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Siza regressa aos bairros

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Bairro Schilderswijk West, em Haia, é um dos quatro construídos pelo arquiteto e aos quais agora volta

Alessandra Chemollo

No âmbito da Bienal de Veneza de 2016, onde representará Portugal, o arquiteto participará num programa de regresso a quatro dos bairros sociais construídos na Europa com a sua assinatura

Primeiro será a Bouça, no Porto, já amanhã e domingo. Depois, em fevereiro e março, Álvaro Siza Vieira vai regressar a outros três projetos emblemáticos no âmbito da habitação social e todos eles marcantes no percurso profissional e no reconhecimento internacional do arquiteto: Bonjour Tristesse, em Kreuzberg, Berlim; Campo di Marte, na ilha Giudecca, em Veneza; e habitações populares em Haia, Holanda.

Campo di Marte será crucial em todo este projeto, não apenas por ser um trabalho que reuniu Siza com Rafael Moneo, Aldo Rossi e o já falecido arquiteto italiano Carlo Aymonino, mas ainda por ser ali que se concentrará a presença de Portugal na Bienal de Arquitetura de Veneza.

Não por acaso, a exposição em Veneza no âmbito da Bienal terá um núcleo intitulado Álvaro Meets Aldo, num jogo de palavras a partir de dois nomes muito comuns naquela zona de Itália, mas que traduz também a enorme cumplicidade existente entre Álvaro Siza e Aldo Rossi.

Sem exagero, pode dizer-se que o pavilhão de Portugal em Veneza será o próprio Siza e a sua obra. A ideia foi de Roberto Cremascoli e Nuno Grande, dois arquitetos, um italiano e um português, convidados em julho pela DGArtes a pensarem o modo como concretizar a representação de Portugal naquele importante fórum internacional de arquitetura.

Bairro da Bouça

Bairro da Bouça

marco cremascoli

Na altura, recorda agora Cremascoli, os únicos dados concretos passavam pelo conhecimento de que o comissário da Bienal seria o chileno Alejandro Aravena, a quem foi atribuído o Prémio Pritzker de arquitetura 2016, e que o tema em destaque seria “Report from the Front”, uma escolha “já em si bastante forte e dramática”, diz Roberto.

Licenciado no Politécnico de Milão com uma tese orientada por Álvaro Siza, com quem acabou por colaborar no seu escritório no Porto, Cremascoli projetou com o Pritzker português um complexo de habitações coletivas neste momento em construção em Gallarate, na Lombardia. Conhece bem a realidade portuguesa, tal como Nuno Grande, professor de laboratório de Projeto na Universidade de Coimbra, responsável pela área de arquitetura na Porto 2001 Capital Europeia da Cultura. Roberto será o curador de uma nova exposição sobre Siza no MAXXI, em Roma, inserida no Jubileu 2016 e Nuno é o responsável pela mostra Les Universelalistes. Architecture Portugaise 1965-2015, patrocinada pela Fundação Calouste Gulbenkian e a ser apresentada, a partir de abril, na Cité de l'Architecture, em Paris.

Ambos confrontados com o eterno problema de Portugal não ter um pavilhão na Bienal, acabaram a concluir que, em boa verdade, esse pavilhão existe. Pelo menos tem um lugar. Situa-se na ilha Giudecca e materializa-se na obra de Siza no Campo di Marte, parada há cinco anos.

Existe uma estrutura em betão, em tosco e isso permitiu-lhes equacionar a possibilidade de ser aquele o local para o pavilhão. Inesperado. Porventura uma opção ousada, mas era, ainda assim, a forma de aproveitar uma obra em construção do próprio arquiteto que pretendiam colocar em destaque. Acontece até, sublinha Cremascoli, que fizeram algo até agora nunca feito: “convidar Álvaro Siza como artista principal da Bienal”.

O arquiteto portuense já lá esteve noutras circunstâncias. Em 1976 participou na hoje histórica iniciativa Europa-América: Centro Histórico, Subúrbio, comissariado por Vittorio Gregotti, que veio a tornar-se um grande amigo e divulgador da obra de Siza. Em 1985 esteve representado numa mostra de trabalhos comissariada por Aldo Rossi e depois disso foi distinguido duas vezes. Em 2002 foi-lhe atribuído o Leão de Ouro pelo projeto do Museu Iberê Camargo, em Porto Alegre, no Brasil. Em 2012 recebeu o prémio pelo conjunto da carreira.

Definida a estratégia, Roberto e Nuno concluem que, para poderem concretizar aquela estrutura narrativa da exposição, teriam de ter o aval do ATER-Instituto de Habitação Social nacional, proprietário do edifício nascido do concurso internacional por convite, lançado em 1983.
Siza venceu o concurso do plano global dois anos depois. EM 1986 a entidade promotora decide dividir o projeto entre os primeiros quatro classificados: Siza, Aldo Rossi, Rafael Moneo e Carlo Aymunino, com o português a ficar como coordenador geral da obra.

Campo di Marte, Veneza

Campo di Marte, Veneza

Alberto Lagomaggiore

Em 2004 foram entregues as partes trabalhadas por Rossi e Aymunino, tal como, mais tarde, uma primeira fase da obra de Siza. Entretanto o empreiteiro faliu e ficou tudo suspenso.

Uma das boas notícias resultantes desta escolha dos dois curadores foi a decisão tomada pelo ATER. Está em final de mandato e, até por isso, fez questão de deixar um documento assinado através do qual o Instituto se compromete a concluir a obra. No final deste mês será lançado o concurso da empreitada e a obra deverá decorrer em simultâneo com a exposição prevista para o piso térreo.

Deste modo, Siza poderá concluir a praça/jardim e mais tarde será solicitado a Rafael Moneo que feche a praça com um edifício, tal como estava previsto.

A propósito de Alvaro Meets Aldo, Roberto recorda que, a nível físico, Giudecda não é o único sítio onde os dois arquitetos se cruzam. O mesmo sucede em Haia, onde apenas uma linha de comboio separa intervenções do italiano e do português, bem como em Maastricht, onde um museu de Aldo está muito próximo da habitação social de Siza.

A primeira sala da exposição será sobre o encontro entre os dois e parte do tema Siza Conta-nos Rossi. Será constituída por material de arquivo, algum dele já selecionado pelo próprio Siza no Centro Canadiano de Arquitetura. Será um interessante espaço de diálogo sobre a amizade e as relações de dois arquitetos ,que chegaram a estar sentados lado a lado, numa mesma sala de Bogotá, para falar para uma plateia de mais de cinco mil pessoas.

Os moradores da Bouça, Giudecca, Haia e Berlim serão coprotagonistas da exposição. Siza vai voltar aos bairros, vai reencontrar-se com moradores, que vão ser fotografados e entrevistados. Os seus retratos vão acompanhar os visitantes da Bienal na sua chegada de “vaporetto”, da paragem Lezitelle até o edifício. O espaço expositivo estará forrado com fotos de cenas do quotidiano dos moradores nos bairros das quatro cidades. Serão também produzidos vídeos da passagem pelo arquiteto pelos bairros, de 25 minutos cada.

Schlesisches Tor (Bomjour Tristesse), Berlim

Schlesisches Tor (Bomjour Tristesse), Berlim

Giovanni Chiaramonte

O pavilhão de Portugal, anuncia Roberto Cremascoli, abre a 13 de fevereiro com a apresentação pública, no sítio, destinada a convidados e vizinhança. Todas as associações da ilha serão convidadas a organizar uns cinco ou seis meses de atividades paralelas.

A inauguração formal é a 26 de maio e para esse dia será construída uma mesa comprida, capaz de acolher os moradores num grande almoço, seguido de conversas com Siza, Moneo e outros arquitetos.

Na opinião de Cremascoli, “este é o tributo que faltava à obra de Siza. Foi incrível como arranjou a sua agenda para voltar aos sítios”. Álvaro andou muitos anos a frisar que a sua arquitetura não é apenas social. Contudo, acentua Roberto, “foi a partir daí que se afirmou e hoje é uma referência em qualquer parte do mundo”.

Texto originalmente publicado na edição de 29 de janeiro do Expresso Diário