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O regresso anunciado de Sarkozy

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REGRESSADO. O antigo chefe de Estado quer voltar ao Eliseu

PHILIPPE WOJAZER/REUTERS

Ainda não é uma declaração de candidatura, mas fica lá perto. Num livro em que reconhece erros e lança ideias para o futuro, Nicolas Sarkozy marca terreno à direita para as presidenciais de 2017

Resolvidas as presidenciais portuguesas, aquecem – ainda que 16 meses de distância – as de outra República semipresidencialista: a França. Chegou segunda-feira às bancas o livro de Nicolas Sarkozy, ex-chefe de Estado (2007-2012) que quer regressar ao Palácio do Eliseu. “La France pour la vie” (A França para a vida) é o título de uma obra que combina memórias do passado com um programa para o futuro, escreve a revista “L’Express”, sublinhando que Sarkozy reconhece erros.

Uma década depois da sua última publicação – “Témoignage”, rampa de lançamento da candidatura vencedora de 2007 –, o líder do partido Os Republicanos atira-se (sem o dizer explicitamente) às primárias do centro-direita para a sucessão ao socialista François Hollande. Com uma primeira edição de 120 mil exemplares, concorrerá com livros lançados nos últimos tempos por potenciais adversários do seu campo político, como Alain Juppé (“Pour un État fort”, Por um estado forte) ou Jean-François Copé (“Le sursaut français”, O sobressalto francês). As presidenciais devem realizar-se em maio de 2017.

MEA CULPA Sarkozy penitencia-se pelas férias passadas no iate do milionário Vincent Bolloré em Malta

MEA CULPA Sarkozy penitencia-se pelas férias passadas no iate do milionário Vincent Bolloré em Malta

BEN BORG CARDONA/GETTY IMAGES

“Acrescentar permanentemente novos assuntos aumenta a exposição pública, em detrimento de assuntos essenciais”, escreve o ex-Presidente, em tom autocrítico, defendendo agora que a ação política deve concentrar-se “num pequeno número de prioridades”. Em particular, Sarkozy crê que a dispersão dos primeiros tempos do seu mandato o impediu de aproveitar o período de maior tolerância do eleitorado para realizar reformas profundas. O autor também reconhece erros de comunicação que o levaram a ser caricaturado a dar “presentes aos ricos”. O jornal conservador “Le Figaro” contou 27 confissões de erros de Sarkozy.

Autoflagelação com segundas intenções

“Concreto, denso e franco, com uma parte de má-fé”, sentencia “L’Express”. “Mesmo neste exercício de autoflagelação, Nicolas Sarkozy justifica-se”, atirando culpas para ministros como Christine Lagarde, então na pasta da Economia e hoje diretora do Fundo Monetário Internacional. “Autoflagelação” é, também, a palavra que a RTL escolhe para caracterizar o livro do político: “Não se poupa no que toca à forma e ao estilo do seu quinquénio”, referindo um insulto a um cidadão crítico (“Desaparece, idiota”) e férias em iates de milionários como erros que nem ele sabe como pôde cometer. “Fui demasiado arrogante, exasperante.”

Dá para pensar se tanta autocrítica não poderá ser contraproducente, lembrando os seus piores defeitos aos franceses. Até porque no que toca ao conteúdo da sua governação, só critica não ter ido mais longe, nomeadamente em questões “económicas e de imigração”, cita “Le Monde”. Tinha boas ideias mas faltou-lhe coragem, escreve. Agora é tempo de “restabelecer a confiança”. O jornal “Les Échos” lembra que o livro abre com uma citação de Confúcio: “O arqueiro é um modelo para o Sábio. Se falhou o centro do alvo, procura em si mesmo a explicação”.

DIREITA. Os adversários imediatos do ex-Presidente são a líder da extrema-direita, Marine Le Pen, e o ex-primeiro-ministro Alain Juppé

DIREITA. Os adversários imediatos do ex-Presidente são a líder da extrema-direita, Marine Le Pen, e o ex-primeiro-ministro Alain Juppé

THOMAS SAMSON/AFP/GETTY IMAGES

Baterias contra Le Pen

É claro que o exercício não é só teórico nem para apaziguar a alma, coisa que aliás o autor garante já ter feito. Este livro é, como já se disse, rampa para o futuro. Sarko diz que “não se trata de uma declaração de candidatura” mas assume gostar de “combater” e querer reformas “mais rápidas e mais fortes”. O ex-Presidente lança alertas. “Se não formos nós [a vencer Hollande], será, infelizmente, a presidente da Frente Nacional”. Alain Duhamel, editorialista da RTL, vê nos trechos sobre identidade e imigração sinais de que a verdadeira adversária de Sarko é Marine Le Pen. O autor reivindica ter tido razão antes de tempo no que diz respeito ao fracasso da Europa de Schengen, à retirada de nacionalidade e ao “comunitarismo”.

E apressa-se a rejeitar responsabilidades no caso Bygmalion, que levou ao tribunal vários dos seus próximos e que poderá atrapalhar as ambições para 2017. Ciente de que é ao centro que se ganham eleições, promete não mexer em leis dos últimos anos como a do casamento homossexual. “Para mim, tudo começou com a França e tudo acabará com ela”, conclui.

La France pour la vie. Autor: Nicolas Sarkozy, editora: Plon, p áginas: 260, preço: 18,90€ (preço de editora)

La France pour la vie. Autor: Nicolas Sarkozy, editora: Plon, p áginas: 260, preço: 18,90€ (preço de editora)