Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

A nova vida dos Tindersticks

  • 333

O alter ego de Stuart Staples, a cabeça de burro, usada na capa do disco

Richard DUMAS

Ao décimo álbum de originais, a banda britânica radicada em França sente-se liberta do passado. Em “The Waiting Room” estão mais fluidos do que nunca, conta o vocalista, Stuart Staples

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Aos 50 anos, Stuart Staples ainda tem a sua primeira guitarra: uma Guild Starfire elétrica de 1966, que comprou há três décadas. Há alguns anos, o vocalista dos Tindersticks confessava à “Pitchfork” que o instrumento chegara a tal ponto de erosão que o técnico da banda o aconselhava a não o usar ao vivo: “Tem medo de um dia abrir o estojo e só encontrar um monte de serradura”, brincou então. Numa manhã de sol de inverno, no final de 2015, encontrámos o inglês num hotel da Baixa lisboeta e perguntámos-lhe o que é feito de tal objeto de estimação. “Claro que ainda a tenho, é a minha única guitarra!”, riu-se o nativo de Nottingham. “Teve alguns reparos, mas nada mais. Se se desfizer, desfaz-se em palco. Já a tentei substituir várias vezes, mas volto sempre a ela, e neste álbum é a guitarra que se ouve em ‘We Are Dreamers!’ e ‘Were We Once Lovers?’. Não há outra que soe como ela”, justifica.

Curiosamente, este parece ser o único aspeto do quotidiano dos Tindersticks em que a nostalgia fala mais alto. “The Waiting Room”, décimo álbum de originais dos ingleses, é um passo em frente, rumo a um som “mais fluido e menos estruturado”. O peso dos primeiros discos, que marcaram de forma indelével um certo indie letrado dos anos 90, já não os apoquenta. “Havia uma grande mística à volta do line up original e dos nossos três primeiros álbuns, sobretudo dos primeiros dois, o que subconscientemente nos deu muita liberdade. Tínhamos 27 anos — uma altura espetacular nas nossas vidas. Hoje podemos olhar para trás e pensar que as coisas já não são tão incríveis. Mas a verdade é que não vamos voltar a ter 27 anos, nem a fazer o primeiro ou segundo disco, nem a vir a Lisboa pela primeira vez”, explica o frontman de uma banda desde sempre acarinhada pelo público português. “Passar por todos esses momentos pela primeira vez é avassalador e quase se tornou um peso para nós. Pensávamos: porque é que já não nos sentimos como dantes?”, admite. A libertação chegou com “Across Six Leap Years”, coletânea que, em 2013, fez as contas à vida dos Tindersticks. “Com esse disco percebemos que podíamos sentir orgulho e desfrutar do que fizéramos e finalmente entrar neste novo espaço. Ser livres.”

Os ventos de mudança já sopravam desde “The Something Rain”, o notável álbum de originais de 2012, que Stuart Staples diz ter aberto a porta às “experimentações” do novo “The Waiting Room”. “Esse disco é muito forte e já tinha momentos, como ‘Medicine’ ou ‘Frozen’, que se estendem para aquilo que é este álbum. As canções mais abstratas”, ilustra. Naquele que é o décimo longa duração dos britânicos, a semente foi lançada por ‘Help Yourself’: “Quando uma canção como essa nos surge, desafia-nos e excita-nos. Teve um grande impacto em todas as ideias à sua volta — tudo passou a ter de ser tão excitante como ela”, afirma.

Para ilustrar as 11 canções novas, os Tindersticks convidaram igual número de realizadores. A ideia foi de Stuart Staples, que ficara “arrebatado pelo compromisso, energia e interesse” dos participantes de um festival de curtas em que esteve envolvido, e resultou na criação de 11 pequenos filmes, um por canção. Aos cineastas foi sugerido que se deixassem inspirar pela música, “sem a descreverem ou lhe associarem uma narrativa, criando antes um espaço visual”, revela sobre as imagens que podem ser vistas no DVD que acompanha a edição especial do disco.

Também o artwork do álbum foi alvo de grande atenção — e de uma mudança drástica. “O disco ia chamar-se ‘We Are Dreamers’ e o trabalho gráfico era outro. Depois vi aquela cabeça de burro com uns 100 anos, num teatro antigo, e achei que era um alter ego meu”, conta entre risos. “Conheço o Richard [Dumas, fotógrafo francês] há 20 anos e há muita confiança entre nós. Levei a cabeça de burro e disse-lhe: devias conhecer este tipo, e de repente houve ali um clique. Quando vi as fotos, tudo mudou. Liguei-me a essas imagens de forma muito mais profunda do que ao artwork que já tinha. Por isso, foi irresistível chamar-lhe ‘The Waiting Room’ e dar-lhe aquela capa. Foi demasiado poderoso.”

Poderosas são também as colaborações de Lhasa de Sela e Jehnny Beth em ‘Hey Lucinda’ e ‘We Are Dreamers!’, respetivamente. Com a vocalista das Savages, Stuart Staples cruzou-se num espetáculo de homenagem a David Lynch (“Percebi que ela era a cor de que eu andava à procura para aquela canção”, diz, elogiando a versatilidade de Jehnny Beth). Quanto a Lhasa, desaparecida no primeiro dia de 2010, ouve-se em ‘Hey Lucinda’, mas o processo de recuperar as gravações não foi pacífico. “Tive de as pôr de parte há uns cinco anos, não era capaz de ouvi-la cantar”, confessa o músico. Há cerca de um ano, regressou àquela gravação e ouviu algo diferente: “Um momento partilhado, a dois, que se foi.” Com esta nova perspetiva, a banda construiu “uma nova paisagem para a canção. E conseguimos encontrar algo mais orgânico e livre à volta do momento que havíamos partilhado”.

Fã de Tom Waits, David Bowie (que morreria semanas depois desta entrevista) e Go-Betweens, o cantor e compositor refletiu ainda sobre a química com os seus companheiros. “Sei que a relação entre o Grant [McLennan] e o Robert [Forster, dos Go-Betweens] era muito especial. As minhas relações não são tão concentradas na escrita, mas são ótimas. Creio que a razão pela qual os Tindersticks têm coração e alma é nós os três [Staples, David Boulter e Neil Fraser] sermos de Nottingham. À nossa maneira, somos espíritos inquietos”, considera. “Isso faz com que continuemos a evoluir. Temos uma noção arreigada do que é bom e do que pensamos ser mau. Se nos aborrecermos, alguém vai dizer: fá menor outra vez? Estás sempre a tocar isso!”, garante.