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As casas brancas de Capri

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30 MINUTOS. Às quintas-feiras o Museu Soares dos Reis dedica 30 minutos ao conhecimento de uma obra. Esta quinta-feira a escolhida foi “Janelas das Persianas Azuis”, de Henrique Pousão

fOTOS DDF/DGPC

Algures no ano de 2005, um colecionador privado decidiu tomar uma decisão não tão comum em Portugal como seria desejável. Por sua livre iniciativa, porventura sensível a um eventual dever de cidadania, cede ao Museu Nacional Soares dos Reis, em regime de depósito, duas obras de Amadeo de Souza Cardoso, um desenho e um óleo sobre tela.

A pintura “Sem Título” tem como tema os instrumentos musicais e insere-se nas experiências cubistas de Amadeo, desenvolvidas em particular entre os anos de 1915 e 1917. Naquele trabalhar dos instrumentos há uma associação de formas e elementos das quais resulta, como já tem sido assinalado, um original desafio de todos os parâmetros da interpretação lógica.

A história do quadro, o seu enquadramento no contexto da obra de Amadeo, a importância tida no conjunto da arte portuguesa das primeiras décadas do século, as ramificações e influências tidas ao longo de décadas num certo imaginário pictórico, bem como a sua importância nacional e internacional, foram exploradas há umas semanas no âmbito de uma peculiar iniciativa desenvolvida pelo Museu Nacional Soares dos Reis.

Busto-Relicário de São Pantaleão

Busto-Relicário de São Pantaleão

Às quintas-feiras, às 13 e às 18 horas, sempre com entrada livre, os visitantes são convidados a visitar uma obra em particular. Durante 30 minutos, um especialista fala sobre o objeto artístico escolhido, apresenta-o sob os mais diversos ângulos, situa-o na produção artística do seu tempo e estabelece eventuais pontes com a contemporaneidade.

É uma iniciativa responsável por uma espécie de redescoberta de parcelas do acervo do museu, umas ainda assim bem conhecidas, outras remetidas para uma sombra tantas vezes injusta e injustificável. Nas últimas semanas falou-se ali do “Desterrado”, a célebre escultura de Soares dos Reis, bem como do Busto-Relicário de São Pantaleão ou das “Casas Brancas de Capri”, de Henrique Pousão.

Tido como o mais inovador pintor português da sua geração, Henrique Pousão (1859-1884), tinha apenas 25 anos quando faleceu, vitimado pela tuberculose. Em 1888, por disposição testamentária do pai, o espólio de Pousão foi cedido à Academia Portuense de Belas Artes, onde iniciara os estudos de pintura este natural de Vila Viçosa. Uma parte substancial da sua obra está agora no Museu Soares dos Reis.

É de novo a Henrique Pousão que os 30 minutos de hoje são dedicados. Em destaque estará uma pequena tábua inacabada intitulada “Janelas de Persianas Azuis”. De alguma forma, este trabalho culmina um conjunto de pesquisas plásticas desenvolvidas pelo pintor durante uma das suas estadias em Capri, uma ilha italiana no golfo de Nápoles.

É um fragmento de paisagem num óleo sobre madeira, mas é, antes de mais, um inovador trabalho de geometria, cor e forma cujos significados mais fundos ou cuja história mais desenvolvida poderá ser conhecida no encontro de hoje.

“Casas Brancas de Capri”, de Henrique Pousão

“Casas Brancas de Capri”, de Henrique Pousão

Confrontados com a necessidade de dar resposta a constantes e novos desafios, os museus têm necessidade de encontrar estratégias capazes de os manter no radar, não apenas dos interessados pela coisa artística, mas sobretudo daqueles para quem este é todo um mundo novo por descobrir.

A identidade de um museu pode ser múltipla e desdobra-se em cada instante na procura de novos caminhos. Quando se trata de uma estrutura como o Soares dos Reis, cuja oferta assenta numa coleção permanente, as dificuldades aumentam exponencialmente. Impõe-se, então, a urgência de detetar novas formas de diálogo, em particular com a comunidade envolvente.

Estes 30 minutos à volta de uma obra são uma janela de oportunidade para o museu se revelar e reinventar. O sol beija de uma forma muito intensa as casas brancas de Capri. Cria uma envolvência e expõe uma sedução em tudo igual à paixão suscitada por esta ideia de um breve encontro com uma obra de arte. Quando é intenso, um encontro nunca é breve.