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Ficheiros secretos: a verdade está por aí. Outra vez

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FOX

Catorze anos depois, regressa “Ficheiros Secretos”, série de culto sobre dois agentes do FBI que investigam fenómenos paranormais

Numa das cenas iniciais do primeiro episódio de “The X-Files: Ficheiros Secretos”, drama conspiratório sobre a atividade paranormal que agora regressa aos ecrãs numa minissérie de seis episódios, uma médica ruiva é interrompida por um telefonema antes de uma cirurgia: Walter Skinner, diretor-adjunto do FBI, quer falar com ela.

Quem seguiu a mítica série entre 1993 e 2002 não precisará sequer de lhe ver o rosto: bastará o cabelo ruivo para denunciar que se trata de Dana Scully, a médica e agente do FBI que, no decorrer das nove temporadas anteriores (mais de 200 episódios), foi abandonando o ceticismo inicial em relação à existência de vida extraterrestre.

Na cena seguinte, um homem está sentado no escritório de casa a ver o Presidente Obama ser entrevistado num talk-show. O apresentador Jimmy Kimmel goza com óvnis no preciso momento em que o homem recebe uma chamada de Scully. “A nossa vida transformou-se numa piada”, lamenta ele.

Qualquer fã da série o identificará de imediato: é Fox Mulder, antigo colega e companheiro de Scully, que começou a ficar obcecado com as visitas de seres de outros planetas na infância, ao suspeitar que a irmã foi raptada por extraterrestres.

Passaram mais de 13 anos desde que o FBI decidiu fechar a unidade que tentava solucionar os Ficheiros Secretos — casos inexplicados cujas respostas possíveis envolvem fenómenos paranormais. Mulder e Scully afastaram-se da agência. Viveram juntos, tiveram um filho, separaram-se. Funciona melhor para ela, que voltou a trabalhar num hospital, do que para ele, que vive fechado em casa. “Seguimos com as nossas vidas, para o bem e para o mal”, afirma Mulder, noutro lamento.

Skinner, o antigo chefe da dupla, quer que se encontrem com Tad O’Malley, um milionário com o seu próprio programa de internet sobre teorias da conspiração, um helicóptero e uma limusina onde não falta champanhe. É nela que ele revela a Mulder e Scully que procura a ajuda deles para desmascarar “provavelmente a maior conspiração que o mundo já conheceu”.

Para os convencer, leva-os até ao meio de nenhures, na Virgínia, para conhecerem Sveta, uma jovem mulher que terá sido várias vezes abduzida, e várias vezes engravidada, por ET. É o suficiente para reacender a chama de Mulder.

São estes os ingredientes do muito aguardado regresso de “The X-Files: Ficheiros Secretos”, série de culto já premiada com 16 Emmys e cinco Globos de Ouro, entre dezenas de outros prémios. Depois de terem sido adaptados para dois filmes (“The X Files”, 1998, e “I Want to Believe”, 2008) e de há muito se especular sobre um terceiro, os “Ficheiros Secretos” são reabertos agora numa minissérie de seis episódios de 45 minutos, com estreia nos Estados Unidos neste domingo e em Portugal dois dias depois (episódio duplo).

Neste renascimento do título, os fãs da série poderão esperar os mesmos condimentos que fizeram o sucesso das outras temporadas — avistamentos de ovnis, visitas de alienígenas, raptos por extraterrestres, encobrimentos, paranoia e muitas teorias da conspiração — mas “num ambiente político novíssimo”, sublinha Chris Carter, o criador de “Ficheiros Secretos”.

O mundo mudou muito nos últimos 14 anos e a série reconhece isso. Logo no primeiro episódio, há referências às ondas de choque provocadas pelo 11 de Setembro, a Edward Snowden e ao escândalo de espionagem da NSA, e até piadas sobre a Uber. Tudo para deixar claro que a série foi escrita para os dias de hoje e não para continuar com as mesmas teorias da conspiração do século XX.

Depois de conhecer O’Malley e Sveta, Mulder desenvolve uma nova tese: está convencido de que os alegados fenómenos paranormais fazem parte de uma conspiração do Governo contra os seus próprios cidadãos. “Eles policiam-nos e espiam-nos, dizendo-nos que estão a tornar-nos mais seguros...” É Skinner quem lhe remata a frase: “Mas nunca estivemos tão em perigo”.

O’Malley lembra que tanto o Patriot Act (Lei Patriótica), que restringe uma série de direitos constitucionais dos cidadãos sobre o pretenso objetivo de “garantir a segurança nacional”, como a militarização das forças policiais, o estabelecimento de campos de detenção “como Guantánamo” e até a obesidade galopante são tudo formas deliberadas de o Governo controlar a população.

“Estamos a contar histórias contemporâneas sobre situações contemporâneas, verdadeiras para as personagens de Mulder e Scully, para a sua relação e para a passagem do tempo”, confirma Carter, considerado pela revista “Time” um “televisionário”. Tal como nas nove temporadas anteriores, a minissérie está dividida em episódios que desenvolvem a mitologia central da série — muito em volta do tema da vida extraterrestre e da conspiração do Governo para a encobrir — e episódios isolados, batizados como “Monstros da Semana”. E, claro, há ainda tempo para revisitar o caso “Roswell”.

Além de assinar o argumento e de ser responsável pela produção executiva da minissérie, Carter chamou a si a realização de três dos episódios. Para lá dos incontornáveis David Duchovny, Gillian Anderson e Mitch Pileggi (agente Skinner), o elenco volta a contar com William B. Davis como The Smoking Man, arquirrival da dupla de agentes. Entre as novas caras estão Joel MacHale (Tad O’Malley), da série “Community”, que foi contratado depois de Carter ver uma participação do ator em “Sons of Anarchy”, e Annet Mahendru, no papel de Sveta.

Crítica divide-se

O primeiro episódio da nova série estreou-se em outubro para uma audiência selecionada na Comic-Con, em Nova Iorque, tendo sido recebido pelos fãs com uma ovação de pé.

A crítica dividiu-se. Enquanto alguns, como o “Telegraph”, consideraram que o enredo era “fresco” e “contemporâneo”, outros foram menos generosos. Para a “Vanity Fair”, o episódio é “mau” e “não valeu a espera de 14 anos”. A “Variety”, uma das mais populares revistas especializadas em cinema, televisão e na indústria do entretenimento, afirma ser “difícil escapar ao mal-estar prevalente de este ser um exercício orientado para o negócio, uma oportunidade de faturar com o reconhecimento do título”. Para os fãs mais acérrimos, pouco disso importará, agora que poderão ver um novo episódio. A verdade anda de novo por aí.