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Os fantasmas do Aleixo

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ALEIXO Cinco anos após a demolição da primeira torre, mais de 300 pessoas continuam a viver em condições degradantes no bairro social portuense

FOTOS RUI OLIVEIRA

Um homem descansa o corpo junto a uma janela. Cigarro na boca, barba de vários dias, os olhos a espelharem um cansaço sem nome, sem data, sem fim. Há uma tristeza inominável a ensombrar aquele quadro tão igual, tão decalcado das mais poderosas cenas de um qualquer filme neorrealista italiano. Com uma diferença crucial: aquele homem não é uma personagem inventada para ilustrar uma história. Aquela janela não integra um cenário imaginário apostado em proporcionar tons de realidade a uma ficção. Aquele olhar não obedece a nenhum guião apostado em suscitar veracidade à narrativa ficcionada. Aquele quadro não é um quadro. É a dolorosa verdade do dia a dia daqueles a quem coube o portuense bairro social do Aleixo em sorte.

Sorte? O significado das palavras é ilusório. São pobres. Alguns deles até terão adotado meios menos ortodoxos de sobrevivência. Outros não terão evitado cair nas malhas do crime, quase sempre associado ao tráfico de droga. A maioria, porém, procura apenas uma saída digna para o atoleiro desabado sobre as suas vidas. Todos são cúmplices de um crime maior. O de viverem num conjunto de torres com vistas. Debruçadas sobre o rio, proporcionam um cenário privilegiado. Isso foi-lhes fatal. Um pobre, já se sabe, não pode, não deve, ter privilégios. Não se coaduna com a sua condição de pobre. Um pobre não pode pensar passar por entre os pingos da chuva e imaginar viver protegido por uma sobranceira impunidade. A mesma que lhe permitiria estar ali, onde o horizonte vale ouro, sem alguém reparar e tratar de repor a ordem natural das coisas.

Puseram-se a jeito, é verdade. Ou colocou-os a jeito o próprio programa de arquitetura, materializado num conjunto de torres enormes, com elevados custos de manutenção e para onde foram despejadas dezenas e dezenas de famílias de fracos recursos. As torres degradaram-se. Acompanharam a sistemática degradação da qualidade de vida de quem as habitava.

Estava encontrado o pretexto. Era preciso demoli-las. Rui Rio encenou como se fora um espetáculo o ato de demolição, enquanto tantos se esqueciam que, por cada torre demolida (e foram duas), eram centenas os sonhos destruídos, as vidas desestruturadas.

Tropecei há dias nos gritos saídos do Aleixo durante uma pequena deambulação pela baixa do Porto. Ao passar pela rua de Stº Ildefonso, após o cruzamento com a rua da Alegria, descobri a Galeria-Atelier Geraldes da Silva, dispersa pelos vários andares de um prédio imenso, antigo e recuperado. Lá dentro, três exposições de fotografia, cada uma delas a merecer um sublinhado especial. No rés-do-chão, “Aqui há gente”, de Ruben Mália, uma muito sensível viagem pelos rostos de quem continua a dar vida aos velhos bairros do Porto, para lá do frenesim turístico derramado sobre a cidade. No terceiro andar, Helena Flores proporciona-nos uma comovente “Saudade levada ao peito”. É uma exposição sobre o luto. O luto das mulheres de Caxinas a quem o mar levou os seus amados. O mar devorou-lhes maridos, filhos ou netos, mas elas conservam-nos colados ao peito, em pequenas fotos cristalizadas no esmalte pendente de medalhões ou voltas em ouro.

A meio daquelas duas mostras impõe-se "Aleixo", um notável trabalho do fotojornalista Rui Oliveira, colaborador de várias publicações nacionais, vencedor do prémio ibérico estação da Imagem 2012 na categoria "Artes e Espetáculo", além de outras distinções acumuladas nos últimos anos.

O homem à janela é um dos retratados por Rui Oliveira no Aleixo, um bairro onde, como diz o fotógrafo, a degradação já ultrapassou os limites do suportável. Cinco anos após a primeira demolição, sobrevivem por lá mais de 300 moradores em três torres com fim anunciado. Esperam realojamento. Desesperam com a situação de impasse.

Há dias, Rui Moreira, presidente da Câmara do Porto, dizia-nos discordar do modelo ali seguido, com a criação de um fundo imobiliário que depressa se percebeu estar sem liquidez. Há inclusive fundadas suspeitas sobre o modo como foi gerido todo o processo.

A desolação é total. Nada será resolvido com brevidade. A autarquia aguarda ainda o visto do Tribunal de Contas para iniciar o processo de construção de habitação social destinada àqueles moradores. Serão distribuídos por outros pontos da cidade.


Ninguém equacionou a possibilidade de a requalificação do Aleixo não implicar uma necessária expulsão dos seus atuais moradores. Ninguém parece admitir a hipótese de demolição de umas torres inviáveis para, no mesmo local, construir habitação sustentável. Aqueles pobres, já se percebeu, não podem permanecer num espaço visualmente tão rico.

Aquele homem, aquelas mulheres, não são um fantasma. Aquele homem, aquelas mulheres, são o espetro dos fantasmas lançados sobre o Aleixo.