, o projeto está a correr “muito bem”. Delfim usa muito o seu lado curatorial, atraindo para o espaço artistas que conhece, embora divida o tempo entre Lisboa e Coimbra, onde dá aulas na Faculdade e coordena o Mestrado em Estudos Curatoriais. No Gabinete, tanto “entram turistas, brasileiros ou franceses, que compram casa em Lisboa”, como “aqueles que vêm especificamente à procura de uma obra de um determinado artista” — como sucedeu no caso de Julião Sarmento.

Sobre o panorama da arte contemporânea portuguesa, nos dias que correm, defende que “a criatividade e o talento dos artistas nacionais são extraordinários face à nossa dimensão”. Mas, constata, o mercado tem sofrido com “altos e baixos”. “As galerias vivem momentos muito complicados, e as instituições estão completamente depauperadas”, salienta. “Costumo dizer que, em Portugal, os artistas ou têm eternamente cartão jovem ou cartão dourado. Faltam espaços de média dimensão, que deem circulação aos artistas.” Foi também com essa finalidade que este Gabinete nasceu.