Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

O crescimento económico vai ficar por aqui?

  • 333

INVENÇÕES E CRESCIMENTO ECONÓMICO. O progresso tecnológico, da invenção da energia elétrica até à televisão, alimentou de forma vertiginosa a economia norte-americana entre 1870 e 1970. Mas o futuro parece ser tudo menos promissor

d.r.

O economista Robert J. Gordon acaba de publicar um livro onde explica as razões que estão a pôr em causa o crescimento económico no futuro

Depois da Guerra Civil americana, terminada em 1865, o modo de vida dos norte-americanos nunca mais foi o mesmo. A partir da década de 70 desse século XIX, e nos 100 anos seguintes, os padrões de qualidade de vida do outro lado do Atlântico atingiram níveis inimagináveis. Robert J. “Bob” Gordon, economista americano e professor na Northwestern University (estado de Illinois), versado nos temas da produtividade, crescimento ou desemprego, traça no seu novo livro a história e evolução económica da principal potência económica mundial. Mas quando olha para o futuro, contudo, este não lhe parece muito promissor.

Da invenção da energia elétrica ao saneamento básico, passando pelos motores elétricos e pelos veículos aéreos, pelo ar condicionado, até à invenção da televisão: estes grandes acontecimentos, e centenas de outros, mudaram a vida doméstica e o trabalho dos norte-americanos. Entre 1870 e 1970, a esperança média de vida passou dos 45 anos para os 72 anos. Gordon, no seu livro, transporta-nos para estes anos transformadores, de puro crescimento, quando a produção de riqueza parecia sempre maior e maior a cada dia que passava.

Todavia, este fulgor económico perdeu gás a partir de 1970. A tese do autor, ao contrário de outros olhares mais otimistas, é a de que o crescimento económico não é imparável nem imbatível — nem nunca poderá voltar aos níveis registados no século posterior à Guerra Civil, sobretudo ao período entre 1920 e 1950 (mesmo que os anos de 1930 tenham ficado marcados pela Grande Depressão, a inovação durante estes anos foi tal que influenciou positivamente a criação de riqueza).

O progresso dessas décadas foi feito à custa de uma aposta em políticas de eficiência, mas as políticas de igualdade ficaram para trás. Por isso, o ritmo de crescimento está a desacelerar e este abrandamento será tanto maior quanto maiores forem as desigualdades, a estagnação na educação, o envelhecimento da população, o aumento do crédito dos estudantes e do Governo federal. Pela primeira, a geração mais nova, nos dias de hoje, poderá não atingir os padrões de vida dos seus pais, avisa o economista.

“The Rise and Fall of American Growth — The U.S. Standard of Living Since the Civil War”, Robert J. Gordon, Princeton University Press, 762 páginas, €23,25 (preço na Amazon)

“The Rise and Fall of American Growth — The U.S. Standard of Living Since the Civil War”, Robert J. Gordon, Princeton University Press, 762 páginas, €23,25 (preço na Amazon)

Na recensão crítica que fez ao livro no último fim de semana, o economista Paul Krugman escreve: “Gordon sugere que é bem possível que o futuro fique marcado pela estagnação dos padrões de vida da maioria dos norte-americanos, porque os efeitos do abrandamento do progresso tecnológico serão ainda mais alimentados por um conjunto de obstáculos: desde o aumento das desigualdades ao envelhecimento da população”, escreveu.

Continua: “É uma previsão chocante para uma sociedade cuja autoimagem, na verdade a sua identidade, é construída pela expectativa de constante progresso. E teremos de tentar perceber quais as consequências políticas e sociais de mais uma geração de trabalhadores com rendimentos congelados ou reduzidos. Claro, Gordon pode estar errado: se calhar estamos à beira de uma mudança verdadeiramente transformativa, seja a inteligência artificial seja um progresso radical na biologia (que comportam os seus riscos). Mas ele tem argumentos muito fortes. Talvez o futuro já não seja aquilo que costumava ser”, afirma Krugman.

O que fazer para evitar o pior?
No final do seu livro, Bob Gordon lista uma série de medidas — que tanto aumentam a eficiência como a igualdade — que, em vigor, podem dar a volta ao abrandamento económico.

Uma delas, por exemplo, é tornar o crédito fiscal (destinado aos trabalhadores com salários mais baixos) mais generoso e abrangente, como um complemento para aumentar os salários mínimos. Este crédito fiscal, argumenta Gordon, que aponta outros colegas economistas com a mesma ideia, encoraja o trabalho.

Defende também a redução da população prisional, que é muito onerosa e normalmente só afeta a população mais pobre (tendo efeitos negativos não apenas nos reclusos mas também nas suas famílias e comunidades). Além disso, a legalização das drogas leves poderá ser a solução para cortar nos custos com a população prisional e aumentar as receitas fiscais.

A reforma das leis de imigração poderá ser também uma forma, diz Gordon, de atrair trabalhadores altamente especializados. Assim como uma mudança no sistema académico: ao invés de recorrerem a créditos bancários para financiar os estudos, os estudantes universitários deviam poder recorrer a um modelo de financiamento, monitorizado pelo sistema de impostos, que lhes permita começar a pagar os estudos apenas quando começam a apresentar rendimentos do trabalho.

Depois da Guerra Civil americana, terminada em 1865, o modo de vida dos norte-americanos nunca mais foi o mesmo. A partir da década de 70 desse século XIX, e nos 100 anos seguintes, os padrões de qualidade de vida do outro lado do Atlântico atingiram níveis inimagináveis. Robert J. “Bob” Gordon, economista americano e professor na Northwestern University (estado de Illinois), versado nos temas da produtividade, crescimento ou desemprego, traça no seu novo livro a história e evolução económica da principal potência económica mundial. Mas quando olha para o futuro, contudo, este não lhe parece muito promissor.

Da invenção da energia elétrica ao saneamento básico, passando pelos motores elétricos e pelos veículos aéreos, pelo ar condicionado, até à invenção da televisão: estes grandes acontecimentos, e centenas de outros, mudaram a vida doméstica e o trabalho dos norte-americanos. Entre 1870 e 1970, a esperança média de vida passou dos 45 anos para os 72 anos. Gordon, no seu livro, transporta-nos para estes anos transformadores, de puro crescimento, quando a produção de riqueza parecia sempre maior e maior a cada dia que passava.

Todavia, este fulgor económico perdeu gás a partir de 1970. A tese do autor, ao contrário de outros olhares mais otimistas, é a de que o crescimento económico não é imparável nem imbatível — nem nunca poderá voltar aos níveis registados no século posterior à Guerra Civil, sobretudo ao período entre 1920 e 1950 (mesmo que os anos de 1930 tenham ficado marcados pela Grande Depressão, a inovação durante estes anos foi tal que influenciou positivamente a criação de riqueza).

O progresso dessas décadas foi feito à custa de uma aposta em políticas de eficiência, mas as políticas de igualdade ficaram para trás. Por isso, o ritmo de crescimento está a desacelerar e este abrandamento será tanto maior quanto maiores forem as desigualdades, a estagnação na educação, o envelhecimento da população, o aumento do crédito dos estudantes e do Governo federal. Pela primeira, a geração mais nova, nos dias de hoje, poderá não atingir os padrões de vida dos seus pais, avisa o economista.

Na recensão crítica que fez ao livro no último fim de semana, o economista Paul Krugman escreve: “Gordon sugere que é bem possível que o futuro fique marcado pela estagnação dos padrões de vida da maioria dos norte-americanos, porque os efeitos do abrandamento do progresso tecnológico serão ainda mais alimentados por um conjunto de obstáculos: desde o aumento das desigualdades ao envelhecimento da população”, escreveu.

Continua: “É uma previsão chocante para uma sociedade cuja autoimagem, na verdade a sua identidade, é construída pela expectativa de constante progresso. E teremos de tentar perceber quais as consequências políticas e sociais de mais uma geração de trabalhadores com rendimentos congelados ou reduzidos. Claro, Gordon pode estar errado: se calhar estamos à beira de uma mudança verdadeiramente transformativa, seja a inteligência artificial seja um progresso radical na biologia (que comportam os seus riscos). Mas ele tem argumentos muito fortes. Talvez o futuro já não seja aquilo que costumava ser”, afirma Krugman.

O que fazer para evitar o pior?

No final do seu livro, Bob Gordon lista uma série de medidas — que tanto aumentam a eficiência como a igualdade — que, em vigor, podem dar a volta ao abrandamento económico.

Uma delas, por exemplo, é tornar o crédito fiscal (destinado aos trabalhadores com salários mais baixos) mais generoso e abrangente, como um complemento para aumentar os salários mínimos. Este crédito fiscal, argumenta Gordon, que aponta outros colegas economistas com a mesma ideia, encoraja o trabalho.

Defende também a redução da população prisional, que é muito onerosa e normalmente só afeta a população mais pobre (tendo efeitos negativos não apenas nos reclusos mas também nas suas famílias e comunidades). Além disso, a legalização das drogas leves poderá ser a solução para cortar nos custos com a população prisional e aumentar as receitas fiscais.

A reforma das leis de imigração poderá ser também uma forma, diz Gordon, de atrair trabalhadores altamente especializados. Assim como uma mudança no sistema académico: ao invés de recorrerem a créditos bancários para financiar os estudos, os estudantes universitários deviam poder recorrer a um modelo de financiamento, monitorizado pelo sistema de impostos, que lhes permita começar a pagar os estudos apenas quando começam a apresentar rendimentos do trabalho.