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A Rússia vai à Guerra

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“Guerra” está esta sexta-feira e sábado no Teatro São João, no Porto

Vladimir Vyatkin

Oriunda de um país dominado pelos fantasmas da II Guerra Mundial, uma companhia moscovita apresenta esta sexta-feira e sábado no Teatro São João, no Porto, espetáculo inspirado no primeiro conflito mundial

É uma companhia russa e traz “Guerra”, um espetáculo total inspirado na I Guerra Mundial. Esse é o primeiro fator de estranheza capaz de subverter todas as previsões. De um russo espera-se vê-lo abordar os problemas e as sequelas da II Guerra Mundial, não por acaso conhecida como Grande Guerra Pátria. Assim a cunhou o jornal “Pravda” em junho de 1941, quando estava ainda longe de saber dos mais de 21 milhões de mortos provocados nas repúblicas soviéticas pela invasão nazi.

A batalha de Stalinegrado tornou-se mítica na história da II Guerra Mundial e representa o grande ponto de inflexão por marcar o momento em que as tropas soviéticas passam à ofensiva até a vitória final. Por tudo isso, a II Guerra ocupa um lugar privilegiado no imaginário de qualquer russo.

Ainda assim, o tema para a superprodução com escala no Teatro Nacional São João, no Porto, esta sexta-feira e sábado, distancia-se, do ponto de vista formal, daquele período para recuar até à I Guerra, muito menos significativa para qualquer russo. Pode ser esta uma forma de falar de todas as guerras, as passadas e as que ainda hoje atormentam a sociedade russa. Pode ser, também, apenas a consequência de este espetáculo resultar de uma coprodução do Festival de Edimburgo com o Festival Internacional de Teatro Tchekov, de Moscovo.

Questionado sobre esta aparente ambiguidade, Valery Shadrin, diretor do festival, opta por situar a guerra como algo de universal. “É-o de tal ordem que atinge cada uma das pessoas indivualmente. A guerra anula e destrói a vida e, por isso, é tão importante evitar a guerra”.

Um espetáculo russo a abordar a II Guerra Mundial nunca lhe seria estranho, diz. Porém, a “ideia central , aqui, parte da necessidade de assinalar o centenário da I Guerra no âmbito da colaboração com o Festival de Edimburgo”.

A costela russa acaba por sobressair e Shadrin não deixa de garantir ser “claro que o tema da II Guerra tem muito mais importância para as nações. Ao mesmo tempo, não significa que se diminua a I Guerra, na qual a princípio o espetáculo se baseia, para depois partir para a atualidade”. É como se fosse a reconstrução de uma guerra para falar de todas as guerras.

Ciente da dimensão desmesurada do espetáculo, o diretor do festival Tchekov assegura que esta produção “é mais próxima da ópera do que da arte dramática”, ao ponto de “a música ter um papel importante” numa produção responsável por reações muito diversificadas nos locais por onde passa.

Numa entrevista ao Expresso, Vladimir Pankov dizia que o belo e o horror andam sempre de mãos dadas, como o evidencia este espetáculo total, marcado por uma elevadíssima exigência física e intelectual dos atores/músicos.

Com duas horas e meia de duração, “Guerra” é um espetáculo esgotante para todos quantos nele participam, seja no palco, seja na plateia. No final de uma das representações da peça em Paris, no passado mês de janeiro, Pavel Akimkin, que na peça dá corpo à personagem George, à volta da qual giram grande parte dos acontecimentos, dizia-nos ser o trabalho vocal “a grande dificuldade” de uma peça “muito difícil”, sobretudo quando há grandes espaços temporais entre cada representação.

Com encenação de Vladimir Pankov, “Guerra” parte de “Death of a Hero”, de Richard Aldington, “Notes of a Cavalry Officer”, de Nikolai Gumilev, e da “Ilíada”, de Homero. A música tem a assinatura de Artem Kim e Sergei Rodyukov.