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Cena de “Os intocáveis”

d.r.

Reinaldo Serrano

Numa altura em que Netflix, Amazon e outras etiquetas emergem nas escolhas de um vasto público ávido de novidades da chamada “televisão do futuro”, achei por bem não deixar esquecer ou, quem sabe, lembrar, alguns clássicos da televisão do passado – memória mais ou menos coletiva de um tempo em que a televisão era simultaneamente entretenimento em estado puro e companhia de proximidade.

Por cá, tempos houve em que “O Fugitivo”, “Poldark”, “A Família Bellamy” ou a saga da “Família Forsythe” faziam as delícias familiares de serões semanais em que a epopeia de um foragido injustiçado ou as diatribes dos ricos e sua criadagem (à semelhança inequívoca de “Downton Abbey”) eram seguidas num crescendo de expectativa, correspondida em pleno quando estreava o episódio seguinte.

Um desses casos, eventualmente mais esquecido, prende-se com “Os Intocáveis”. Entre 1959 e 1963, a demanda pela detenção de Alphonse Capone por parte da equipa liderada pelo incansável Eliot Ness encheu as medidas da vasta audiência da norte-americana ABC. 118 episódios com cerca de 50 minutos cada preencheram as 4 temporadas da série, onde se destacava a música composta por Nelson Riddle, o mesmo a quem Frank Sinatra e outros recorreram para inúmeros arranjos e direção de orquestra. Além do mais, a narração inicial e o balanço final de cada um dos episódios ajudavam a a enquadrar e a credibilizar a ficção transmitida semanalmente no pequeno ecrã.

A série contribuiu em muito para inflacionar a popularidade de Robert Stack, figura algo cabotina, é certo, mas que correspondeu ao que lhe foi pedido: construir uma personagem severa mas justa, líder nato de uma task-force criada para pôr entre grades os violadores da Lei Seca e demais mafiosos que viviam à custa do jogo ilegal e da prostituição. De entre estes, mereceu relevo (mesmo historicamente) a figura de Al Capone, papel entregue a Neville Brand, um esforçado ator que não tinha culpa nenhuma de, fisicamente, pouco ou nada ter a ver com o real Capone.

Historicamente situada na América da transição dos anos 20 para a década de 30 do século passado, a produção teve o mérito de reconstituir com a eficácia possível os ambientes da época do império do crime nos Estados Unidos, a tal ponto que não conseguiu fugir de alguns estereótipos menos abonatórios para a comunidade italo-americana. De todo o modo, grandes atores, como Lee Marvin, James Caan, Barbara Stanwyck, Robert Redford ou Robert Duvall, ajudaram a abrilhantar e a popularizar a série que, quase 30 anos depois, havia de dar origem a um dos mais icónicos filmes de Brian De Palma, justamente “Os Intocáveis”, onde se destacaram Kevin Kostner como Eliot Ness e Robert de Niro como Al Capone, e onde brilhou a grande altura o inefável Sean Connery, que ganhou o Óscar para Melhor Ator Secundário no papel de um experiente polícia de giro que se tornaria decisivo na equipa de Ness.

A série (toda ela) está disponível no mercado internacional a um preço acessível e, nalguns casos, com legendas em português, pelo que é digna de visionamento a comprovar que a passagem do tempo não é necessariamente uma forma de erosão sobre objetos televisivos que, por mérito próprio, conquistaram o seu lugar na galeria da televisão mundial.

O elenco de “Missão Impossível”

O elenco de “Missão Impossível”

d.r.

Outra prova inequívoca deste facto é a longa e icónica série que parece ter entusiasmado sem limites o ator Tom Cruise. Falo, naturalmente, de “Mission: Impossible” (“Missão Impossível”), que é hoje uma bem sucedida “franquia” cinematográfica.
Manda a verdade dizer que as versões de cinema da série televisiva não conseguem chegar, quanto mais superar, o estranho glamour “kitsch” dos originais. Estes deram à pequena tela nos idos de 1966 e lá permaneceram até aos idos de 1973, sempre na CBS. No total, foram 7 as temporadas em que a equipa da agência secreta governamental Impossible Mission Force percorreu os quatro cantos do mundo para derrubar ditadores, perseguir espiões e defender os oprimidos.

A série marcou definitivamente o norte-americano Peter Graves, o líder deste grupo de justiceiros na esmagadora maioria das temporadas de “Missão Impossível”. A tal ponto que foi o único elemento do elenco original a ser chamado para relançar a série, nos anos 80 (disso, por pudor e respeito ao amante do cinema e da televisão, não iremos falar). Mas a verdade é que a série tornou também conhecidos do grande público nomes como Martin Landau e Barbara Bain. O sucesso foi tal que a dupla haveria de ser chamada para protagonizar, entre 1975 e 1979, a não menos mítica série “Espaço: 1999”...

Sucede que também “Mission: Impossible” está disponível na sua totalidade em DVD e com legendas à distância do célebre clique internauta. Vale seguramente a pena assistir, aqui e ali, de sorriso nos lábios, às venturas e desventuras desta equipa de temerários, possuidora de talentos únicos e personalizados, na prossecução da luta contra a injustiça num tempo em que a guerra era fria e o comunismo um papão disseminado e ameaçador para o hemisfério da democracia.

Dois clássicos da televisão que merecem ser guardados mesmo enquanto documentos da história da caixa que mudou o mundo se, até lá, este texto não se autodestruir em 5 segundos...