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Este é o museu que bate recordes

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Com muito público mas sem funcionários para levar para
a frente o projeto, o novo Museu dos Coches caminha a meio gás

Nuno Botelho

Falta quase tudo ao Museu dos Coches: recursos humanos, equipamentos e projeto museográfico. Mesmo sem galopar, tem a seu favor o número de visitantes. E as carruagens, claro

Nuno Botelho

Nuno Botelho

Fotojornalista

São dez da manhã, hora de abertura do museu. À porta, alunos de duas escolas e um grupo de idosos já fazem fila para entrar. Os coches esperam-nos lá dentro e a emoção sai fácil. Primeiro são os telemóveis a disparar, uma fotografia por cada carro, pelo menos. Depois são as conversas: “Só me dá vontade de ir andar neles. É muito fixe!”, diz o entusiasmado João Pedro, 14 anos. Ana Sofia é mais comedida: “Era mais bonito se pudéssemos andar neles”. Com 11 anos chega a Lisboa pela primeira vez, vinda de São Bartolomeu de Messines. “Gosto dos coches dourados, são os meus preferidos, e do museu, que é grande.”

Os colegas de visita destes jovens preferem um guia para os acompanhar e explicar ponto por ponto a história de cada carruagem. São mais pacatos e estão curiosos por ver o novo espaço. É a mesma atitude de vários casais que percorrem o edifício do arquiteto Paulo Mendes da Rocha. Com calma e um guia na mão comprado na loja do museu, descobrem pormenores e relatos da vida daqueles carros.

É assim a época baixa no novo Museu Nacional dos Coches. E não é nada má. Casa cheia durante a semana com o turismo sénior e as escolas e, ao fim de semana, com as famílias, avós e netos sempre incluídos. Só os portugueses perfazem 120 mil entradas naquele espaço, que em 2015, voltou a ser o museu português mais visitado, com 346 mil entradas anuais contra 206 mil em 2014. Este sim, um número muito próximo dos seus recordes desde 2010, que nunca ultrapassaram os 200 mil visitantes.
Edifício mediático

“O mediatismo que se gerou em torno do novo edifício e da transferência dos coches ajudou a aumentar o número de visitantes. Instalou-se a curiosidade”, acredita Samuel Rego, subdiretor-geral do Património Cultural (DGPC). Mas se é verdade que os portugueses se reconciliaram com a casa, também é um dado adquirido que o fluxo de estrangeiros não parou de crescer. Franceses, brasileiros, espanhóis, japoneses e chineses, muitos chineses, são os turistas que mais gostam de ver os coches. “Os orientais são os nossos maiores fãs”, garante Silvana Bessone, diretora do museu. A veneração oriental pelas carruagens portuguesas, a maior e melhor coleção de coches reais do mundo, levou já a que fosse lançado o primeiro guia em mandarim de um museu nacional. Já para não falar no prémio de referência, o “Lianorg, Top Choice 2016 for Tourist Attraction”, uma distinção conquistada por votação online em todo o território chinês.
Um terceiro público é o amante de arquitetura: estudantes, professores, arquitetos, curiosos, apreciadores, chegam de todo lado para ver a obra do Pritzer brasileiro. O Comité Internacional de Críticos de Arquitetura já premiou o edifício e as ‘excursões arquitetónicas’ já começaram a ser contabilizadas pela direção do museu, mas ainda não há números conclusivos.

No entanto, não se deve descurar o facto de este ser “há duas décadas o único museu lisboeta que integra o circuito das camionetas dos operadores turísticos”, como explica Raquel Henriques da Silva. A ex-diretora do Instituto Português de Museus acredita ainda que “a excelência da coleção, a rapidez com que o museu pode ser visitado e o facto de ser tradicionalmente popular entre os portugueses” é um garante do seu sucesso de bilheteira.

Cartão vermelho

O problema é que na nova casa dos coches não há museografia. O projeto aguarda verba para avançar. “Já está adjudicado. Estamos só à espera de uma transferência de valores do Turismo de Portugal para lhe podermos dar continuidade, o que deverá ocorrer já na próxima semana”, diz o representante da DGPC. Samuel Rego justifica-se com os desígnios do anterior Governo: “A decisão de abrir ao público este museu trazia apenas duas orientações, salvaguardar a segurança das pessoas, tanto do público, como do pessoal que aqui trabalha; e a segurança da coleção. Foi isso que fizemos”. O certo é que desde a inauguração da casa, a 23 de maio do ano passado, que os milhares de visitantes que aí se deslocam ficam sem qualquer conhecimento sobre o acervo que se lhes apresenta a não ser que peçam uma visita guiada ou comprem um guia informativo. Os ecrãs táteis e interativos, com vídeos e a história dos coches, ainda não estão colocados nos sítios. As cadeiras e bancos necessários para o visitante descansar não existem e as marcas de separação entre o público e os carros ainda não foram colocadas, sendo provisoriamente utilizadas baias pretas à volta dos carros.

Mas há mais a manter o museu a trote e a não deixá-lo galopar. Não existe também a passagem pedonal ciclável, projetada desde o início para ligar o museu à cidade — “a rótula do museu”, como lhe chama o arquiteto Ricardo Bak Gordon, responsável pela execução do projeto de Paulo Mendes da Rocha, e que iria permitir o estacionamento dos autocarros junto ao rio, a chegada de visitantes por comboio, e acesso de quem passeia à beira-Tejo. “O problema é a demora nas transferências de verbas”, reafirma Samuel Rego.

A conversa repete-se. A vivificação da Praça do Museu e do espaço por ele ocupado também está em falta. Só a loja está a funcionar. Falta concessionar a cafetaria (“está para muito breve”), e o restaurante (“sem data prevista”). A animação da praça tem alguma expressão ao fim de semana com o Mercado das Velharias e, às vezes, com parcerias com outras entidades, como a EGEAC (empresa municipal de Gestão de Equipamentos e Animação Cultural), a Junta de Freguesia de Belém, a GNR e a Associação Portuguesa de Atrelagem. Fora isso, nem os gelados Santini fazem mexer o espaço exterior. “Estamos a fazer um esforço para melhorar a qualidade de todo o serviço que devemos prestar”, garante Silvana Bessone. “Queremos potenciar tudo o que se relaciona com este museu, do serviço educativo aos encontros equestres, das exposições temporárias às festas de aniversário”, continua a diretora da casa.

Os recursos humanos são outro dos pontos fracos do museu. E sem mão de obra, bem podem os visitantes acorrer em número recorde, bem pode a loja ter aumentado as vendas ao nível dos 70% relativamente à loja caduca da velha casa colada ao Palácio de Belém, que a marcha continuará a ser lenta.